O Motel Caviar – o derradeiro final

A vida prega grandes partidas, não sou eu que o digo, mas sim os nossos antepassados, os nossos avós, os nossos poetas e os futuros divorciados também o dirão. Aquilo que falta ao homem em zelo, tem a mulher em intuição, uma mulher pode ignorar o seu sexto sentido anos e anos até ao dia em que numa simples trivialidade o seu inconsciente desperta, a célebre frase “há qualquer merda aqui que não bate certo” não foi escrita ao acaso, aliás, acreditemos de uma vez por todas que nada na vida acontece por acaso, eu durmo melhor e os leitores também.

O tipo do escritório tinha ido abastecer o popó finório ao posto de abastecimento a 2 km de casa ( já não dava voltinhas às bermas de estrada e ao Motel Caviar ) esqueceu-se de levar o telemóvel, na pressa ao sair de casa não levou as chaves nem o telemóvel, logo ele cujo telefone era de valor inestimável incalculável, especialmente nas últimas semanas com o armazenamento de fotos e vídeos de Estela que o tipo não tinha tido a coragem ( ou a inteligência, depende do ponto de vista de cada um ) de apagar, Estela já não lhe pertencia mas ele continuava a ver diariamente as suas fotos escandalosamente sensuais, o tipo do escritório além de infiel e ridículo era também parvo e pouco esperto, portanto, só qualidades. Nessa excitante manhã, o tipo estava na casa de banho a rever recentes memórias, não aguentou as saudades loucas e enviou uma mensagem a Estela com uma das suas fotos religiosamente guardadas, na mensagem ele escreveu qualquer coisa como: Tinha saudades, se podiam ir tomar um café e blás blás blás trágicos e a cheirar a mofo.

A Estela tinha adormecido no sofá e acordou com o som de uma mensagem. Procurou pelas divisões da casa e percebeu que o marido não estava em casa, em outras circunstâncias, noutro dia, a outra hora e em outros momentos Estela teria ignorado o som de uma mensagem no telemóvel do Tiago, mas como diria Aristóteles “As mulheres são tramadas”, como referi no parágrafo inicial, não subestimem a intuição feminina, Estela pegou no telemóvel do marido e constatou que o código tinha sido alterado, ora porque motivo o Tiago alterou o código? Nestas pequenas descobertas do dia a dia quantos lares felizes não são corrompidos? Oh é uma tragédia, “Cai o Carmo e a Trindade”, “Vem a casa abaixo”, um vendaval psicológico, um corrupio emocional…quando Tiago chegou a casa Estela confrontou o artista e após um longo silêncio ele resolveu contar toda a verdade, enquanto Tiago vomitava baba e ranho com coloridos suores de total arrependimento Estela ouvia com toda a atenção, os blás blás blás contados à amante eram os blás blás blás que contava agora à mulher, tinha perdido a amante estava prestes a perder a mulher, a sabedoria popular há muito tempo que o diz: “Mais vale um pássaro na mão do que dois a voar”, isto de um homem querer tudo tem como causa e efeito acabar por ficar sem nada.

Ali estava o Tiago, o tipo do escritório que se envolveu com a colega do trabalho. Ali estava o Tiago, cuja mulher Estela descobriu a infidelidade. Ali estava o Tiago, cujo ego cheio de confiança e arrogância masculina foi diminuindo até ao nível abaixo de zero. Ali estava o Tiago, cujo popó Mercedes foi apreendido pela polícia numa noite de excessos alcoólicos. Ali estava o Tiago, com os papéis do divórcio à sua frente cuja assinatura era a única que faltava. Ali estava o Tiago, o tipo do escritório, sozinho, desconcertado, amargurado, sozinho, bêbado, desiludido, frustrado, sozinho.

Podia finalizar esta novela da vida real levemente queirosiana com um conselho para os leitores, uma lição moral como nas fábulas, um final em grande que remetesse os leitores para a reflexão individual, mas seria perder o meu prezado tempo de cronista, a maioria dos leitores só chegou ao quarto capitulo porque no primeiro a Estela fez sexo oral ao tipo do escritório.

Certamente os leitores recordam-se da mensagem que o tipo do escritório enviou à Estela naquela manhã daquele fatídico dia. Nunca obteve resposta.

 

Fim