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O jogging não é para meninos…

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Odeio correr. Acho estúpido, porque é aborrecido e maça uma pessoa. Lamento desapontar – desta forma absolutamente cruel e dura – todos os amantes do jogging, mas é a minha opinião. E lá diz o ditado: “Quem fala a verdade não merece castigo.” Mas é a mais pura das verdades: por deus, como eu odeio correr. Só para exemplificar o quanto eu odeio correr, eu prefiro apanhar uma molha da cabeça aos pés, num dia de temporal, do que correr que nem um louco só para escapar da chuva. Mas, na vida, existem fases em que temos de fazer coisas que simplesmente odiamos. Como, por exemplo, correr.

(Já tinha dito o quanto odeio correr? Hum, deixa-me cá ver mais acima… Hum, sim: já tinha dito, mas não custa dizê-lo uma vez mais, para que fique bem assente. E no caso de o leitor estar desatento, aqui vai uma vez mais: ODEIO CORRER!)

Lamentavelmente, encontro-me actualmente desempregado – o que é uma chatice do pior. Um desempregado é, normalmente, considerado como um calão: porque passa os dias fechado em casa, agarrado aos sites de oferta de emprego. Mas eu não quero parecer um calão. Então, pensei para com os meus botões (na verdade era apenas um botão, porque a blusa do meu pijama apenas tem um botão…): “Ó minha grandessíssima besta, tu não vais ficar fechado em casa feito um mineiro chileno! Tu vais começar a acordar cedo e ir para o parque correr!” E depois apliquei a mim mesmo uma valente chapada ao nível das fuças, e fui dormir. Mas, no dia seguinte, lá estava eu a acordar cedo, para ir para o parque praticar o chamado jogging.

Phones nos ouvidos, música a bombar no iPod, e lá fui correr. Depois de alguns anos sem correr a sério (tirando os célebres anos de adolescente, em que, sendo eu um habitante da Margem Sul, tinha de fugir dos meliantes que me queriam assaltar como se estivesse a fugir de uma avalanche nos Pirinéus.), tenho de admitir que agora parecia um velho idoso com um placa de metal na anca, a correr. Mas que se lixe: eu estava a correr, por Deus! Passo a passo, e sentindo-me cada vez mais entusiasmado. De facto, a música ajuda imenso quando se está a correr que nem um doido. Mas também pode fazer-nos passar por momentos verdadeiramente ridículos.

Sempre ouvi dizer que um dos segredos para se correr em condições, é saber controlar a respiração. Então, todo pimpão, lá ia eu a “inspirar, expirar”… E, por mais incrível que pareça, eu sentia-me absolutamente confiante. Meu Deus, eu estava a correr! A correr, e a controlar a respiração! A correr e a observar que, as pessoas que se cruzavam comigo, olhavam para mim de uma forma estranha. De uma forma assustada. Como se eu fosse um ladrão, ou um assassino em série e estivesse a correr atrás delas com uma faca de cozinha na mão. Mas, lá está: eu parecia um idoso com uma placa de metal na anca. Isso deveria ser suficiente para assustar as pessoas, certo?…

A dada altura, senti que a fraqueza e o cansaço se começavam a apoderar de mim. Porque, estranhamente – ou nem por isso! – sentia que tinha duas sacas de 50 quilos de batatas nas pernas, e comecei a arrastar as pernas (especialmente a perna esquerda). Subitamente, comecei a ouvir uma espécie de gritos ao longe – visto que estava com os phones nos ouvidos, era difícil ouvir o que se passava à minha volta – e parei para olhar para trás, quando vejo que uma senhora estava a correr na minha direcção, gesticulando de uma forma estranha, parecendo que me queria bater. Mas ela não me queria bater… Ela estava a avisar-me que o cão dela estava agarrado ao meu tornozelo esquerdo. Daí o peso enorme que sentia na minha perna esquerda. Além de simplesmente correr: eu estava a correr com um cão a abocanhar o meu tornozelo esquerdo. Com algum custo, a senhora lá conseguiu retirar o meu tornozelo da boca do seu Piruças.

Depois de uma pequena troca de gargalhadas entre mim e a dona do Piruças, lá continuei a correr. Mas, a dada altura, a bateria do meu iPod esgotou-se, e eu constatei o porquê das pessoas olharem para mim ostentando expressões de pânico, ou mesmo de medo. É que, de cada vez que fazia o rítmico movimento do “inspira, expira”, uma espécie de assobio saía do meu nariz. Mas não era um assobio qualquer. Era de tal forma estranho que parecia o miar de um gato, completamente assustado e angustiado, ao acordar na mesa de operações e constatar que tinha acabado de ser capado. Era assustador. Era aterrador. Eu estava assustado comigo mesmo. Eu tinha de parar. Não por causa do assobio… Mas porque estava a sentir a formar-se uma espécie de revolução ao nível dos meus intestinos. Uma espécie de terramoto. Uma espécie de tsunami. Ao que parece, o acto de correr mexe com os meus intestinos, obrigando-os a laborar de uma forma mais intensa e rápida do que é normal. Regressei a casa, mas não a correr, para que a coisa não corresse mal…

No dia seguinte acordei pela manhã e mal conseguia andar. Parecia que tinha sido atropelado por um comboio. E tinha os pés cheios de bolhas, levando-me a pensar que, em vez de jogging, no dia anterior eu tinha passado a manhã inteira a lutar karate com um ouriço gigante.

Mas, no final, eu aprendi uma lição: sempre que sofrer de obstrução intestinal, já sei o que tenho de fazer: calçar as sapatilhas, colocar os phones nos ouvidos e correr em direcção ao infinito e mais além!

Até para a semana, malta catita.

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