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O pão da mentira – Francisco Capelo

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O problema da América não é o tamanho. O problema da América são as proporções. Tudo é o que é em comparação com outra coisa qualquer.

O monte Rushmore é grande.

A Estátua da Liberdade também.

O festival de Woodstock foi enorme.

As cidades são tão gigantescas, que se unem, nos bairros periféricos, tornando impossível saber onde acaba uma e começa a outra.

Os índios viram as enormes planícies serem devastadas, metodicamente , meticulosamente. Búfalos, milhares deles, assassinados como um ser humano é assassinado também, metidos ao barulho numa guerra que não era a sua, entre os “rostos pálidos da língua bifurcada sem palavra de honra” e os rostos bastante menos pálidos das tribos índias. A coisa foi tão escandalosa que até Marlon Brando se viu obrigado a dedicar um dos seus Óscares à luta – uma luta justíssima, diga-se – dos índios norte- americanos, luta essa que o Cinema tentou ocultar, abafar, como um reles cobarde que esconde o seu próprio crime.

Vêm estas divagações a propósito de um filme – mais um – completamente desproporcionado e despropositado, “Brooklin´s finest”, com a tradução pateta (mais uma)  de “Atraídos pelo crime”. Richard Gere, Don Cheadle, Ethan Hawke e Wesley Snipes metidos ao barulho, um barulho que é apenas isso: ruído de fundo, qual ululante vuvuzela, sem coerência nem sentido.

A certa altura deixei de contar:

. os tiros
. os negros
. os polícias
. os mortos
. os feridos
. as prostitutas
. os palavrões
. a droga
. o dinheiro
. os filhos de Hawke (já ia em 5, creio)

Há dois momentos de sensibilidade, que duram menos de 20 segundos:

. Gere e a prostituta
. Gere quando lhe retiram o crachá de polícia

E o resto é mais do mesmo: agressividade que produz medo. E fabricar medo é um dos grandes objectivos da indústria dos filmes, actualmente.

Neste momento histórico tudo indica que a Europa seja o entreposto comercial perfeito. Passando a “mercadoria estragada ou medíocre” pelo scanner cultural da Velha Europa (Cannes, Veneza, Berlim, etc), a mercadoria passa a ter selo de qualidade, para exportar ao resto do planeta.

Os donos do mundo utilizam há décadas as mensagens subliminares. Há uns anos descobriu-se isso, na campanha política entre Republicanos e Democratas, onde alguém se referia ao outro alguém como “rat”, ou seja, ratazana, tentando fazer essa cobardia passar discretamente na mensagem publicitária na TV. Só que alguém deu pela marosca, parando a imagem e lendo essa expressão. Deu brado mas os media voz do patrão abafaram a coisa, claro está.

Os mais novos já não se lembram, mas os nazis também chamavam ratazanas aos judeus… como dizia lá a outra: “Não há coincidências!”… O que aconteceu, então? Nada de mais, se calhar até prenderam o engraçadinho que descobriu a artimanha, estilo: “Matem o mensageiro!”.

esses mesmos donos do mundo usam também – e descarada e despudoradamente o fazem – uma velocidade crescente das imagens no cinema, televisão e publicidade: de um plano a cada 30 segundos, há agora uma média de uma nova cena a cada segundo e meio!!

E tudo isto, para quê…?

Obviamente, para condicionar as mentes das pessoas. A indústria fabrica, não apenas os filmes, mas a dependência na sua própria droga, vendendo a seguir a “cura”. De facto, só os americanos poderiam inventar esse brilhante conceito do “ataque preventivo”… Mais do mesmo, uma vez mais. No Iraque a mentira veio ao de cima. E no Afeganistão, provavelmente acontecerá o mesmo. E a Europa, essa, perde-se nos meandros da política internacional, vergada à sua própria “insustentável leveza do ser”…  Ela (um “ela” que, recordemo-nos, somos todos nós, por acção ou omissão) não quer que a lembrem disso: prefere ser autista! Sem uma voz única, sem uma posição centralizada, sem dignidade ou autoridade moral ou intelectual, nada de nada de nada.

A verdade é que, a partir do momento em que a Europa aceitou o plano Marshall no pós- 2ª guerra mundial, ficou económica e politicamente refém, presa no anzol mais antigo do mundo e sem precisar sequer de um isco nesse anzol, de tão desesperada que estava! Os americanos viram a Europa auto- destruir-se, e depois adoraram servir de enfermeiros, fazendo contudo questão de ajudar o moribundo a escrever o testamento perfeito… O pão que o diabo amassou entra-nos agora pelos olhos dentro, todos os dias, em filmes- catástrofe que tentam embarcar os europeus numa viagem ao inferno, na qual ainda por cima têm de pagar bilhete…

Algures neste mundo, disparam balas, com armas, em nosso nome. As armas não são nossas. E as balas são feitas na Índia ou China. Mas, se são disparadas, podem crer que há um imenso alguém, neste entreposto comercial perfeito, nesta placa giratória do medo e do mal, a olhar para o lado e a assobiar para o ar.

Só para dar um exemplo gritante do cinismo americano: o único país que dá sermões aos outros países sobre o nuclear (ao Paquistão, ao Irão, etc etc etc) é também – coincidência! – o único que já utilizou esse mesmo nuclear!! Ninguém sequer se lembra que muito provavelmente o Irão apenas quer ser autónomo a nível energético – algo que pode ser claramente atingido com uma utilização metódica e racional do nuclear. Aqui entre nós, o tal de Bin Laden e seus acólitos nem têm de fazer mais nada: a hipocrisia ocidental faz o trabalho por si!

Haja alguém que acorde a bela adormecida… É que o Rei nem cuecas tem, ele vai mesmo, mesmo nú !!

 

FranciscoCapeloLogoCrónica de Francisco Capelo
O Suspeito do Costume
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