Eu sempre quis ser menina do papá… – Sandra Castro

Eu sempre quis ser menina do papá, mas nunca fui.

Eu fui fruto de uma paixão fugaz, de uma relação condenada ao fracasso por uma tremenda incompatibilidade de feitios. Embora isto não seja motivo para não ter sido menina do papá, achei importante realçar este facto.

Relembro a minha infância com alguma ternura e magoa. Faltou-me um item fundamental na vida de uma criança: prioridade!

Eu sempre quis ser daquelas meninas que os pais se babam ao olhar para elas de vestidinho e fita na cabeça, que se babam ao falar das traquinices das filhas. Daquelas meninas que os pais ensinam a andar, vão ao parque, brincam às escondidas, contam historias de embalar à noite antes de dormirem, dão colinho, muito colinho, ensinam a falar pa-pá e quando aprendemos mamã, os pais sorriem.

Lembro-me de ir às festas de aniversario das amiguinhas do infantário e ficar maravilhada com os quartos delas, pintados de cor-de-rosa, cheios de bonecas barbie e nenucos, com uma cama com edredão rosa e um candeeiro com flores. Eu dormia numa sala num sofá cama. Mas o que eu realmente adorava nestas festas era ver e sentir a cumplicidade entre mãe e pai. Tão juntos e felizes num ambiente tão harmonioso que eu desconhecia por completo.

Também me lembro de ficar ansiosa quando chegava a hora dos pais irem buscar as crianças ao infantário. Sempre que tocava a campainha eu vinha à porta com a esperança de ser o meu pai que me viesse buscar! Tocava uma vez, era o pai das gémeas, um xi-coração e um beijinho que ele lhes dava sempre, tocava novamente e era o pai da Margarida…até que já cansada de me ver nesta correria, a minha educadora, a Zeza, me diz: Sandra, o teu pai não te vem buscar. Vai brincar vai. Pois não, ele não vinha hoje como não veio ontem nem viria amanha. Eu tinha oito anos.

As prendas feitas por nós, no infantário e na escola, para o dia do Pai ficavam guardadas religiosamente, qual tesouro qual quê, para eu lhe entregar pessoalmente. Passavam meses e os tesouros ainda guardados.

A fase da minha pré adolescência foi um pouco difícil, a adaptação a uma nova escola, transformação do meu corpo, novas amizades, primeiros namoricos, afirmação enquanto menina-adolescente. Recordo-me como se tivesse sido ontem, numa bela tarde fomos os quatro a um armazém aonde estava a decorrer um casting para modelos duma agência qualquer. Claro que o casting não era para mim, era para a filha da mulher do meu pai. Foi uma tarde dolorosa para mim. No fundo eu só queria passar tempo de qualidade com o meu pai, mas ele não tinha tardes disponíveis para mim.

Quis que eu aprendesse aulas de piano, claro que não correu bem, se o meu pai me conhecesse bem nunca me colocaria em aulas de piano mas sim em aulas de dança. Actividades calmas e paradas não combinam com a minha personalidade frenética.

E as ferias em Peniche? Um desastre pois claro. Quando um homem tem filhos de relações anteriores e inicia uma nova relação, tem de assegurar que a mulher  tenha qualidades suficientes para não distanciar ainda mais a relação pai e filhos. Claro que não foi o que aconteceu. Um simples mergulho nas aguas azuis de Peniche, acabaram num pesadelo de discussão durante toda a viagem e a entrega à minha mãe mais cedo do que o combinado.

Mas foi quando decidi deixar os estudos e ingressar no mercado de trabalho que a atitude do meu pai me chocou. Além de ver impossibilitada a ideia de tirar um curso que ia ser pago por mim, também deixou de me contactar. Nunca mas mesmo nunca, seja em que circunstancia for, um pai deve deixar de falar para a filha.

Apesar de me ter sido incutido o gosto pela leitura, pelo desporto, pela boa alimentação, há um valor que os meus pais não me ensinaram mas que eu faço questão de ensinar aos meus filhos. Nós podemos ter pouca coisa na vida, um quarto pequeno, pouca roupa, poucos amigos e sermos felizes, porque o pouco não significa que seja mau, muito pelo contrario. Mas nunca nos devemos contentar com pouco amor. O amor deve ser dado e demonstrado em doses industriais. Nunca nos devemos contentar com  pouco amor porque pouco amor nunca chega. E se esse grande amor for dado pelos pais podem ter a certeza que vão criar filhos felizes, e posteriormente adultos emocionalmente preenchidos.

Crónica de Sandra Castro
Ashram Portuense