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A minha opinião sobre o Carnaval

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Há um ano, saí de casa para brincar ao Carnaval e jurei por nunca mais!

Chamo-me Vera e vou contar-vos o que me sucedeu quando decidi passar o dia de Carnaval na rua, assistindo à passagem do corso numa conhecida localidade dos arredores de Lisboa.

Saí de casa logo a seguir ao almoço, na companhia do meu namorado, que sorria com cara de paspalho quando os amigos se metiam com ele por se vestir como um sultão das arábias, dos que têm um harém à disposição e dinheiro a rodos no bolso para gastar proveniente dos lucros do petróleo, sem, no entanto, reparar que a vestimenta lhe ficava tão mal que seria impossível fazer-me mais ciúmes do que quando íamos na rua e, despido do disfarce e de preconceitos, olhava discretamente para as mulheres que passavam por nós, como se quisesse convidá-las a integrar o seu lote restrito de esposas.

Por essa razão, em minha opinião, passei a preferir que ele não fosse esperar-me à saída do trabalho, sobretudo quando estava de turno e saía tão tarde que à espera das colegas que vinham comigo estavam os maridos ou os namorados, ao lado de quem ele gostava de se pôr em bicos de pés para mostrar-lhes que era mais alto, que se vestia melhor e era muito mais bonito.

Por mim, era o mais convencido e o mais teimoso. Vinha insistindo uns dias antes de irmos brincar ao Carnaval, para eu pôr um vestido de princesa que usara na adolescência e só ainda me servia porque continuava magra, graças ao palácio em que ela habitava ser tão que nem batata tinham para pôr na sopa e muito menos havia gomas ou outras guloseimas como iogurtes gregos ou tabletes de chocolate de leite que ela pudesse comer entre as refeições.

Mais do que ligada ao destino do homem que caminhava sorridente ao meu lado, parecia que o meu futuro imediato passaria por conhecer e apaixonar-me por um príncipe com quem a minha personagem de sonho casaria antes do regresso a casa. E pouco me importaria que ele não fosse bonito, podendo, desde que fosse rico e a par dos títulos nobiliárquicos tivesse um ror de propriedades, tratar-se do mais feio descendente de um sapo que houvesse à face da Terra. Disposta a dar o meu amor, conceder-lhe-ia tanto mais atenção quanto maior fosse o reino que, por morte do pai, viesse a receber por herança, o qual só não era maior porque ao atual monarca faltava possuir um exército suficientemente forte que lhe permitisse ocupar e tornar-se dono de todos os territórios em redor.

Nenhuma das minhas irmãs quis sair connosco nessa tarde de Carnaval. À Rita, de dezasseis anos, desagradava todo o género de máscaras carnavalescas, e não se atrevessem a pedir-lhe para colocar uma, nem a que sugerisse ser ela a rainha proprietária do vasto território que o pai do meu príncipe ainda ambicionava conquistar pela força das armas.

Era a mais sensata de nós e optava, nestas ocasiões de Carnaval, por ficar em casa assistindo comodamente a partir do seu lugar preferido no sofá, ao desfile dos carros alegóricos, o qual televisionado podia ser mais divertido se imaginasse que não era afinal mais rica por ser dona e senhora do território que lhe tinham tentado impingir, por este ser desabitado e, portanto, não haver lá ninguém a quem pudesse exigir o pagamento de impostos.

À Susana, de dezoito, o que lhe arrepiavam a pele, eram os banhos que na época do Carnaval apanhava em público sem serem em benefício de nenhuma causa humanitária, como a chamada de atenção para os doentes que padeciam de alguma doença rara. Ainda mais dos que, com ovos, traziam farinha à mistura, irritava-a o sorriso trocista dos rapazes que se divertiam a gozar com as raparigas e a opinião errada que, acerca dela poder não ser tão bem-educada como parecia, pudessem ter as pessoas que a ouviam furiosamente a praguejar quando apanhava com um de gema amarela e tamanho XL em cheio no alto da pinha.

Que tinham perdido ambas uma excelente oportunidade para se divertirem de borla no Carnaval, era o que eu pensava quando saí de casa e vi caminhar na nossa direção um grupo de foliões à pressa, como se quisessem pôr-nos rapidamente ao corrente de alguma novidade. Os que deviam ser os elementos mais velhos desse bando de mascarados vinham à frente, desafiando as leis da gravidade calçando, para fazer toilete com os vestidos, os sapatos de salto alto que deviam pertencer às mães ou às namoradas.

Só quando se aproximaram de nós o bastante para ouvir o que diziam, é que percebi que era de mim que sussurravam e não da princesa que podiam ter pensado que eu era por causa do que vestia. Não fui a tempo de evitar que me cobrissem a cara de farinha, à qual para ficar feita num bolo só faltava que juntassem uma pitada de fermento em pó e meia-dúzia de claras batidas em castelo. Assim que pude afastei-me a correr e fui à procura de um lugar onde pudesse ficar sozinha, pois não tinha pressa alguma em juntar-me a alguém que pudesse voltar a tratar-me tão mal como eles. Para trás ficou o meu namorado, que eu nesse dia nunca mais vi, a não ser quando parei a uma distância razoavelmente segura, e me virei para trás.

Tinha ficado à conversa com eles e supus que acertassem os termos da sua rendição ou simplesmente o tentassem convencer a revelar onde ele, na qualidade de sultão, escondia as restantes mulheres de que alguns deles andavam, atrás dos carros ali parados, avidamente à procura para enfarinhar.

