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Da Alemanha, com amor: A integração e o medo

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Nos últimos anos, tem-se discutido a possibilidade de os eleitores e políticos alemães tomarem opções de redução ou, até, de exclusão, das políticas da União Europeia. Este discurso foi recorrente nas últimas eleições legislativas alemãs (22/09/2013) e nas últimas eleições europeias (22 a 25 de Maio de 2014). Impõe-se a questão: quererão os cidadãos (e políticos) alemães, realmente, menos Europa e mais centrismo estatal? Iremos analisar esta questão brevemente, neste artigo.

Quando se procede ao estudo, em Ciência Política, da representação política, é possível verificar que, efetivamente, esta é realizada de forma eficiente: os partidos, sobretudo, os do centro do espectro político, estão em consonância com os seus eleitores (comprovado por autores como: Freire e Belchior, 2009 e 2014; Shapiro et al, 2009; Fishkin, 1995; Przworksi et al, 1999; e muitos outros). Este argumento leva-nos a concluir, talvez de forma conotada com o senso comum, que o facto de os eleitores alemães terem colocado Angela Merkel, e o seu partido, a CDU, na Cadeira de Ferro alemã, quer dizer que os cidadãos alemães se sentem insatisfeitos com a Europa e que portanto a Alemanha deve virar contra a inclusão.

Todavia, a análise de alguns trabalhos sobre as atitudes dos europeus (alemães em particular) permitiram perceber que as atitudes dos cidadãos alemães, na época pré-crise financeira 2007-2008 era bastante favorável face à integração (Hakhverdian et al, 2013; Andersen, 1998), contudo, com a crise, os valores face à integração baixaram, mas não só na Alemanha: em toda a Europa se verificaram maiores índices de polarização entre os diversos inquiridos (Armingeon e Ceka, 2013). Parece, então, ser claro de que os valores de integração baixam com condições desfavoráveis. Apesar de a literatura neste aspeto ainda não ser vasta (até porque apenas nos poderemos referir ao caso integrativo europeu, que nas mesmas condições, é único em todo o planeta), importa questionar até que ponto quererão os eleitores Alemães menos integração europeia: neste caso, deveremos ter em conta os discursos políticos alemães e a ênfase nos efeitos negativos que um mau desempenho económico da UE teria sobre a economia alemã e, consequentemente, na empregabilidade do mercado alemão, o que, de resto está de acordo com a perspetiva racional economicista de Anthony Downs (1957).

Ora, sucede que, ainda assim, os eleitores alemães demonstraram atitudes favoráveis à Europa e às suas instituições, quando questionados sobre elas. Tal poderá sugerir uma influência com repercussões heurísticas nas suas opiniões, sem que tal altere, de facto, os pensamentos dos alemães face à integração. De facto, a utilização dos direitos de mobilidade, na Europa conhecem, através das estatísticas publicadas no Eurostat, um crescimento em quase todos os estados-membros. Parece existir uma mudança contextual deveras curiosa.

Ainda assim: que tipo de implicações tem estes sentimentos demonstrados pelos eleitores alemães?

Do ponto de vista legal, a utilização dos direitos de mobilidade implicarão uma aceitação total da integração, no seio da União Europeia. A cada vez maior ênfase alemã na exportação, nas viagens de negócio e de turismo, por parte dos seus cidadãos e empresas, nesse sentido, parece contradizer, pelo menos em parte, esta tese: os seus cidadãos não deixaram de gozar os seus direitos, e de facto, as atitudes face à integração só começaram por baixar após a crise internacional de 2007, que colocou em causa os bancos alemães e, portanto, a capacidade de financiamento da economia.

As análises de Furedi, em Politics of Fear: Beyond Left and Right parecem, aqui, fazer sentido: o povo alemão, fustigado por crises financeiras gigantescas, após a 1ª e a 2ª Guerras, mais a crise do início do novo milénio, poderão ter alguma explicação, no que à resposta aos estímulos eleitoralistas de Merkel diz respeito: se mais Europa quer dizer nova crise económica, então o eleitor médio Alemão, mesmo gostando da integração e do projeto europeu, e na tentativa de evitar o desespero que é a fome, irá votar em Merkel, não por desaprovar o projeto europeu, mas por medo.

Sim, caro leitor, a grande conclusão a que aqui chegamos é: o medo é um determinante de atitudes e comportamentos mais importante do que outras questões relevantes, indiciando que o impulso para uma pessoa prosseguir a sua sobrevivência irá sobrepor-se ao seu impulso para perseguir os seus ideais e princípios, se se vir confrontado com estes mesmos problemas.

Ou seja, à pergunta Terá a Alemanha perdido a sua vocação Europeia? impõe-se uma nova questão: terão os políticos alemães perdido a capacidade de pensar a longo-prazo?

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