Crónicas de Natal

O Natal que escolhemos não ver

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Tenho uma apetência para o desprezo tradicionalista. Tenho, consequentemente, uma proporcional adoração pela realização da realidade e do julgamento do hominídeo que se diz inteligente, mas que se assume como incapaz de analisar a sua própria hipocrisia.

Sim, caro leitor, esta poderia ser uma crónica sobre as maravilhas do Natal. Do quanto é adorado por todos nós, pelas crianças e elevado pela bondade que nos rodeia, ao vermos a luzes que percorrem a Avenida da Liberdade, culminando em belos espetáculos cinematográficos na Praça do Comércio. Mas de tanta luz, de tanta demonstração espetacular… Todos nós sabemos. Também estamos cientes da necessidade de aplicarmos os princípios natalícios ao nosso dia-a-dia. E, de uma forma geral, todos os anos admitimos que não o fizemos ao longo do ano que se esvaiu perante as areias do tempo, jurando aplicar este princípio, de forma mais consignatária, no ano seguinte. O ciclo é tão viciante, quão viciantes são as crises económicas ou a Cocaína.

Ou seja, no fundo conformamo-nos com a necessidade da mudança, em realizar o discurso de que necessitamos de ser bondosos para com quem nos rodeia, em dar mais à sociedade e ao outro, quando na realidade tal não sucede. Melhor, fechamos os olhos, e fingimos como se nada se passasse. Uma performance digna de um Óscar, não fossem os mesmos entregues com base em critérios de seleção, no mínimo dúbios, mas que, em retrospetiva, são uma excelente perspetiva comparativa com os nossos próprios sentimentos. Este… É o Natal que escolhemos não ver.

Tenho um sonho. Sonho com o dia em que a farsa do politicamente, da obrigatoriedade da cor, dos doces e das prendas caia em benefício de algo maior. Esse algo maior serão as pessoas. Escreveram diversos autores que o final das civilizações eram precedidos de denegrição ética e moral, de importância acrescida ao material e do crescimento das disparidades populacionais. Nem sequer me refiro meramente à questão financeira, mas sim a direitos acrescidos para uma elite, minoritária na sua existência, dominante, para lá no entendimento marxista do termo. Tenho o sonho de que, através dos nossos pensamentos poderemos mudar este paradigma.

Sim, nunca é tarde… Mas… Tic tac, tic tac, este é o som da nossa civilização a chegar ao fim, caso continuemos a olhar para esta época como uma idiossincrasia do momento, encarando os princípios do mercado, do privilégio e do desprezo pelo outro como algo maior e mais duradouro do que de todos nós.

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