Últimas Crónicas

O amor depois de ti

loading...

Observo os pássaros. De longe. De perto. Do mesmo lugar. Neste assento estreito e comprido defendido pelas mais diversas árvores. Examino as crianças a brincar; livres, transformadas em sorrisos galopantes. E descubro-me velho. Um idoso de trinta e seis anos. Um trapo que fala de ti, meu amor fugidiço. Os pombos aproximam-se a passos largos. Dos meus pés gastos da tua ausência. Sobra a sobra. Conto histórias. As nossas. Palavra por palavra. Sem falhar uma vírgula. Um texto que nos pertence. Com o ênfase a matar-me por dentro. Conto histórias à solidão. O banco permanece quieto. E eu já não estou aqui.

O meu pénis anda entorpecido. Sinto-o um pouco ébrio. Este meu amigo de outras lendas, mal o reconheço. Talvez seja pela depressão. A minha. Que atravessa um deserto. De um lado ao outro. Acorda, seu traidor! Ergue-te como um homem, meu sacana! E desperta-me também. Deste silêncio vazio. Levanta o fogo que há em ti, despe-te de preconceitos, e ataca o máximo possível. Em todas as frentes. E em todas as traseiras. As que conseguires angariar. Hoje, amanhã e depois. Só não contes toda a verdade. Não quero que te sintas mal. Não quero que te revejas em mim. Não quero.

Ana. Cheia de graça. Aventureira. Com a personalidade nos olhos. E a bondade nas mãos. Decidida. Cuidado com a teimosia, Ana! De saia até aos pés. Decote discreto. Cabelos longos. Tranças delineadas. Dedos finos de papel.

Meu amor, partiste há mais de um tempo. Ainda hoje segurei a tua rosa vermelha. De manhã. O eterno símbolo do amor. Carrego no peito a emoção apaixonada. Ainda. Nas pétalas vermelhas. As que sabem ao teu cheiro.

Bebo da deceção. Do desengano. E deixo-me absorver. Engulo a vida miserável. Esta que me acolhe diariamente. Esta que Deus me ofereceu. Que aos poucos acaba com tudo. Comigo. Contudo, enlevo a ventura. Os segundos. Os minutos. As horas. Porque a felicidade é instantânea. Porque a felicidade prolonga a vida e provoca gargalhadas estúpidas. No bom sentido. Como eu admiro sorrisos rasgados! E por momentos, sou feliz uma vida inteira. Só de te imaginar.

O amor quando acaba fica triste. Chora horrores. Um lamento. Quando encontrares alguém que te faça sorrir, ou uma outra espécie de amor; sonha ao acordar, aconchega ao dormir, vive como uma droga. Permanece onde te sentires feliz. Repetidamente. Porque o sofrimento é uma merda. Sabes disso. Sabemos disso.

Para mim o amor é dedicação. Para sempre. Para o mim o amor é compromisso. Para sempre. Mas para sempre é muito tempo. E agora tanto faz. A tristeza do tanto faz.

De vez em quando apanho a bebedeira do choro. E lembro-me de tudo. Outra vez. Repito o teu nome incessantemente. Conquisto uma overdose. Penso em ti. Construo verdadeiros diálogos. Acordo para uma vida nova e o passado realça o correto significado.

A ruína ensinou-me a ser inteligente. Sem segredos. Todos os dias são de aprendizado. Todos os dias são de novas experiências. Arregacei mangas e segui em frente. Sem ti.

AndréMarquesLogoCrónica de André Marques
Crónicas Improváveis
Visite a página do Facebook do autor: aqui

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Crónicas Mais Lidas

loading...
To Top