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Morreu Almeida Santos, o Senhor Democracia

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Que a morte é certa todos sabemos, mas era escusado este ano de 2016 nos demonstrar isso da forma mais dolorosa de todas. Poucos anos terão começado de forma tão trágica quanto este. Ainda nem um mês passou e já perdemos inúmeras figuras públicas de reconhecido valor e mérito a nível nacional e internacional, sendo a última António Almeida Santos. O histórico socialista partiu a poucos dias de completar 90 anos, em sua casa, depois de se ter sentido mal. Partiu junto dos seus, certamente em paz consigo mesmo e com tudo aquilo que fez em prol da Democracia portuguesa. Agora que nos deixou é tempo de relembrar o seu legado. E esse é o tema do “Desnecessariamente Complicado” desta semana.

Num meio pródigo em polémicas e intrigas, recheado de mentiras e falsas verdades, a abarrotar de demagogia e populismo e onde os egos frequentemente se sobrepõem ao mérito Almeida Santos era a excepção à regra. Educado, imparcial, justo e um defensor acérrimo dos valores socialistas, nunca se deixou corromper nem nunca cedeu a facilitismos. Teve sempre plena consciência da responsabilidade dos cargos que exerceu, nunca perdendo a postura. Com a sua partida Portugal perdeu não só um grande homem como também um excelente político que sempre desempenhou com empenho e dedicação os cargos e funções para os quais foi nomeado/eleito.

Mas vamos a um pequeno resumo da sua biografia. António de Almeida Santos nasceu a 15 de Fevereiro de 1926, em Cabeça, no concelho de Seia. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, entre 1945 e 1950 e exerceu advocacia em Lourenço Marques até 1974, tendo sido membro do Grupo de Democratas de Moçambique.

Foi duas vezes candidato às eleições para a Assembleia Nacional em listas da oposição (tendo visto, em ambos os casos, anulada a sua candidatura por acto arbitrário da Administração Colonial).

Representou, ainda em Moçambique, o general Humberto Delgado nas eleições Presidenciais de 1958. Em conferências, petições e livros, defendeu uma solução federativa para as colónias portuguesas até que, em 1971, num livro apreendido pela Censura (“Já Agora!…”) passou a defender a aplicação pura e simples do princípio da autodeterminação e independência.

O seu currículo político é invejável. Foi Ministro da Coordenação Interterritorial nos I, II, III e IV Governos Provisórios (tendo-se demitdo no IV Governo), foi Ministro da Comunicação Social no VI Governo Provisório, foi Ministro da Justiça no I Governo Constitucional, foi Ministro-Adjunto do Primeiro-Ministro no II Governo Constitucional, foi Ministro de Estado e Ministro dos Assuntos Parlamentares no VI Governo Constitucional, foi eleito Deputado pelo Partido Socialista desde a I Legislatura tendo sido ainda Líder do Grupo Parlamentar do PS entre 1991 e 1994, Presidente do Partido Socialista desde 1992, membro do Conselho de Estado, de 1985 a 2002 e ainda Presidente da Assembleia da República nas VII e VIII Legislaturas e membro do Conselho de Estado na IX Legislatura. É impossível imaginar qualquer jovem político actual com tamanho currículo.

Mas mais do que ter passado pelos locais ou pelas funções acima descritas em Almeida Santos era impossível ignorar o consenso que gerava. Era adorado por pessoas de todos os quadrantes políticos. Tinha amigos do PCP ao CDS-PP. E, em tantos anos, nunca conheci uma única pessoa que não simpatizasse com a figura, o discurso e o exemplo que era Almeida Santos.

Devemos de tratar com respeito quem tanto lutou pela Democracia (não só para a instaurar como para a manter). Portugal deve muito ao trabalho deixado por Almeida Santos. Graças a si (e não só obviamente) temos hoje um país muito melhor do que antes de 1974 (e poucos foram aqueles que tiveram a coragem de combater tão activamente Salazar e os seus seguidores). Enfrentou a PIDE como poucos, ousou escrever o que muitos pensavam mas não diziam publicamente nunca temendo as consequências dos seus actos.

Acredito profundamente que Almeida Santos foi um homem à frente do seu tempo. Acreditou sempre nos valores que defendia, nunca trocando de camisola ou atraiçoando os seus camaradas. Conquistou, com muito mérito, o lugar de Presidente Honorário do Partido Socialista (algo ao alcance de muito poucos políticos em tantos anos de Democracia). Sempre soube separar a vida pessoal da vida política e nunca trouxe a vida partidária para os jornais ou para as televisões. Era verdadeiramente imparcial, nunca entrando em jogos de bastidores do seu partido. Soube manter-se à margem dos problemas mas também ajudar a resolvê-los sempre que necessário. Ensinou muito sobre política e, acredito eu, sobre a vida em geral a muitos jovens deputados recém-chegados ao Parlamento, tornando-se quase numa figura paternal para todos eles.

Almeida Santos apenas pecou num aspecto: na ambição política. Se a tivesse poderia ter sido o que quisesse: de Primeiro-Ministro a Presidente da República, acredito piamente que tudo estaria ao seu alcance. O que muitos jovens políticos têm a mais Almeida Santos tinha a menos, e tendo em conta o valor que sabíamos que tinha isto por si só diz muito sobre a sua personalidade.

Quando Portugal recordar os maiores, e melhores, políticos de sempre terá obrigatoriamente de haver lugar cativo para Almeida Santos. Porque em mais de 40 anos de Democracia ninguém lutou tanto, e de forma tão activa, e justa e imparcial quanto ele. Porque aliava a simpatia e educação ao conteúdo, sabendo a melhor forma de transmitir a mensagem que pretendia. Porque soube sempre qual era o seu lugar, nunca deixando o seu ego levar a melhor. Porque haverá sempre um lugar especial reservado para os homens bons, como ele.

Nunca tive o prazer de conhecer pessoalmente Almeida Santos, contudo acredito profundamente que privar com ele deveria ser extremamente gratificante e inspirador. Encontrar num homem de 89 anos a força, a coragem e a garra que ele tinha só podia motivar-nos para darmos mais de nós, tentando sempre fazer mais e melhor.

Estive em muitos congressos e encontros de militantes socialistas ao longo dos últimos 7/8 anos e sempre o vi rodeado de pessoas. Todos o queriam cumprimentar. Todos o queriam felicitar. Todos queriam ter o prazer de estar com o grande Almeida Santos. Muitos conseguiram-no, mas muitos mais nunca tiveram tamanho privilégio (e é com tristeza que me incluo no segundo grupo). Mas ao menos recebeu em vida o carinho e o afecto que muitos apenas recebem depois de partirem. Teve a sorte de ser amado e idolatrado não só dentro do seu partido como fora dele, vendo o país reconhecer o seu talento e a sua sabedoria. Hoje vi partir um ídolo político (e acreditem que tenho muito poucos ídolos políticos).

Quem nos dera que Portugal tivesse mais políticos como Almeida Santos. Que a sua partida não o coloque no esquecimento e que o seu exemplo perdure para todo o sempre.

Até sempre Senhor Democracia. Descansa em Paz.
Boa semana.
Boas leituras.

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