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O ESTEREÓTIPO DO CHICO-ESPERTO

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Quando eu penso que já vi de tudo, e que será muito difícil ficar chocado com a capacidade do português em ser uma besta, eis que surge um indivíduo que arrasa por completo essa minha certeza. Por vezes penso que, ao assistir a certos e determinados absurdos da nossa sociedade, apenas posso estar a dormir profundamente e tudo não passa de um sonho mau, daqueles que se podem catalogar de “sonhos sem nexo”, em que fazemos ou presenciamos coisas do arco da velha. Mas depois belisco-me, e constato que não estou a dormir, e nem a sonhar acordado. E pela quantidade de nódoas negras que possuo de forma bastante distribuída pelo corpo, constato que tenho presenciando momentos verdadeiramente absurdos, que me chocam de tal forma que me levam a auto-infligir-me de forma bastante assídua. Reflectindo um pouco acerca disto, posso ter descoberto uma veia de sadomasoquista até então desconhecida em minha pessoa. Bom, mas não me vou alongar sobre este assunto, não vá surgir a vontade de pegar num chicote e… coiso.

Penso ter finalmente descoberto o estereótipo do chico-esperto. Após anos e anos à procura, finalmente descobri o sacana. O estúpido. O totó. O pior de todos. O parvo. O coiso. Aquele que irrita, só de olhar. Que irrita, só de ouvir. Que dá vontade de pegar no chicote e… (Outra vez o chicote? Mau… Mau…)

Há uns dias atrás, fui jantar ao mais famoso restaurante de fast-food. Sim, aquele que começa por um “M”, acaba num “s”, e tem as letras “cdonald´” no meio. Por azar (e uma espécie de karma), calhei ficar na fila que demorava mais tempo a ser atendida. Mas, sinceramente, não conseguia entender o porquê de isso acontecer, visto que apenas tinha duas pessoas à minha frente. Mais tarde apercebi-me que, afinal, o motivo da demora devia-se ao facto do cliente que estava a ser atendido não ser português, e a dificuldade em fazer o pedido ser por demais evidente. Mais minuto, menos minuto, e o homem lá conseguiu fazer o pedido, claramente demonstrando um ar de desespero – certamente por estar a morrer de fome, visto que, olhando para a sua fisionomia, diria que veio a pé até Portugal, e há semanas que não comia. Ou então era apenas uma daquelas bestas que tem um metabolismo totó e irritante que não o deixa engordar por mais porcaria que coma.

Atrás dele – e à minha frente na fila – estava uma besta, completamente em desespero por estar a demorar tanto a chegar a vez dele de ser atendido. Ouvi-o vezes sem conta a protestar alto com as pessoas que o acompanhavam, usando até alguns impropérios num português calão bem perceptível. Aliado aos impropérios, ouvi-o a dizer vezes sem conta algo como: “Porra! Não tenho sorte nenhuma! Calha-me sempre um estrangeiro qualquer! E ainda por cima, ninguém o entende! Isto faz-me passar dos carretos, pá!” A impaciência dele, já me estava a fazer alguma comichão…

E eis que chega a vez dele, e o mais extraordinariamente estúpido aconteceu. Com a clara intenção de se armar ao pingarelho, desata a fazer o pedido ao funcionário, em… inglês. Em inglês? Mas se o homem é português, por que raio deu-lhe para fazer o pedido em inglês? Para, simplesmente, armar-se em chico-esperto. E, se ele estava com pressa quando estava à espera da sua vez, subitamente essa pressa se esvanecera. Porque passou largos minutos numa conversa em inglês com o funcionário, tentando fazer o pedido, sem se aperceber da clara dificuldade em que se encontrava o desgraçado do funcionário em registar o seu pedido, por não entender patavina do que dizia.

Após alguns minutos – que me pareceram horas – eis que o pedido fica feito, e ele recolhe os tabuleiros e vai sentar-se com o resto dos companheiros que, de uma forma totalmente estática, tinham assistido a todo aquele cenário absurdo. E chega a minha vez, e reparo que o funcionário estava com aquela típica expressão facial de quem está a gritar por dentro: “POR FAVOR, QUE SEJAS PORTUGUÊS! Começo a fazer o meu pedido, quando sou interrompido pelo chico-esperto, que vinha reclamar do facto do seu hambúrguer não estar como ele pedira. Voltou-se a repetir uma conversa completa absurda em inglês, para que o funcionário percebesse como é que o menino queria a sua hambúrguer – without onions and sauce. Passados alguns minutos, lá veio o hambúrguer especial de corrida que o menino queria. Mas a tarefa estava longe de estar terminada…

Eu regresso ao meu pedido, e dou por mim a ser novamente interrompido pelo chico-esperto que, uma vez mais, vinha reclamar por o hambúrguer não estar como ele queria. E novamente em inglês, pois ele não podia tirar o disfarce depois de tudo o que já tinha acontecido, obviamente. Trocas de palavras em inglês mal arranhadas para aqui, e outras para acolá, e o funcionário continuava a não entender como é que ele queria o raça do hambúrguer. E eis que eu decido intervir, visto que já estava a ficar claramente transtornado com o facto de ter o estômago a roncar que nem uma Harley Davidson, e não conseguir concluir a porcaria do pedido, devido ao chico-espertismo daquela besta. E digo: “Eh pá, o que aqui o chico-esperto quer, é o raio do hambúrguer sem cebola e sem molho!”

A besta olha para mim, e exclama: “Ei! Chico-esperto?! Mas eu conheço-te de algum lado?”

Com um sorriso malicioso, retruco: “Olha! Afinal falas português, e bem! E esta, hem?!”

A besta, apercebendo-se de ter sido desmascarado, olha para mim furioso, depois desvia o olhar para o funcionário – que estava com ar de quem estava quase a partir uma garrafa ao meio, saltar o balcão e esquartejar o chico-esperto da cabeça aos pés –, baixa a cabeça e murmura: “O hambúrguer está perfeito. Obrigado.” E desaparece…

Nunca uma refeição fast-food me soube tão bem, porra…

Até para a semana, malta catita…

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