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Ide para o raio que vos parta!

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Nesta crónica não vou usar palavras caras, nem fazer comparações bizarras, nem utilizar o meu humor negro característico da minha escrita. Nesta crónica vou usar o português calão, a linguagem corrente, as palavras que ouço diariamente ditas pelos alunos, professores, comerciantes, trabalhadores, gente do povo que está saturada da forma como se governa este país.

Faço pela vida, mas infelizmente também tenho de fazer pela vida dos outros. Levanto-me cedo para ir trabalhar todos os míseros dias, mas há muita boa gente que fica com o cu na cama, porque o dinheiro lhes vem parar à mão em forma de vale todos os meses. E quando saio do trabalho cansada e sem pachorra, vejo essa mesma malta que ficou com o cu na cama até ao meio-dia, enfiados nos cafés a lanchar. Que puta de lata! Estão a comer à minha pala!

Mas como trabalhar oito horas por dia neste país não chega, ainda tenho o meu part-time, na qual invisto muito suor, energia e tempo porque para o Passos Coelho eu sou rica, tenho dois filhos com idades pré escolar e primeiro ciclo, não faço parte do grupo de pais que não paga absolutamente nada no que diz respeito à situação escolar das crianças, eles tem livros escolares gratuitos, material escolar gratuito, refeições gratuitas, actividades gratuitas, transportes gratuitos, eu, Sandra Castro, pago absolutamente tudo e não bufo! Coitadinhos dos pais, não podem acarretar com tantas despesas, coitadinhos, com quatro ou cinco filhos uns a seguir aos outros ( que eu saiba os métodos contraceptivos ainda são gratuitos), a fumarem dois maços de tabaco por dia, as mães com aquelas unhas compridas, com gel ou gelinho ou lá como essa merda se chama, com os cabelos loiros com uma raiz preta que fica uma elegância, com os dentes todos podres, os pais com ar de quem acabaram de fumar umas ganzas, os putos vão para a escola todos cagados, cheios de piolhos, sem modos e educação, saem da escola os pais enchem-lhes a barriga com pacotes de batatas fritas e chupas. Mas estes pais é que são o máximo, merecem realmente que lhes seja tudo pago porque eles são pobres, coitadinhos. O meu filho pratica Jiu-Jitsu ( federado bi-campeão nacional, não me contive, tenho de me gabar também), paga! O caçula pratica natação, paga! Refeições na escola, paga! Horário extra- laboral na escola, paga! Atl para as férias, paga! Livros escolares, fichas de apoio e material, paga! Dentista, paga! Medicação, paga! És boa mãe, paga, és bom pai, paga!

Se há sensivelmente quinze anos atrás houve um boom no financiamento dos bancos para comprar casa, hoje em dia isso acabou. Há quinze anos atrás para pedir cem mil euros bastava mostrar os dentes, hoje para pedir um empréstimo de mil euros não chega mostrar o rabo. Já não se compra casas em Portugal, o mercado estagnou, toca a incentivar o arrendamento. Eu pago casa arrendada todos os meses, mas há chicos-espertos a quem a segurança social paga casa, luz e agua. Ma se não for um dos felizes contemplados, também pode lhe ser atribuída uma casa com uma renda baixa, como acontece nos bairros. As casas nos bairros da cidade do Porto são um luxo, já não tem janelas, algumas nem portas, paredes rabiscadas com desenhos e grafites, cheio de lixo à porta, desde fraldas, tachos a preservativos é possível encontrar de tudo no chão. Foda-se, mas estão a brincar comigo? Quase todos os anos faço obras numa casa que não é minha, e estes tipos que não fazem a ponta de um corno, estragam a casa que lhes é dada ou arrendada por uma bagatela!

Pelo menos ainda posso me dedicar a um dos maiores prazeres da vida, comer! Ter uma alimentação saudável já não faz parte do vocabulário da classe mediana. Todos os bens essenciais estão caríssimos, quando nos deslocamos a um supermercado não chegam cinquenta euros, o peixe está pela hora da morte, a carne não sabe a nada, as leguminosas e cereais perderam qualidade, ser vegetariana está fora de questão, não vivo de alfaces e beterraba. Então o que vou comer bom e barato? Merda.

Ter saúde ainda é o melhor neste país…agora mais do que nunca! Pensamento do dia: Não ficar doente! Não ter nenhum problema de saúde que implique a espera de um medicamento que me cura, mas que tem um preço tão elevado quanto a ganancia o desejar, não ter nenhuma dor em que seja necessário algum fármaco, porque ainda hoje foram suspensos umas dezenas de medicamentos por falhas nos ensaios, o que significa que eu não sei o que estou a ingerir e, por ultimo, não necessitar de ir a uma urgência hospitalar, porque não há médicos suficientes e as urgências estão lotadas, como se fossemos gado há espera de ser abatido. Os nossos estudantes de medicina emigram para terem trabalho, em Portugal não há médicos suficientes. Não há dinheiro, não há mais verbas no valor de milhares de euros para os hospitais, dizem eles. Não há dinheiro porque gastaram tudo em resgatar as dividas dos bancos da ganancia, seus filhos da…

O ideal neste país alem de não fazer absolutamente nada, é roubar, matar, violar ou traficar droga, porque vamos presos e estamos numa boa. As selfies que os presos das cadeias portuguesas tiram e colocam nas redes sociais não deixam margem para dúvidas. Que bela vida! Estão felizes! Ginásio, roupa lavada, comidinha caseira, tiram um curso de mecânica, outro de jardinagem, a família vai trazendo uns charros, uns saquinhos de heroína, os guardas prisionais subornados deixam passar aquela faca com que vai tirar as tripas a um gajo do grupo rival, uma pistola para intimidar o tipo que acabou de chegar à cela, umas kekas na hora da visita da esposa, pumba mais um filho, e assim se vai fazendo a vida nas cadeias portuguesas. Estar preso não é para quem quer, é para quem pode, meus caros!

Mas quando achamos que já vimos de tudo, vemos duas centenas de portugueses a marcharem rumo à prisão de Évora, numa manifestação de apoio a José Sócrates, cantaram a musica Grândola, Vila Morena (por esta altura Zeca Afonso deve ter dado voltas ao túmulo), levaram cartazes e tudo…até fico sem saber o que escrever, cambada de maltrapilhos.

Estou cansada deste país super endividado, os meus bisnetos ainda vão pagar os excessos cometidos pelo anterior e actual governo, a única herança que deixo para os meus filhos é o sofrimento visível no meu rosto e do pai pelo esforço desmedido que tivemos de fazer para os educar e formar. Estou cansada deste povo que não gosta de trabalhar, não fazem nada pela vida nem pela sociedade, autenticas parasitas sustentados pelas pessoas trabalhadoras e honestas. Este país não terá dinheiro para a minha reforma, apesar de eu trabalhar desde os dezasseis anos, mas tem dinheiro para pagar abortos a porcas que não sabem o que andam a fazer, tem dinheiro para seguranças privados deste e daquele, para não sei quantos deputados que andam a pastar na Assembleia, para automóveis de luxo, quando deviam andar em transportes públicos como acontece em vários países. Este país não tem dinheiro para a medicação que cura os doentes com Hepatite C, mas tem dinheiro para a metadona para os gajos da droga não ressacarem cheios de dores. Portugal já vendeu tudo, já não temos nada, vá lá ainda nos resta as praias e os mijatorios espalhados pelas cidades. Estou sem esperança, sem fé no futuro, revoltada, triste e envergonhada, eu e mais uns milhares de portugueses. Ide para o raio que vos parta!

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