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Nice to meet you

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“Hi! I´m from London, and you?”, Disse a jovem inglesa cortando a minha reação ao mesmo tempo que se antecipava à minha intenção de querer saber de onde vinha.

Emergiu do mar ao meu lado, dirigindo-se-me com um timbre de voz assumidamente sem sotaque e falando tão alto que, do lugar que ocupava na areia, eu certamente a teria escutado chamar-me se quisesse ver-me correr para ir deitar-me ao seu lado.

Tinha um ar festivo e, quando me falou, pareceu-me aliviada de algum mal que a afligisse, como se há demasiado tempo aguardasse para vir à tona renovar o ar dos pulmões e poder respirar uma golfada do ar que me cercava e tinha o condão de tornar toda a gente bem-disposta.

O nível da água dava-me pela cintura, mas no caso dela, que era mais baixa, atingia, abaixo do peito, a linha imaginária a uni-lo que seria preciso traçar, se fosse necessário nivelá-lo de forma a ficar na altura certa para eu melhor poder observá-lo. Este estava coberto à frente pela parte de cima de um biquíni verde, que passaria irremediavelmente a estar na moda, no dia em que ela saísse com ele da água e, tanto como eu, toda a gente reparasse que lhe assentava que nem uma luva.

Com a cara polvilhada de sardas, tinha as feições gentis de um anjo a quem superiormente tivessem incumbido de vir anunciar-me que o amor estava mais próximo do que alguma vez poderia imaginar.

A idade devia rondar os vinte e cinco anos e ao cimo da cabeça, usava o cabelo apanhado numa espécie de carrapito, num estilo que remontava ao tempo em que as mulheres saíam de casa aperaltadas, como se fossem desfilar perante um júri que, mediante uma votação, se encarregava de escolher a mais bonita.

Tinha lábios expressivos, vermelhos como romãs que eu não me importaria de morder para atestar se estavam maduras e olhos cinza-esverdeados atentos, que me esquadrinhavam para tentar decifrar, de acordo com o meu ar espantado, aquilo que eu pensava a seu respeito naquele momento.

Há muito que eu não conhecia ninguém assim, capaz de, com a sua vivacidade, ajudar-me a superar o desalento de estarem a terminar as férias de verão, na belíssima praia em Espanha onde fui a banhos e onde, numa vida passada em que tivesse sido pirata, não me importaria de ter dado à costa em consequência de um terrível naufrágio provocado por uma tempestade.

“Are you free?”, Pensei responder-lhe. Mas travou-me a língua, o receio de vê-la transformar-se numa breve ilusão perdida.

“Nice to meet you.”, Ainda me pareceu tê-la ouvido dizer, antes de num mergulho de cabeça dado numa onda que se estava a formar, ter chegado ao fundo do meu ser, para logo de seguida se ter afastado ainda mais, como se à distância a que já se encontrava de mim eu ainda pudesse hesitar e chegar a duvidar de que se tratava de um sonho.

Hoje não me custa pensar nela. E nalguns dias sinto-a tão perto, como se pudesse afagar-lhe docemente o cabelo, que nem foi a parte do corpo dela de que inicialmente fiquei com a melhor impressão.

E embora não o lamente inteiramente, é impossível não pensar no que teria sido o tempo que passássemos juntos, com ela de perfil a ler um romance ao meu lado, enquanto eu imaginava o texto que lá gostaria que viesse escrito. Uma belíssima história de amor, mas em que a paixão do protagonista fosse correspondida e pudesse terminar com um final feliz.

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