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Donald Trump e os Profetas do Apocalipse

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Os 3 principais tópicos desta crónica são a derrota de Hillary Clinton, a vitória de Donald Trump e os papeis principais de Bernie Sanders e Barack Obama. Sem deixar de lado observações que vi pela internet e televisão fora sobre o resultado que constantemente se ia confirmando. A eleição de Trump.

Hillary Clinton ou Senhora Clinton:

– O maior adversário de Hillary nunca foi Trump. Nunca. Bernie rasgou por completo toda a campanha de Hillary com ataques aos podres da candidata. Ataques esses que Trump apenas teve de continuar a trazer à baila.

– Bernie, assim que se tornou obvia a sua derrota, podia ter apoiado Hillary, de forma total e convicta. Não o fez. Isso provocou a ideia nos seus apoiantes que Hillary não era merecedora dos seus votos. Mais tarde apoiou-a obviamente, mas sempre com alguma distância.

– Para mim o maior derrotado da noite de ontem nem chega a ser Hillary, é Obama. Obama fez o que praticamente nunca tinha sido feito. Entrou categoricamente na campanha de um possível sucessor. Entrou de rompante na campanha de Hillary assim que foi escolhida como candidata pelo partido de ambos. Obama colocou as suas fichas de forma objetiva em Hillary na convicção que os Estados que eram ‘seus’ de forma totalitária o iriam ser em relação a Hillary. Falhou. Claramente falhou.

– Hillary sai quase humilhada destas eleições. Gastou mais dinheiro. Tinha, sem margem para dúvidas, a campanha mais profissionalizada. Era a candidata mais experiente, tanto a nível político como a nível da esfera onde se movia. Perdeu e perdeu bem.

– Hillary só pode imputar estes resultados nela própria. Durante as primárias contra Bernie e durante a campanha contra Trump sempre transpareceu a imagem de demasiada convicção que não achava que a derrota pudesse sequer ser uma opção. Pois bem, em qualquer eleição todos os resultados são possíveis e isso ficou bem patente.

Donald Trump ou Apocalipse:

– Portugal tem o maior exército de profetas do apocalipse, que preveem que todos os males do mundo se irão abater sobre nós mais dia menos dia, com Trump à frente dos EUA.

– Tem também graça que estes apóstolos da desgraça não comentem o facto de os juízes do tribunal constitucional, mais precisamente os 4 mais velhos estarem em processo de renovação. Nomeados pelo novo presidente, normalmente com cariz ideológico. O equilíbrio de poderes no maior órgão de controlo constitucional americano pode mudar para 7-2 em número de juízes, com a vantagem para Republicanos. Este sim é um tema preocupante e complexo.

– O Partido Republicano mudou, indubitavelmente nunca mais será o mesmo, estamos na égide de uma reforma no Partido Republicano.

– Trump candidato será objetivamente diferente de um Trump Presidente. E esta diferença que aponto não seria tão obvia entre uma Hillary candidata e uma Hillary Presidente. O que torna a eleição de Trump neste aspeto melhor do que uma hipotética eleição de Hillary.

– O maior inimigo de Trump? Trump. Pôs constantemente em risco a sua própria campanha com comentários objetivamente exagerados e extremistas sobre situações em que pretendia marcar uma posição audível e rígida. Nem sempre a teoria do falem mal de mim, mas falem resulta, desta vez aparentemente resultou. Surpreendentemente a técnica falem mal de mim, mas falem, resultou.

Estupidez:

– A opinião em Portugal era generalizadamente esta: Se Hillary ganhar é uma decisão democrática e nobre, os Americanos são inteligentes e representam o arquétipo da Democracia Mundial. Se Trump for eleito: é um ditador. Usurpou o poder. As eleições foram conspurcadas. Os Americanos são burros. Os Estados Unidos vão começar a usar armas nucleares à mínima contrariedade. E o mundo está perdido.

Amigos, é tão democrático a Hillary ser eleita ou o Trump ser eleito. Deal with it.

– Outra pérola destas eleições, que acompanhei pelo site da BBC, CNN e na televisão na RTP3 foi o facto de José Rodrigues dos Santos ter passado a noite a dizer Trump e Senhora Clinton. Sexista too much? Pergunto-me se achará ele que se dissesse só Clinton, os espectadores achariam que estava a falar do Bill Clinton ou se é só parvo.

– O Senado não vota com o mesmo pendor ideológico do Congresso. O Senado é a nível da democracia mundial o maior Gatekeeper que existe. O Senado não permite que um candidato como Trump se torne num Presidente dentro da mesma linha. É impossível.

– Erro da campanha anti-Trump? Os maiores obstáculos colocados no caminho de Trump foram declarações obscenas sobre mulheres produzidas há 12 anos. Repito. Declarações obscenas com 12 anos. Tinha tudo para não dar em nada.

– Outra coisa fantástica foi o facto de 99% da população mundial achar que apenas existiam 2 candidatos nesta eleição. É interessante perceber a falta de qualidade da opinião destas pessoas que viram todo o filme desta eleição com palas em vários sentidos. Obviamente que existiam 2 candidatos principais, mas da mesma forma é obvio a falta do conhecimento que acabei de mencionar.

– Acho interessante as teorias de pânico que associam esta vitoria de Trump, a um possível aparecimento de governos extremistas pelo mundo fora. Amigos, a Le Pen não apareceu há um mês. Nigel Farage não apareceu há um mês. O Brexit já aconteceu há uns meses. Os movimentos de extrema direita na Europa não apareceram há um mês. Da mesma forma que a Democracia não nasceu nos Estados Unidos, não irá morrer nos Estados Unidos.

– Ora bem. Nunca gostei de sondagens, mesmo já as tendo estudado não só por curiosidade, mas também por obrigação académica, sempre me fez confusão a ideia enviesada que as sondagens são hiper mega representativas. Como vimos, falharam. Mas não falharam por pouco, falharam por muito, muitíssimo.

– Maioria silenciosa. Ainda ninguém percebeu bem o verdadeiro motivo pelo qual as sondagens falharam. Possivelmente pelo mesmo motivo que falham no resto do mundo… manipulação da forma como são construídas. A desculpa generalizada é o facto de que certos eleitores teriam vergonha de dizer a um entrevistador ou num boletim de voto fictício e não secreto, que iriam votar Trump. Isto comporta um conceito interessante de uma Maioria Silenciosa.

– Acho estranho o facto de principalmente na Europa existir um consenso alargado de que qualquer via democrática diferente da via europeia, é autocrática e imagine-se, não democrática. Vivemos numa época em que Democracia é ganhar quem queremos, e em que os sistemas em vigor perdem o valor e são reinterpretados conforme dá jeito.

Este é um pequeno resumo das principais ideias que me surgiram durante o processo da contagem dos votos.

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