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Era uma vez no cinema: Sicario

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            Em 2010, o nome de Denis Villeneuve começou a ganhar lugar de destaque no mundo cinematográfico. Tudo por causa de “Incendies”, filme muito bem recebido pela crítica e público, que acabou por valer uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Depois disso, seguiram-se três anos para Villeneuve regressar às salas de cinema. E regressou em dose dupla, com “Prisoners” e “Enemy”, ambos os filmes voltaram a conquistar a crítica internacional. No entanto, sentia-se que faltava um grande filme a Denis Villeneuve para cimentar o estatuto de um dos melhores realizadores da nova geração. Em “Sicario”, o realizador canadiense entrega-nos esse grande filme, naquele que é o seu melhor trabalho até o momento.

            O mundo das drogas e as vivências entre cartéis já foram alvo de inúmeros filmes, o que torna cada vez mais difícil trazer algo de novo ao género. No entanto, “Sicario” consegue destacar-se pela sua autenticidade e dinâmica. Villeneuve cria uma atmosfera sufocante para nos mostrar a dura realidade para lá da fronteira entre os Estados Unidos da América e o México. E para isso contou com a preciosa ajuda de Jóhann Jóhannsson, músico responsável pela impactante e brilhante banda sonora da obra, trazendo ao filme um clima de tensão permanente. E ao nível da fotografia? Fascinante! Mais uma vez, Roger Deakins, director de fotografia nomeado por doze vezes ao Óscar de Melhor Fotografia, brinda-nos com um trabalho formidável.

             Para além da excelente abordagem ao mundo do crime, “Sicario” é essencialmente um grande estudo de personagem. Marce (Emily Blunt) é uma agente do FBI que rege a sua vida segundo princípios morais e regras. Quando se vê envolvida nos acontecimentos para lá da fronteira, onde não existem leis nem moralidade, torna-se cada vez mais difícil manter as suas mãos limpas num “jogo” que a própria desconhece. Como Alejandro diz a Marce bem perto do fím: “Tu não és um lobo. Esta agora é uma terra de lobos”. Ao contrário do habitual, não existe uma aura de heroísmo em torno de Marce, pelo contrário, é a sua humanização e fragilidade que nos conecta tanto à personagem. Esta construção precisa e bem estruturada da protagonista deve-se muito à óptima prestação de Emily Blunt, que tem aqui, muito provavelmente, o melhor trabalho da sua carreira. Ela é o grande destaque no que diz respeito ao elenco, embora Josh Brolin e principalmente Benicio Del Toro também estejam a bom nível.

            “Sicario” tem ainda a proeza de reunir algumas das melhores cenas do ano. A sequência nas ruas Juaréz, a cena dos túneis, numa clara homenagem à mítica cena de “The Silence of the Lambs”, o fantástico diálogo perto do fim entre a personagem de Marce e Alejandro, e a cena que encerra o filme, são exemplos do melhor que foi feito neste ano cinematográfico.

            Inexplicavelmente, parece-me que “Sicario” será esquecido nesta época de prémios. Melhor Filme, Melhor Actriz Primária, Melhor Banda Sonora e Melhor Fotografia, são algumas das categorias em que “Sicario” deveria estar nomeado. Independentemente disso, “Sicario” é um dos melhores filmes do ano (dos que já vi, apenas “Mad Max: Fury Road” é superior). A quebra de ritmo a meio e o destino dado à personagem de Alejandro impedem-no de ser uma obra-prima, mas não deixa de ser um grande filme, de um apuro técnico formidável. O melhor de tudo é que a carreira de Villeneuve ainda só está no início!

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