01/06/2020

As eleições na Alemanha (parte II) – Nuno Araújo

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As eleições alemãs estão já a menos de duas semanas da sua realização, dia 22 de Setembro.

Neste tipo de acto eleitoral, as legislativas germânicas, cada eleitor dispõe de dois boletins de voto, sendo que um voto serve para o candidato da sua circunscrição no Parlamento, ao jeito de um círculo eleitoral de tipo nominal, e outro para o partido preferido. Este tipo de votação mista com um sistema dual permite que determinados fenómenos ocorram e que seja mais difícil de prever, com margens de erro sólidas, o resultado final deste acto eleitoral. Curiosamente, é desta forma que partidos como o Alternative für Deutschland (AfD), formados por ex-militantes de partidos como a CDU de Angela Merkel (partido maioritário no governo e no parlamento alemão), e que poderão obter até 8% nestas eleições. Porém, pela mesma lógica o AfD poderá não passar de 3% nesse Domingo crucial, 22 de Setembro.

E foi assim, observando sondagens como estas, que Angela Merkel “identificou o inimigo” desta campanha, a AfD, e determinou um objectivo: limitar o potencial de crescimento desse “pequeno” partido. Merkel percebeu já que o seu eleitorado está mais do que consolidado, a vitória nestas eleições dificilmente lhe “escapará”, e isso dá mais “força” para a actual chanceler alemã enveredar por um “ataque” à sua direita política, por forma a capitalizar votos com essa atitude.

Se existirem dois motivos fortes para se poder explicar melhor uma mais do que provável reeleição de Merkel, ter-se-à de mencionar sempre a atitude de Merkel face à sua economia, que tem sido a de promover as exportações, acima de tudo, e com isso criar condições para implementar mais postos de trabalho; e também convém não esquecer que Merkel nunca teve receio de assumir que a Grécia não poderá ser ajudada “de graça”, de tal forma que agora Merkel enfrenta com alguma tranquilidade na sua campanha o desafio de um possível terceiro resgate para Atenas, argumentando que exigirá reformas em troca de mais dinheiro para o país helénico.

Mais: Merkel já iniciou a “implosão” do SPD, pois lembrou toda esta semana que passou, os seus eleitores e toda a Alemanha, de que o SPD aprovou todas as medidas defendidas por Merkel e pelo governo alemão, para além de “desferir um golpe fatal” para as mais distantes ambições dos sociais-democratas do SPD: o apoio de Gerhard Scröder a uma Grécia que, em 2001, não disporia de condições, segundo Merkel, de entrar na zona euro. Uma ideia que, aliás, tem ganho cada vez mais adeptos, sobretudo após os boatos de que alguns bancos norte-americanos haviam ajudado os governos gregos a “mascararem” défices recorrendo a diversas ferramentas financeiras.

E desta forma, à CDU de Merkel já só restará, eventualmente, esperar por observar qual será o partido parceiro de coligação que, simultâneamente, lhe permita govenar com maioria absoluta no Bundestag, e que seja uma “aliança barata”, ou seja, o parceiro de coligação da CDU de Merkel terá de ter o mínimo de 5% para poder eleger deputados, esses que formarão maioria absoluta com os da CDU. A dúvida assenta em dois partidos, quanto a mim: os actuais parceiros de Merkel, os liberais da FDP, ou a AfD?

Creio que se Merkel se juntar ao FDP, poderá fazer uma espécie de continuação do trabalho que tem sido feito na Alemanha e na UE, trabalho esse que, “mal ou bem”, levou a que uma grande parte dos países europeus, incluindo Portugal, voltassem a conseguir gerar crescimento económico, apesar de medidas de austeridade impostas a “ferro e fogo”; se, por outro lado, Merkel convidar a AfD para formar governo, o Euro poderá entrar em mais uma fase de incertezas, e seria certamente um desfecho indesejável de elenco governamental alemão para a UE, o que se explica devido ao eurocepticismo defendido pelos dirigentes da AfD.

Minhas senhoras e meus senhores, escolhamos Mais Europa, e não um regresso aos nacionalismos.

Crónica de Nuno Araújo
Da Ocidental Praia Lusitana