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O Incrível Mundo das Visitas de Estudo

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Estimado leitor, por acaso encontra-se cansado da sua rotina diária? Já não aguenta o aborrecimento da vida adulta? Procura incessantemente a frescura e a excitação da sua juventude e adolescência? Então guarde os próximos minutos para o “Desnecessariamente Complicado” desta semana! Porquê? Porque esta semana decidi recordar uma das maiores instituições da nossa meninice: as visitas de estudo! Preparados para esta viagem alucinante? Então toca de colocar os cintos de segurança que o autocarro do Mais Opinião vai partir!

Dado que este é um tema muito extenso, proponho irmos por partes, o que vos parece? Ainda bem que concordam, estamos sem dúvida a começar bem! Prometo tentar abordar literalmente tudo, analisando tópico a tópico e não deixando nada para trás!

Primeiro: qualquer criança faz tudo para sair da escola, logo as visitas de estudo eram motivo mais do que suficiente para sincera excitação em todas as crianças/jovens da turma! Claro que se o destino fosse espectacular isso aumentava ainda mais a expectativa (mas mesmo a ida a um museu aborrecido era motivo para histeria incontrolável)!

O nosso nível de alegria variava consoante a nossa idade: ou seja, quanto mais velhos fôssemos menos alegria exteriorizávamos. Até uma certa idade vale tudo (gritos, umas quantas lágrimas, saltos e até pontapés no Universo eram admissíveis), contudo poucos anos depois tudo muda. Os gritos são trocados por expressões cool e que nos fazem parecer mais fixes perante os nossos amigos (nomeadamente “yes”, desde que dito em tom épico e bem alto), as lágrimas tornam-se proibidas (sob pena de nos fazerem parecer uns “mariquinhas”) e os saltos e pontapés na atmosfera dão lugar a posts nas redes sociais (algo que, felizmente ou infelizmente, não havia no nosso tempo).

Segundo: convencer os progenitores a deixarem-nos ir às visitas de estudo era uma batalha titânica! Independentemente do destino da viagem algumas coisas estavam garantidas à partida, sendo esta uma delas. E se às vezes era impossível convencer os pais, na maioria das vezes levávamos a nossa vontade a bom porto (o que era encarado como uma vitória na Final da Liga dos Campeões perante 100 mil pessoas, obviamente)!

Escusado será dizer que a parte mais “secante” de persuadir os pais era…ouvir todos os seus conselhos pela milésima vez! Desde os básicos “olha sempre para os dois lados antes de atravessares na passadeira” aos mais extremos “queres prevenir e levar preservativos na carteira?” (pelo menos no caso dos pais com a mente mais aberta, claro) havia de tudo. O que se repetia era a nossa falta de atenção para com os ditos conselhos….

Terceiro: os preparativos eram sempre exageradamente detalhados. Graças às nossas queridas mães (e, também, aos nossos queridos pais) era certinho que levaríamos quase toda a casa na nossa mochila. Aquilo que era suposto ser divertido tornava-se estranhamente enfadonho (até porque sabíamos que aquele peso ia ser acartado pelas nossas costas…).

Lenços de papel caso aconteça um “acidente” durante o almoço? Check. Blocos de notas para não nos escapar nenhum detalhe da visita? Check. Um livro, música ou mesmo palavras cruzadas para nos entretermos durante a viagem? Check. Roupa e calçado confortável para assegurar uma viagem tranquila e sem mazelas? Check. Vocês já perceberam onde é que eu quero chegar, certo? Então avancemos.

Quarto: a viagem de ida e volta. Este é um tópico tão extenso que podia muito bem dar uma crónica por si só! Acima de tudo dávamos atenção a duas coisas: a quem se sentava ao nosso lado (e à nossa frente, atrás de nós e do nosso outro lado também, claro) e em que parte do autocarro ficávamos situados. Sim, porque ir nos primeiros lugares era uma coisa e ir nos últimos era outra completamente diferente! Toda a gente sabia que nos últimos lugares do autocarro apenas iam….os mais populares e os mais engraçados da turma (clube a que só pertence quem pode e não quem quer, entenda-se). Ou seja quanto mais perto estivéssemos dos primeiros lugares menos fixes éramos. Tudo isto tornava extremamente importante o momento em que entrávamos para o autocarro (bastava uma distracção, ou um atraso, para apenas restarem os primeiros lugares da camioneta). Para quem não tinha muitos amigos estes momentos eram…solitários (ver e ouvir todos os outros a falar e a rir e não ter ninguém com quem o fazer pode ser muito doloroso, acreditem).

Estes eram também os momentos perfeitos para…fazer de tudo um pouco. Desde tentar engatar aquela rapariga por quem sempre tivemos um fraquinho, até contar todas as piadas de que nos lembrássemos, valia quase tudo! E aqueles “rebeldes” que passavam o tempo todo em pé durante a viagem? Ahh, que grandes memórias que o tema “visitas de estudo” nos traz!

