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Grécia: e o acordo, pá?

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A Comissão Europeia “ofereceu” um resgate à Grécia como solução imediata. Varoufakis e Tsipras recusaram. E agora? É uma situação delicada, mas não concordo com Francisco Louçã, quando afirma no seu blogue do Público que “isto quer dizer simplesmente que a Grécia é expulsa do euro dentro de dias ou semanas”. A Comissão Europeia não seria tão irresponsável ao ponto de expulsar um parceiro europeu, que ainda por cima tem muito dinheiro para pagar de volta aos restantes países da UE (União Europeia). Mas a verdade é que a esquerda que realmente quer governar não é aquela que recusa participar em soluções mais alargadas, nem a esquerda que rejeita conversações ou propostas que não as suas. A isto chama-se sectarismo. E o Syriza corre esse perigo, mesmo coligado com os Independentes Gregos de direita nacionalista.

Na Grécia, o governo liderado por Tsipras e Varoufakis tentará durante mais duas semanas, a meu ver, “esticar a corda” na tentativa de se colocar numa boa posição negocial para obter mais tempo para gerir a sua dívida externa. Tsipras já conseguiu uma pequena vitória, com as garantias do BCE (Banco Central Europeu) de que irá financiamento dos bancos gregos, que assim poderão ir fomentando entretanto a economia helénica. Não se tratará, julgo eu, de a Grécia tentar “empurrar a UE contra a parede”, mas antes de mostrar que os helénicos detêm algum poder negocial, nomeadamente possuindo a “amizade” com os russos, já firmemente estabelecidos em Chipre. Por isso, não será uma opção realista vermos o governo do Syriza aceitar como solução mais um resgate proposto como solução pela Comissão Europeia. Tsipras iria sempre preferir negociar empréstimos com a Rússia de Putin, tão interessada em marcar presença em assuntos europeus.

A orientação da política da Comissão Europeia é de uma profunda desorientação, e responde de forma errada a mais uma crise política. Esta é também uma crise marcada por sucessivas falhas na comunicação, cometidas por ambos os lados, grego e da UE, onde a desadequada semântica usada em declarações nos media, ruidoso “canal” no epicentro desta crise, tem sido a responsável por “minar” o delicado campo da opinião pública. A meu ver, as perguntas colocadas não têm sido as mais correctas. Pergunte-se: como gerir tempos e espaços para negociações profícuas com uma Grécia governada por políticos radicais, com estratégias dissonantes dos restantes governos europeus? Como assegurar uma estratégia comum inclusiva para a Grécia? Que modelo de crescimento para a Grécia e UE, visto o actual ter falhado? Até Portugal, que cumpriu o seu programa de resgate, poderá ser um país exemplar de sucesso no seu ajustamento, quando tem largas dezenas milhares de cidadãos seus naturais emigrados desde 2011 e outros tantos desempregados e salários miseráveis? A todas estas perguntas deverá o hábil e sapiente Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia, saber propor caminhos, pois a incerteza reinante no mundo dos mercados financeiros é imensa, no que toca a um possível default grego.

As negociações entre UE e Grécia devem obedecer ao estabelecimento de princípios gerais de acordo, para que este impasse cesse, impasse esse que só agrada a quem deseja “derrotar” a Europa economicamente. Europeístas como Juncker, ou até Mario Draghi, chefe do BCE, já são poucos, na medida em que todos serão necessários para inverter uma tendência para o declínio europeu…e enquanto isso durar, a Grécia pode mesmo “ir abaixo”, já em meados de Abril, mas a restante UE também…por isso, sejamos a favor ou contra o governo de Tsipras ou da frente europeia dominada por Merkel, sejamos sim a favor de algo que nos une mais do aquilo que nos separa: um acordo bom para toda a Europa.

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