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Mulheres – Ana Plácido

O amor de Perdição de Ana Plácido e Camilo Castelo Branco

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Adultério – Prática de infidelidade conjugal. Grave violação dos deveres conjugais.

Ana Plácido, nasceu a 27 de Setembro de 1831 no Porto. Não era uma mulher elegante nem tinha um rosto bonito, tinha algo mais importante, uma personalidade forte, atraente, cativante, uma mulher inteligente e direccionada para a literatura.

Aos 19 anos, o seu pai obrigou-a a casar-se com Manuel Pinheiro Alves, 24 anos mais velho, um emigrante com grandes possibilidades, que ficou rico no Brasil. Como qualquer jovem mulher, cujo corpo e coração fervilham em total sintonia, Ana sentia-se frustrada. Em 1850, no ano em que casou com Manuel, Ana Plácido conhece Camilo Castelo Branco, num inocente baile portuense, um homem de muitas paixões, um homem das letras, boémio e polémico, apaixonam-se perdidamente um pelo outro. Camilo tenta esquecer Ana e durante dois anos frequenta o seminário, mas nem Deus consegue ajudar a esquecer um amor que, por mais trágico que fosse, estava destinado a acontecer, Ana, por sua vez, admite ao então marido que gostava de outro homem. Manuel, cego de ciúmes envia Ana para o Convento da Conceição de Braga, aqui, já Deus estava de braços cruzados porque não podia interferir neste amor de perdição…um mês depois Ana foge e foge com Camilo para Lisboa. Manuel, envergonhado pela rejeição da esposa apresenta queixa contra os dois.

Numa sociedade oitocentista, seria impossível esta relação extraconjugal ser aceite, Ana é capturada e Camilo entrega-se alguns meses depois, ambos são presos na cadeia da Relação, no Porto, onde aguardam mais de um ano pelo julgamento. O julgamento foi altamente controverso e popular, as opiniões dividiam-se: por um lado a infringência da lei, que não permitia relações adúlteras, por outro lado, um amor proibido que emocionava a população. Foram ambos absolvidos do crime de adultério, curiosamente o juiz que proferiu a sentença era o pai de Eça de Queiroz.

Finalmente juntos! Em 1861, os dois amantes passaram a viver juntos, Ana, que já tinha um filho, Manuel, nascido em 1858 ( dizem as más línguas que a criança não era filha nem de Manuel nem de Camilo, mas sim de um antigo colega de Ana, digamos que Ana era uma mulher com muita energia, quem a pode censurar? ), foi mãe de mais dois meninos, Jorge e Nuno. Com a morte do legitimo marido, Manuel recebe a herança do pai e mudam-se os cinco para a casa de campo de Pinheiro Alves. Camilo tinha 38 anos, Ana 32. É nesta parte que o leitor pensa: E viveram felizes para sempre...só que não.

A vida é uma constante entre o doce e o amargo, não poucas vezes, surpreende pelo acaso que não existe…em 1888 Ana e Camilo finalmente casaram, em 1890 Camilo suicidou-se. Sentado na sua cadeira, dispara um tiro no seu rosto, terminando assim o seu tormento pela doença que o tinha deixado cego e incapacitado para trabalhar. Camilo foi o primeiro escritor português a viver da escrita.

Um amor de perdição que rompeu o convencional, que quebrou as regras sociais e jurídicas, que apaixonou os mais céticos. Uma historia com todas as contradições da vida – dificuldades económicas, filhos com problemas a nível psicológico e comportamental, degradação da saúde de Camilo – merecia um final feliz, não concordam? Talvez o mais importante não seja o destino, mas sim o caminho que percorremos até lá chegar, e esse, leitores, Ana e Camilo fizeram-no melhor que ninguém.

Na próxima crónica Mulheres falarei sobre Rosa Parks, a mulher de raça negra que em 1955 não aceitou ceder o seu lugar no autocarro a um branco.

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