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Dia do Pai – E se eu mandasse o meu pai à merda?

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Gostava de mandar algumas pessoas à merda. Mas não seria um simples: Vai à merda! Seria uma frase dita com sentimento, com seriedade e coesão, seria de tal forma verdadeira que, em apenas três palavras, eu conseguisse atingir a paz anterior que há tantos anos anseio. Seria de tal forma eloquente que, em apenas três palavras, eu conseguisse que a pessoa desatasse a chorar num pranto envergonhada.

Nunca mandei o meu pai à merda! Nem a minha mãe. Nem um simples vai-te catar ou então vai ver se estou onde judas perdeu as botas. É o respeito e outras coisas ainda mais importantes que o respeito que me impedem de o fazer. Estou convicta até que, desculpem a minha insanidade sentimental, que eu ainda era espermatozóide e já estava com vontade de mandar o meu pai à merda. Nessa altura já previa que ele seria o excelente pai que é, cujas qualidades são impecavelmente demonstradas no meu dia-a-dia, nestes belíssimos 29 anos de vida.

Eu devia o ter mandado à merda com cinco, seis ou sete anos, quando no infantário e na escola fazíamos as prendinhas para o dia do pai, feliz como todas as outras crianças, mas só lhe entregava a prenda uns meses depois quando ele estava comigo. Homem de família, que não era a minha, e profissional exímio, super ocupado e super pai ausente.

Eu devia o ter mandado à merda quando ele não dava a pensão de alimentos à minha mãe. Quando eu chegava à noite da escola e do infantário e não jantava porque não tinha nada para comer, teria sido a altura perfeita para o mandar à merda.

Eu devia o ter mandado à merda quando ele fazia a sua vida de homem despreocupado, com viagens e romarias para ali e para acolá, enquanto eu dormia num sofá, numa sala a cair de podre, partilhada por mais três pessoas, numas casa que rangia a cada soprar do vento.

Até me perco em tantas historias maravilhosas de enorme cumplicidade entre pai e filha. Merece uma ovação de pé! Que grande homem, que grande pai, que grande avô este que me saiu na rifa!

Há pais maravilhosos, pais que merecem este estatuto de PAI, conheço poucos, infelizmente acho que todas as mulheres partilham a mesma opinião que eu. Não é uma questão de feminismo, é a realidade, é as historias que se ouve, as noticias que se lê. Há pais que nunca deveriam ter sido pais, é uma frase forte e seca, mas tem de ser escrita, foi-lhes dado essa imensa sorte mas eles não a mereciam.

Felizmente Portugal tem vindo a mudar as suas tradições, os seus ideais, a sociedade evoluiu e isso proporcionou uma serie de factores positivos para as famílias e crianças. Hoje os pais são mais presentes, mais brincalhões, mais participativos, meigos, mais compreensivos, idealistas, mais conscientes, ou seja, pais a sério!

Há um sentimento que eu tento demonstrar sempre às pessoas e principalmente aos meus filhos: não se contentem com pouco, e quando eu menciono pouco não tem a ver com dinheiro nem bens materiais, mas sim com pouco amor. Nunca nos devemos contentar com pouco amor, porque isso anula-nos como pessoas. O ser humano merece ser amado, as primeiras e principais pessoas que nos deveriam amar são os pais. Se os pais cometem erros? Claro que sim, frequentemente! Mas não amar e não cuidar é um erro que nem o perdão divino consegue assimilar. Amor gera amor. Amor cria crianças felizes que, por sua vez, serão adultos realizados.

 ” Ninguém pode escapar à relação pai-filho. Todos somos filhos de alguém, ainda que alguns se neguem por sua vez a ser pais.”

Manuel Vásquez Montalbán

Crónica de Sandra Castro
Ashram Portuense

5 Comments

5 Comments

  1. Carlos Fernandes

    21/03/2014 at 21:55

    Tudo se resume a três palavras deste texto “Amor gera amor”

  2. Marlenebernardes

    24/03/2014 at 18:26

    Só uma palavra.enfim!

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