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O cancro. A Coreia. E o Ming – André Marques

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O gato mia. Como da primeira vez. E eu observo. Examino. Faço-me notar. De pernas bambas, vagueio sobre a minha própria sombra. E recordo. E acordo. A beijar o gato preto. Azarado. A fraca consciência de quem o avalia. Marcha o muro. Lambe-o. Como eu me emporcalho toda de memórias férteis. O muro. Das lamentações, talvez. Aqui, desta janela feita de vidros embaciados. Aqui, desta casa à beira Tejo. Aqui, deste Fado feito força. Cantado por Gisela João. A menina dos cabelos compridos que fala através dos olhos. E do coração, quando calha. E da saudade, que é quase sempre.

O Ming. O traiçoeiro que me pertence por inteiro. Pérfido. De quatro patas bem assentes na terra. A contrastar comigo. O oposto que me foi oferecido pelo Telmo. O gajo dos gorros descaídos. O tipo das botas Timberland. O meu Telmo. O do cancro na garganta. Há mais de um tempo. O conhecido sorridente dos 40 cigarros por dia. Os que vaporizava. Aquietou-se, por agora. Depois de me comer o filtro. Porque é das nuvens negras que cai a água límpida. Porque é nos grandes momentos de tristeza que mais dou valor aos pequenos pormenores do quotidiano. É sempre assim. Narcisista.

E recordo, mais uma vez. Da viajem que realizámos à Coreia. Da nossa celebração privada a fingir.

Chegámos numa manhã de chuva. Dezembro. Em Portugal, e no mundo. Abraçámo-nos. Beijámo-nos. Ao de leve. Cumprimos todas as tradições do amor. E o mundo foi meu por instantes. Como se coubesse na minha mão. Sem ajuda.

Coreia. O país mais dinâmico do mundo situado na “Região do Século XXI”. Alugámos um Goshiwon  em Seul. O mais barato. Ficámos junto à estação do metro de Shinchon, a 4 minutos a pé da imponente estação. Perto de Hongdar. O quartinho ficou-nos por 300 mil wons. Caro.

Conversámos o bastante. Sem acesso à luz exterior. E divertimo-nos. Às escuras. Almoçámos e jantámos com pauzinhos. E também com talheres, quando nos lembrávamos de Portugal. E da Açorda. E da Feijoada. Degustámos também o arrozinho quentinho, ovos, Kimchi, e pão.

Na primeira noite fora de Portugal, o Telmo contou-me alguns contos populares. Gracejei. Sábio que é. Esclareceu-me a história do sapo desobediente. Um conto sobre o facto dos sapos coaxarem  quando chove. Também chorei quando vi o pequeno batráquio afligir-se na sepultura da mãe. Coitado. Malditas sejam as águas revoltas. Assim como as lágrimas, que quando caiem, incidem sobre a dor e a mágoa.

No dia seguinte, decidimos experimentar dançar Pansóri. Um género de música tradicional coreana que liga a arte musical à arte da representação teatral. Apenas dois músicos partilham o palco; uma cantora e uma pessoa que toca tambor. Nada mais. E fui feliz. A rodopiar. Como gira o mundo. Feliz. Não para sempre, mas fui. E isso foi o mais importante, sem sombra de dúvida.

E os dias foram passando. Entre beleza apaixonante, 4 distintas estações, praias, montanhas, rios e vales deleitosos, Coreia, é de facto um país verdadeiro, feito de palácios reais e aldeias folclóricas. Assim como o meu sentimento pelo Telmo é real. Acima de todas as intempéries.

O tempo que nos resta pode ser curto, mas o que nos une é longo e ao mesmo tempo eterno. Eterno até que um de nós sucumba a qualquer coisa. Ou não.

Alimentamo-nos do nosso amor. Largo-te a roupa. No chão. Sobre a cama. Em todo o lado. Também fico nua. Completamente nus. Lentamente, consumo-te através do desejo. Juntamos os nossos corpos sedentos de paixão. O clima carnal envolve o espaço. E o cheiro a sexo desfila pelas paredes. O céu. Que é onde nos encontramos. A maré de vento que se faz sentir lá fora, agita a cadência dos nossos movimentos tenebrosos. A tua respiração ofegante irrompe-me onda adentro. Agitada. Mentes harmonizadas na melodia do amor, dançando ao sabor de gemidos. Vamos ficar a salvo. Investes sobre mim. Como um Leão. E eu cravo-te as unhas. Porque o amor fala sempre mais alto. As pernas expostas. Corpos sexualmente apetitosos. E de repente a paranoia apodera-se da minha mente, tornando-me uma incapaz. De tudo. Porque o presente, apesar do sonho, regressa sempre à superfície.

Amo-te. Amo-te com todas as minhas forças, e tenho tão poucas disponíveis. E as que me restam, estão guardadas para a dor que caminha a passos largos, por meio de animais selvagens. Lágrimas grossas.

Envolvo a barriga. A minha. E abraço o mundo. Outra vez. Pouco relevante, brilhante. Enfim. Uma última gota de água cai sobre o lençol branco, que se estende sobre ti, sobre o teu corpo esguio e bem estruturado. A última gota de que me lembro antes de fechar os olhos e encerrar o capítulo da noite. Ainda não te disse. Mas a seu tempo saberás. A seu tempo.

AndréMarquesLogoCrónica de André Marques
Crónicas Improváveis
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