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Como Game of Thrones e The Walking Dead Mudaram as Séries para Sempre

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Em nenhum outro momento da história a humanidade viu tantas séries como actualmente. Existem em quantidade e qualidade, ficando literalmente à escolha do freguês aquilo que quer consumir. Mas, independentemente dos gostos, parece-me pacífico afirmar que duas séries estão acima de todas as outras: Game of Thrones e The Walking Dead têm mais audiências e geram mais discussão online que quase todas as restantes concorrentes juntas. Mas as obras-primas acima citadas conseguiram muito mais do que isto. Em poucos anos (que é como quem diz “poucas temporadas”) mudaram para sempre o mundo das séries a nível mundial. Como? É que isso mesmo que vamos tentar perceber no “Desnecessariamente Complicado” desta semana!

Antes de irmos ao tema propriamente dito vou descansar os leitores mais curiosos (e defender-me antecipadamente dos críticos): sim, vejo GoT e TWD. Sou fã de ambas as séries desde o seu início e, tal como a restante população a nível mundial, desespero de cada vez que as ditas param temporariamente ou definitivamente. Não sou um completo geek (talvez seja meio geek, vá), mas compreendo perfeitamente quem o é. Sim, porque quem nos tira o Rick Grimes ou a belíssima Daenerys Targaryen tira-nos tudo, não é verdade?

Praticamente desde sempre que existiram filmes/séries sobre zombies, certo? Então como raio consegue a série Walking Dead ser tão refrescante, e inovadora, semana após semana e temporada após temporada? E dado o gigantesco número de filmes/séries sobre reis, rainhas, guerreiros, escravos e afins como consegue Game of Thrones ser igualmente viciante, prendendo-nos ao ecrã de uma forma nunca vista? Eu diria que não existe um só segredo. Na minha opinião são múltiplos os motivos para tanto sucesso. E vamos fazer uma passagem por alguns deles nesta crónica.

Primeiro, as duas séries são adaptações, mais ou menos literais, de obras literárias (no caso de GoT estamos a falar de “A Song of Ice and Fire” do mestre George R.R. Martin, e no caso de TWD de uma banda desenhada com o mesmo nome). Este é, na minha opinião, um dos maiores segredos. Porquê? Porque o facto de ser baseada numa obra já existente traz inúmeros benefícios. O maior deles todos é a qualidade do argumento. É que escrever uma série de propósito para a televisão e adaptar algo já existente não é, de todo, a mesma coisa. Não que os argumentistas das séries não tenham qualidade (têm e muita, como provam semanalmente), mas sim porque podem ter desde logo acesso a toda a história e, a partir daí, trabalhá-la como melhor entenderem.

Terá Jon Snow morrido?

Terá Jon Snow morrido?

Segundo: uma das maiores novidades que ambas as produções trouxeram foi o facto de não seguirem sempre as obras originais. Claro que grande parte dos acontecimentos são iguais (ou muito semelhantes), contudo os realizadores e argumentistas fizeram alguns arranjos (se para melhor ou pior é uma discussão para outra crónica). E esses retoques não só dão uma alma renovada à série, não a tornando aborrecida para quem leu os livros, como permitem contornar grande parte dos spoilers por parte desses mesmos leitores (dado que nunca se sabe o que será igual e o que será completamente diferente do original). E, escusado será dizer, que esta opção ainda dá mais liberdade a quem escreve, e realiza, as séries.

E aos dois argumentos já apresentados junto um terceiro, absolutamente fundamental: a colaboração dos autores das obras originais. É que em ambos os casos os autores não só acompanham o processo de escrita e gravação das cenas, como ainda têm uma palavra a dizer no produto final. Ou seja? Se por algum motivo o argumento perder qualidade, ou seguir uma direcção completamente descabida, estão lá os autores originais para colocar tudo, novamente, na rota do sucesso.  Estas colaborações também evitam eventuais desentendimentos entre os autores e os realizadores e argumentistas ou mesmo a ira dos fãs por desconsiderarem os seus mestres. Simples, eficaz e mais uma garantia de sucesso a curto e a longo prazo.

Em quarto lugar temos a vertente técnica. Ambas as séries têm uma forte componente de efeitos especiais, como tal a parte técnica assume uma importância ainda maior do que na maioria das séries. É que, parecendo que não, zombies e reinos medievais não se encontram ao virar de cada esquina, certo? A qualidade da maquilhagem ou os planos arriscados das câmaras em algumas cenas acabam por ajudar, e muito, ao resultado final. O verdadeiro fã não só vê a série pela história, como está atento aos mais pequenos detalhes. Por isso ter um zombie credível ou um plano inesperado é o que separa The Walking Dead e Game of Thrones das séries, ditas, normais.

Em quinto lugar temos a forte aposta no marketing. É que ambas as séries apostaram, desde o primeiro minuto, na construção de marcas fortes e omnipresentes. Seja na televisão, em revistas ou na internet é praticamente garantido que estão lá os actores, o realizador ou um cronista a falar da mais recente polémica em torno das gigantescas produções. E seja nos Estados Unidos da América, na Alemanha ou na Indonésia é certinho que a maioria da população não só sabe que as ditas séries existem (e qual a premissa base das suas histórias, e alguns dos actores que nela trabalham, apenas para dar dois exemplos) como é espectador assíduo das mesmas. Esta aposta tornou ambas as marcas globais. Ou seja, não são apenas um produto norte-americano ou europeu, mas sim mundial, atraindo a atenção de todas as faixas etárias e todos os géneros, raças e credos.