Muitas das vezes a maior luta era…evitar adormecer na viagem de regresso a casa! Não só para evitar sermos gozados pelos nossos amigos como para não perder pitada do que estava a acontecer! Neste capítulo em particular eu confesso…ter falhado quase sempre. Desde pequenino que adormeço sempre nas viagens de carro (ou de comboio e de camioneta, para que conste) portanto podem imaginar quão difíceis eram as visitas de estudo para mim!

Um dos maiores clássicos das visitas de estudo eram…as músicas que cantávamos durante as viagens de autocarro! Quem é que se recorda do mórbido “Senhor Condutor, por favor, coloque o pé no acelerador/ Se bater, não faz mal, vamos todos para o hospital”? Todos, obviamente! Já agora, que sentido fazia esta letra? Porque raio cantávamos nós algo tão parvo? Porque carga de água teríamos tamanho desejo de experienciar velocidades alucinantes, a bordo de um autocarro, e uma ida ao cirurgião mais próximo? Pois, ninguém sabe. Reza a lenda que alguns motoristas de autocarro eram tão cool, mas tão cool, tão cool, tão cool que quando ouviam as crianças e/ou adolescentes cantar esta música…chegavam mesmo a acelerar só para os fazer rir ou sorrir! É caso para dizer: nem todos os super-heróis usam capa!

Quinto: as refeições. Fosse um pequeno-almoço, um almoço ou apenas um lanche era certinho que as visitas de estudo apanhariam pelo menos uma refeição! O que podia ser brutal, ou não, dependendo dos casos. Sim, porque se houvesse capacidade financeira para levarmos algum dinheiro podia ser fantástico. Mas também podia ser deprimente, e ligeiramente embaraçoso, se acontecesse o oposto. Logo para começar: termos algum dinheiro connosco fazia com que nos achássemos milionários (embora tivéssemos consciência de que apenas tínhamos 10€ no bolso, obviamente). Depois, nada suplanta a liberdade de escolhermos o nosso próprio almoço! Poder comer o que nos apetecesse, mesmo que fosse “comida de plástico”? Bolas, que sonho!

Na margem oposta estavam todos aqueles que tinham que levar comidinha de casa. Não que a comida em causa fosse má (em 99% dos casos era infinitamente mais saborosa, e apetitosa, graças às mãos de fadas das nossas mães e avós), contudo era motivo para nos sentirmos inferiores aos “magnatas” da turma. Ah pois, é que eles tinham doces, chocolates e guloseimas e nós…umas míseras sandes, rissóis ou, na loucura, uns suminhos de pacote. Atenção, não me interpretem mal, não estou a culpar os pais ou a criticar quem o fazia (até porque eu próprio pertenci a este clube), as outras crianças é que eram más e nos faziam sentir culpados por levarmos comida de casa.

Sexto: o regresso a casa. Se por um lado voltar ao doce lar era uma desilusão (convenhamos que para quem andou um dia inteiro a viver mil e uma aventuras regressar a casa era demasiado aborrecido), por outro tal fazia com que nos sentíssemos seguros e tranquilos. A melhor parte era, claramente, contar tudo o que aconteceu aos nossos pais, avós e restantes familiares!

As visitas de estudo garantiam, pelo menos, uma dúzia de acontecimentos bizarros, cómicos ou absolutamente inacreditáveis capazes de nos tornar num autêntico contador de histórias. E nós, que adorávamos aquele papel, fazíamos o nosso melhor, prendendo o “público” até ao último segundo, como é óbvio!

Por fim, resta-me referir que sempre que possível trazíamos um pequeno recuerdo para os nossos familiares. De porta-chaves a canetas, passando por uma parafernália de objectos sem qualquer utilidade (mas repletos de amor e carinho), era garantido que se o orçamento permitisse todos ganhavam uma prendinha. E apesar de nos dizerem “oh, não era preciso teres gasto dinheiro…” nós sabíamos que lá no fundo eles tinham apreciado o gesto (e isso bastava para nos aquecer o coração.

Para nossa infelicidade estes são tempos que não voltam mais. Restam-nos as imagens que povoam a nossa mente; os cheiros que teimam em permanecer nas nossas narinas; os sons que ecoam nos nossos ouvidos e os sabores que se mantêm firmes e hirtos nas nossas papilas gustativas. Que a insegurança típica da idade adulta não nos retire este fascínio pelo desconhecido que tanto nos apaixonava nas visitas de estudo.

E enquanto formos vivos ninguém nos tirará estas lembranças, esta pitada de infância e todas as lições que estes tempos se encarregaram de nos ensinar. Assim como ninguém nos tirará os resquícios de amor dos nossos familiares que ainda hoje permanecem no nosso coração.

Boa semana.
Boas leituras.

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