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O Renascer da Filosofia

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A Filosofia morreu. Os filósofos não acompanharam os desenvolvimentos mais recentes da ciência e particularmente da física, e devido a isso, a Filosofia morreu. Esta dura afirmação do grande físico teórico e divulgador científico Stephen Hawking, conhecido por ter tornado compreensíveis para o comum mortal conceitos especialmente complexos, foi registada num dos seus últimos livros.

Ora parece-me claro que Stephen Hawking sabe melhor do que a grande maioria das pessoas que a Filosofia não só não morreu, como constitui um complemento indispensável ao meio científico, criando-lhe constantes constantes desafios. Mesmo os maiores sucessos científicos tem deixado muito espaço para a discussão filosófica e a verdade é que muitas das grandes questões filosóficas até hoje permanecem por responder.

René Descartes, por exemplo, nunca conseguiu provar, nem com o seu “Dubito ergo cogito; cogito ergo sum”, que existe algo mais para além da nossa própria mente. Esta é precisamente a base do solipsismo, a ideia filosófica de que apenas podemos ter a certeza da existência da nossa própria mente. Como corrente epistemológica, o solipsismo afirma que o conhecimento de algo fora da nossa mente é incerto, sendo que o ‘mundo exterior’ e até outras mentes poderão não existir. Ainda hoje a dúvida permanece, tendo inspirado uma das mais bem sucedidas trilogias do actual século, a trilogia Matrix, realizada pelos irmãos Wachowski, que aborda precisamente este tema.

Mas a utilidade da Filosofia não se esgota no incentivo e contributo que oferece à ciência. Na verdade, o debate filosófico e o estudo da filosofia trazem consigo vários outros benefícios, desde o desenvolvimento das jovens mentes, ao próprio desenvolvimento da sociedade.  A capacidade e vontade de questionar, a presença de espírito crítico, a capacidade de ver mais além e de pôr em causa dogmas bem aceites pela generalidade, são atributos que ao longo dos tempos se revelaram fundamentais na transformação das sociedades. Estes atributos  tem sido sempre a génese da filosofia.

No entanto, a lógica (ou falta dela) do lucro imposta pelo Liberalismo e pelo seu neologismo, remetem o estudo da Filosofia para patamares que chegam a roçar o ofensivo. E é aqui que me parece que Hawking quererá chegar, fazendo por um lado uma crítica e por outro lançando um desafio. Crítica a uma certa apatia que se instalou no pensamento filosófico dos últimos 40 anos (sem desprimor para os grandes trabalhos filosóficos realizados neste período), e um desafio para que as coisas se alterem, uma espécie de provocação ao filósofo que há em cada um de nós.

O facto de a Filosofia não ter directamente associada à sua prática um lucro imediato, e embora os benefícios que a mesma nos traz a médio e longo prazo sejam por demais evidentes, faz com que seja olhada pelos grandes gurus das sociedades modernas ocidentais como uma actividade não produtiva e portanto estéril e sem interesse na perspectiva de mercado.

Na minha opinião, o renascer da Filosofia passa pela aceitação dos desafios que pessoas como Hawking lhe propõem. Apesar de nos podermos sentir tentados a ignorar estes desafios ou questões, a verdade é que para a Filosofia existir, basta que existam perguntas sem resposta, e esse é precisamente o desafio da Filosofia, encontrar as perguntas que necessitam ser feitas.

Portanto, as perguntas que todos nós continuamos a fazer de quando em vez, e cuja resposta nunca obtivemos,  constituem em si mesmas o renascimento da Filosofia, e à semelhança daquilo que Hawking fez com a Ciência, urge encontrar uma maneira de melhor promover, no actual modelo de organização das nossas sociedades, o verdadeiro espírito da Filosofia.

Ainda assim, é conveniente notar que a independência, curiosidade e vontade de questionar inerentes à Filosofia, serão sempre uma ameaça para qualquer Status Quo que vigore, o que acaba por fazer com que exista um natural distanciamento por parte da Filosofia do núcleo duro do próprio sistema. Este distanciamento é também um mecanismo de protecção da própria Filosofia, que deste modo tenta evitar uma das tácticas preferidas do actual sistema de organização da grande maioria das sociedades modernas, a táctica da absorção e assimilação dos factores que se lhe opõem, e a sua consequente inserção na dinâmica do próprio sistema.

Resta-nos a esperança de que o renascer da Filosofia traga consigo uma visão do mundo contemporâneo que tenha em conta pessoas e tudo o que este conceito engloba, não apenas números ou corpos, mas pessoas na totalidade da sua individualidade, pessoas que possam escolher e ter responsabilidades. Seria bonito.

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