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A Origem do Bem: o Extremismo Islâmico Europeu

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Ainda sobre os refugiados, caro leitor, e agora que o PNR pareceu capitalizar o seu crescimento eleitoral na base da crítica à receção dos mesmos (passando de 17000 para mais de 27000 votos), esta parece ser uma boa altura para analisar, de uma forma breve, como surge no contexto Europeu, o Extremismo Islâmico.

Muito nos orgulhamos nós, Europeus, autoproclamados fundadores da chamada “civilidade” e “cultura”, de termos a capacidade humana de receber aqueles que mais necessitam, ajudá-los, e sermos… Bem… Humanos, uns para com os outros (o exemplo do Governo Hungaro, então, é exemplar).

Ainda assim, temos que referenciar como positiva a vontade de a larga maioria dos países da União Europeia em receberem os refugiados (cuja velocidade de tomada de decisão fez-nos questionar se somos governados por caracóis ou políticos profissionais). Com oposição, apenas, do lado dos militantes extremistas de direita (geralmente nacionalistas e neo-nazis) a temática levou um rumo que foi mais ou bem aceite pela população europeia, com muito poucas exceções (devo desde já agradecer o facto de o Governo Hungaro servir como escape cómico desta mesma crónica).

No entanto, no contexto da retórica que em nada se constitui racista, xenofóbica, tendenciosa, populista e eugénica (obrigado, a sério, obrigado), uma crítica e chamada de atenção foi colocada por parte dos movimentos nacionalistas que, para variar, foi capaz de ser bastante acertada: o risco de terrorismo no acolhimento aos islâmicos, com base nas diferenças culturais e na generalização (completamente acertada e, mais uma vez, nada racista) de que “são todos terroristas”. Tal argumento encontrava-se fundamentado, segundo estes grupos, no surgimento de grupos terroristas europeus, que tiveram a sua maior saliência no atentado ao Charlie Hebdo.

Ora, sucede que aquilo que tem sido visto pelos especialistas em Migrações e Cultura é que o radicalismo nos Islâmicos Europeus apareceu em muçulmanos de 2ª ou 3ª geração, cujos pais e avós foram aglomerados em bairros pobres. Um eufemismo para guetos. Ou favelas. Porque somos extremamente civilizados, enfiamos as pessoas em favelas. Enfim.

Ou seja: como em Londres e Paris (e outras comunidades) se criaram guetos islâmicos, criaram-se comunidades de facto, que criaram culturas próprias, mini-estados, identificados com as culturas natais, altamente influenciadas pelos discursos anti-ocidentais, que depois criaram problemas culturais. Mas de onde surgiu este discurso?

A política de integração portuguesa, espanhola, alemã e sueca, optou por distribuir os imigrantes islâmicos por vários pontos dos países (ou não os incentivou), de forma a que se integrassem na sociedade civil, aprendessem os costumes e, se desejassem, mantivessem a sua cultura de origem, mas sempre integrados. Daí que em geral haja muitos menos problemas nestes países do que em França e em Inglaterra.

Como é que isto releva para esta explicação?

Acontece que as pessoas em condições de extrema necessidade, pobres, sem apoio social e concentradas, que imigraram, ou são descendentes de imigrantes, frequentemente sem recursos económicos e financeiros suficientes, estão mais sujeitas a piores condições de vida. Assim, como os guetos onde foram concentrados, inicialmente, são mal vistos, os habitantes, mesmo que islâmicos moderados (ou, até, Cristãos, ateus e agnósticos), são também mal vistos, o que limita a mobilidade social, pois limita a capacidade de os referidos cidadãos conseguirem saír dos tais guetos, trabalharem fora e integrarem-se socialmente na sociedade receptora.

Sequencialmente, as pessoas irão inevitavelmente procurar uma saída para a situação de pobreza. Sendo que as crises financeiras (2007/2008) e das dívidas soberanas (terão um fim?) implicam uma dificuldade acrescida à mobilidade social. Então as pessoas não tem outra opção que não procurarem na cultura e na religião algum refúgio. Agora, como sabemos, a intervenção repetida das potências europeias, americanas e da URSS no Médio-Oriente, com imensas atrocidades cometidas, e aproveitamento dos recursos naturais locais, levaram ao surgimento de ideologias islamitas anti-imperialistas ocidentais (e não, apenas, anti-americanas). Pensávamos, nós, estar a construir a Origem do Bem, mas na verdade apenas preparámos uma bomba-relógio (os meus agradecimentos à altivez e arrogância europeia).

Uma vez que as ideologias anti-imperialistas são internacionais (sobretudo, depois dos ataques de 11 de Setembro), estas tornam-se capazes de influenciar os jovens islâmicos (acelerada pela modernização dos canais de comunicação, da internet, do advento das redes sociais e da Deep Web), residentes na Europa, com um crescente grupo de Imãs, pregando contra a cultura Ocidental. Assim sendo, com jovens, que antes eram apenas pobres socioeconómicos, agora são, também, pobres em esperança. Cederam ao desespero. O desespero é um sentimento curioso. Leva as pessoas a realizarem as maiores loucuras. E assim foi. Je suis Charlie.

O mais engraçado é que hoje não precisaríamos de ser todos Charlie’s (uns são mais Charlie’s que os outros…) se dois dos principais Estados Europeus, Inglaterra e França, tivessem tido tal previdência. De facto na Alemanha, por exemplo (mas podemos listar países com uma população islâmica significativa, como a Suécia ou a Dinamarca), este fenómeno é extremamente raro. Isto porque os apoios sociais a pessoas pobres, ou em situação de exclusão, são muito maiores do que em Inglaterra e França.  Claro que a falência do Estado Social Francês e os cortes sociais de Maggie Thatcher, Tony Blair e David Cameron, em Inglaterra, destruíram as respetivas capacidades dos Estados Sociais (e respetivas sociedades) destes dois países conseguirem retirar da pobreza pessoas que podem formar grupos terroristas.

Ou seja, vamos resumir uma longa história numa conclusão que o meu editor classifica como extremamente pouco “catchy”: os terroristas que nasceram na Europa só entraram no fervor religioso islâmico porque os líderes políticos do nosso passado recente foram demasiado curtos de vista, não tendo sido capazes de visualizar como o desespero socioeconómico pode levar ao extremismo.

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