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Eu vi-te onde Judas perdeu as botas

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“Eu vi-te”. Estas palavras têm vindo a gerar uma quantidade considerável de páginas no Facebook. Têm como objectivo servir de ponto de encontro a pessoas que se cruzaram com alguém num sítio qualquer, sobretudo nos transportes públicos. Basta mandar um testemunho para a página e está feito. Resta esperar e ver se aquele rapaz ou rapariga se dão como “culpados”. Até ao momento não sei se foi possível algum reencontro. Confesso que não tenho nenhuma dessas páginas na minha lista de interesses e conheço-as por mera curiosidade.

Sinto-me de parte. Eu não ando de transportes públicos. Não posso escrever verdadeiros parágrafos românticos acerca de um rapaz que partilhava a mesma carruagem do metro comigo ou que saiu na mesma paragem que eu. Para quando a criação da página: “vi-te parado dentro de um BMW vermelho nos semáforos dos Aliados”? Ou “vi-te na VCI sentido Freixo/Arrábida quando te ultrapassei e, apesar de achar-te um verdadeiro abécula a conduzir, reparei que tinhas uns olhos lindíssimos”? Só tem direito a romance quem anda de transportes públicos?

Ao visitar essas páginas reparo que temos muita gente com capacidade para escrever romances. Não fariam o meu género uma vez que seriam muito parecidos aos da Margarida Rebelo Pinto, mas haviam de agradar a alguém. É incrível a capacidade de memória que aquelas pessoas possuem. Parece que estou dentro dum filme,no mesmo autocarro que elas. Tenho de admitir que já chorei duas ou três vezes a ler alguns daqueles testemunhos.

Não acredito em amores à primeira vista. Para mim nada mais é do que atracção física. Como é possível que nos apaixonemos por alguém com quem nunca falámos e que não conhecemos minimamente? Não consigo conceber isso. Às vezes apaixonamo-nos pela ideia que temos de alguém. Mais nada.

Eu própria já tive essas trocas de olhares nos transportes públicos. Já toda a gente deve ter tido. Mas no dia seguinte já nem me lembrava disso. Já não sabia a cor do cabelo do rapaz, a roupa que levava vestida e a paragem onde saiu. E nunca olhei para trás a pensar que podia ter perdido o amor da minha vida. Se realmente achamos alguém engraçado, colocamos a vergonha de lado. E dando uso a dois clichés: “quem tem vergonha passa mal” e “só nos devemos arrepender daquilo que não fizemos”.

Fico à espera de ver o primeiro relacionamento de alguém que se reencontrou naquela página. “Vou-te contar como conheci a tua mãe. Partilhámos o mesmo autocarro um dia e três anos mais tarde criaram uma página no Facebook onde podíamos procurar gente que tínhamos visto em determinado sítio. Eu acabei logo com a minha namorada da altura e fui ter com a tua mãe.” A história do “How I Met Your Mother” seria bem mais engraçada se tivesse sido feita a partir duma história assim.

BárbaraBorralhoLogoCrónica de Bárbara Borralho
Riso sem siso

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