E o sexto segredo está directamente ligado ao quinto: as comunidades online. Tanto num caso como noutro a vertente online é de extrema importância. As redes sociais e os canais de Youtube fazem com que o interesse pelas séries nunca diminua. O que é que acontece quando o leitor acaba de ver o mais recente episódio de qualquer outra série? Nada. Já viu o episódio, satisfazendo a sua curiosidade, e agora resta-lhe esperar pelo próximo daqui a uma semana (isto partindo do principio que o viu quando foi emitido, ou no máximo no dia seguinte, caso contrário faltará menos do que uma semana, obviamente). Pois com Walking Dead e Game of Thrones acontece o oposto: a visualização do episódio é apenas o início de tudo. Depois ainda falta: ler a análise do episódio por alguns cronistas famosos; ver as amostras do próximo episódio que abrem o apetite e fazem crescer a ansiedade; ver os detalhes que nos escaparam neste episódio num qualquer canal de Youtube com milhares de subscritores; ler as teorias para o futuro da série numa qualquer página de Facebook ou mesmo procurar spoilers sobre o destino das nossas personagens favoritas (ou fugir deles, dependendo do tipo de fã de que estamos a falar). Conclusão? A série nunca chega a verdadeiramente a “partir” da nossa mente. Está sempre lá, mesmo que seja em segundo plano, consumindo alguma da nossa atenção.

E se ao início apenas consultávamos uma fonte, passadas algumas temporadas (ou uma série de acontecimentos especialmente interessantes, por exemplo), tornamo-nos fãs a tempo inteiro, não deixando escapar nenhum detalhe, por mais pequeno que seja. Agora, os produtores da série apenas são responsáveis por “metade” deste trabalho. Eles criam o conteúdo, e tornam-no atractivo, mas se ninguém se interessar por ele nada disto acontecerá. Nem sempre uma boa série ganha uma comunidade online à sua altura.

O sétimo segredo é aquele que todos conhecem: a imprevisibilidade. Todas as séries são um oceano de possibilidades. Ninguém sabe verdadeiramente o que acontecerá no próximo episódio, ou na próxima temporada, seja de que série for. Contudo Game of Thrones e Walking Dead jogam com isso a seu favor como ninguém tinha feito anteriormente. Os argumentistas de ambas as séries revelaram-se autênticos génios na arte de surpreender no rumo tomado ou no suspense criado de episódio para episódio ou de temporada para temporada. Matar uma das principais personagens passou de algo proibitivo para algo estranhamente normal. Antes destes dois casos que série se atreveria a matar a personagem mais adorada pelos fãs? Nenhuma. Que argumentista deixaria milhões de fãs na dúvida durante meses sobre qual o destino do herói, do vilão ou da inocente criança? Nenhum. Por falta de coragem ou simplesmente pelas características da série ou das personagens, antigamente não havia dúvida da longevidade do bom ou do mau da fita. Mas tudo mudou com o aparecimento destas duas séries. Agora nada, nem ninguém, está seguro. Tudo pode acontecer. De um momento para o outro o herói pode morrer ou o vilão pode ficar gravemente ferido. Esse “factor surpresa” é um dos maiores segredos de ambas as produções.

E por último, mas não menos importante, temos a qualidade dos actores. Sim, porque se tudo o resto corresse bem mas os actores não tivessem a qualidade esperada, nada funcionaria. Mas nestes dois casos o mérito é muito superior dado que estamos a falar de actores, e actrizes, praticamente desconhecidos da maioria da população. Calma, eu sei que alguns são conceituados, tendo trabalhado em dezenas de filmes e séries e vencendo alguns prémios. Mas a verdade é que a maioria era absolutamente inexistente para o grande público. Trabalhar com grandes actores quase todos conseguem, mas criar estrelas mundiais do dia para a noite só está ao alcance dos melhores profissionais do ramo. No fundo esta é a cereja no topo do grandioso bolo que é Walking Dead e Game of Thrones.

Na sexta temporada de The Walking Dead, Glenn protagonizou a mais recente polémica da série

Na sexta temporada de The Walking Dead, Glenn protagonizou a mais recente polémica da série

Para já o sucesso de ambas as produções só tem subido, e subido, e subido. Todas as semanas batem recordes e ameaçam mandar a internet abaixo tamanhas são as polémicas que criam. Mas como tudo na vida também terão um fim, obviamente. Para já tal cenário não parece plausível. Ainda existe muito caminho para percorrer antes de assistirmos ao último fôlego de tão ilustres personagens.

O leitor pode ser um fã acérrimo ou nem sequer poder ver o nome das séries à frente, mas uma coisa lhe garanto: não lhes consegue ficar indiferente. O mundo das séries mudou, para sempre, graças a estas duas produções.

Será que alguma produção se vai tentar intrometer neste duelo pela disputa da atenção dos espectadores (e dos internautas) a nível mundial? É caso para citar a mítica série “DragonBall Z” e dizer: “não percam o próximo episódio porque nós também não!”.

Boa semana.
Boas leituras.

 

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