Afastei-me e encaminhei-me curiosa pelo que se estava a passar para uma zona numa rua onde havia barraquinhas a vender artesanato como se fosse uma feira, diante das quais se posicionara uma multidão cercando uma contorcionista com traços orientais no rosto, que executava um arriscado número de equilíbrio sobre uma vara presa nas extremidades à cintura de dois homens que deviam ter a força de um super-herói. Em poucos minutos afluíram mais pessoas ao local, que se transformou numa arena, mas à medida que aumentava entre os presentes a expetativa de vê-la cair, mais provas de confiança ela dava ao executar perigosíssimas piruetas e saltos mortais de costas com cada vez maior grau de dificuldade. No final, quando todos rendidos ao talento da jovem começaram a aplaudir, começaram a cair do alto sacos de água, vindos sabe-se lá de onde, que nos atingiram em todas as partes do corpo como tiros de morteiro que serviram para provocar a debandada geral. Em todas as direções, pessoas protegendo a cabeça com as mãos corriam, procurando o parapeito da entrada dos prédios que estivessem nas proximidades para ali ficarem enquanto durasse o ataque de que estavam a ser alvo e embora inicialmente lamentassem o sucedido, mal a descarga de artilharia cessou, já todas se riam e comentavam que achavam natural andar toda a gente a molhar-se como se aquela água em excesso fosse uma bênção dos céus e para se sentirem ainda mais felizes contribuísse o facto de estar tanto calor.

Ainda não me recompusera do primeiro susto e já apanhara outro. Agora assustava-me por tudo e por nada e foi assim quando vi a minha imagem refletida na montra de uma loja que anunciava excecionalmente o prolongamento dos saldos. O vestido outrora limpo e sem uma prega, estava agora tão sujo e amarrotado que facilmente serviria de desculpa ao príncipe que me viesse a surgir, para não me levar a um baile. Além disso, as mangas estavam a descoser-se nas axilas, o rabo-de-cavalo do qual me orgulhava não passava já de um penacho de cabelo empapado e na cara, um imenso mata-borrão dominava no lugar dos olhos que agora mal se viam a piscar no fundo de duas imensas crateras.

Arrepiei caminho por uma travessa que ia dar ao edifício do tribunal e fui dar ao largo do jardim fronteiro ao solar setecentista onde funcionava a Câmara Municipal. Ali, ouviu-se a estrondosa ovação que transeuntes atentos dispensavam a uma trupe de palhaços que faziam rir as crianças, distribuindo balões e pintando-lhes a cara com o colorido do Carnaval, recorrendo a aguarelas de todas as cores.

Aos Domingos à tarde, por portas e travessas, vinham dar a este lugar, onde havia algumas árvores e um coreto de ferro retorcido mandado construir no século XIX, todas as pessoas que se deixassem guiar na rua pelo som dos acordes produzidos pela fanfarra dos Bombeiros Voluntários que semanalmente ensaiava para a grande festa que dava na passagem de ano. A cada oito dias, uma banda composta por quinze elementos maioritariamente do sexo masculino, tocava as melodias de sucesso de há cinquenta ou mais anos, que iam das modinhas populares aos fados-canção, que enterneciam principalmente os idosos, a quem costumava dedicá-las o maestro que aparecia devidamente fardado de batuta em riste e a todas sabia de cor, como se a colocação das notas na pauta houvesse obedecido a um conjunto de regras que ele próprio tivesse inventado.

Aproveitando a pausa concedida pelos rapazes que tinham ido a casa reabastecer-se de água, desloquei-me para perto de umas crianças que brincavam com a cara vendada, como se fossem salteadores, vigiadas pelos pais que com menos dificuldade agora as distinguiam do que quando com alguns deles a sério se cruzavam na vida real. Achei-me segura à sua beira, entretendo-me a recordar as brincadeiras da minha infância, na certeza de que era mais inocente do que eles quando teria a mesma idade. Teriam entre nove e dez anos e apontavam as respetivas bisnagas, com o formato de pistola, a um alvo escolhido ao acaso entre as flores muito bem cuidadas no canteiro de uma varanda decorada com balões e dezenas de confettis.

De súbito, alertado pelo barulho que faziam, o dono da casa veio à janela e fê-los parar. Foi quando ao mesmo tempo me viram e decidiram incluir-me na brincadeira, como se eu fosse o elemento que faltava para tornar consensual a escolha do novo alvo. Vendo-me encharcada e mais ao alcance do que as outras raparigas, abriram fogo sobre mim, que é como quem diz, deram ao gatilho e despejaram-me em cima canhões de água, como se não lhes bastasse verem-me derreada e ainda quisessem ver-me arrear e cair redondinha no chão.

Isto passou-se no Carnaval de há um ano e lembro-me como se tivesse sido ontem, mas se tivesse ocorrido há mais tempo, lembrar-me-ia como se se tivesse passado há dois ou há três dias, que é tempo suficiente para nenhum detalhe ainda se ter apagado da nossa memória.

Jurei há um ano não tornar a sair à rua no dia de Carnaval e vou cumprir, mas se quebrar a promessa desde já juro o seguinte: não tornar a prometer o que quer que seja, no Carnaval ou noutra ocasião, porque não vale a pena andar a enganar-me e dizer que não sou uma rapariga alegre que gosta de se divertir como as outras da sua idade.

O que faço é trocar de fatiota com ele e vamos dessa vez vestidos ao contrário para brincar ao Carnaval, isto é, vai o meu namorado de mulher e vou eu a fazer de homem, porque se ninguém reparar é a ele que dão um banho e enchem a cara de farinha e não a mim.

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