Os Melhores Discos Internacionais de 2016

O ano de 2016, chegou ao fim e como habitual, é tempo de efectuarmos uma retrospectiva musical do ano que findou. Este ano, o mundo da música viu partir alguns dos seus maiores nomes, mas como nem tudo foi tristeza, este ano também foi generoso em grandes discos. Elaborei assim, a lista dos melhores álbuns que ouvi este ano, e há de tudo um pouco, nomes que já não estão entre nós, discos de estreia e compilações.

10.º Jack White – “Acoustic Recordings 1998 – 2016”

Jack White, é um dos meus músicos preferidos e já conta com mais de 25 de carreira, altura mais que perfeita para uma colectânea. Neste caso podemos ouvir versões acústicas, de temas que percorrem a sua carreira em diferentes fases. Temos, por exemplo, “Sugar Never Taste So Good”, “I’m Bound to Pack It Up” e “As Ugly As I Seem” dos White Stripes, “Top Yourself” e “Carolina Drama” dos The Racounteurs” e “On And On”, “Blunderbuss” e “Entitlement” extraídas dos seus discos a solo. Podemos ainda ouvir lados B, temas que ainda não haviam sido editados e versões alternativas.

O álbum é simplesmente fantástico tal como é o génio de Jack White, uma compilação que percorre os caminhos do blues, rock’n’roll, country e folk. A produção está, como não podia deixar de ser, a cargo do próprio e a a edição conta com o carimbo da sua própria editora a Third Man Records.

9.º The Last Shadow Puppets – Everything  You’ve Come to Expect

Os The Last Shadow Puppets, são uma projecto musical que junta Alex Turner (Arctic Monkeys) a Miles Kane (The Rascals), contam ainda com a participação do baixista Zach Dawes (Mini Mansions) e do produtor James Ford. Estrearam-se em 2008 com o viciante disco The Age of The Understatement, regressaram oito anos depois e voltaram a surpreender com mais um belíssimo álbum. Everything You’ve Come to Expect, direcciona-os para um caminho mais psicadélico e menos rock, até ao momento já lançaram 4 singles, o primeiro é mesmo uma da melhores músicas do ano e chama-se “Bad Habits”.

Este segundo LP, foi lançado em Abril, sendo a produção de James Ford, que já colaborou com bandas como Mystery Jets, Klaxons, Florence + The Machine, Peaches, Foals, Jessie Ware, Haim e Mumford & Sons, entre outros. A editora foi a prestigiada Domino Records (Anna Calvinismos, Franz Ferdinand, The Kills, Hot Chip, Patrick Watson e Wild Beasts. É importante referir que a imagem que serve de capa ao disco, retrata uma fotografia de 1969, onde se pode ver Tina Turner a dançar.

8.º King Gizzard & The Lizard Wizard – Nonagon Infinity

Os australianos King Gizzard & The Lizard Wizard parecem ter atingido a maturidade e o reconhecimento e este ano editaram um estupendo álbum que figura em inúmeras listas de melhores discos do ano. Eu concordo e Nonagon Infinity, ocupa o oitavo lugar. O psicadelismo está na moda, mas os King Gizzard & The Lizard Wizard estão para lá da moda e apresentam um LP repleto de rock psicadélico, que nos transporta tão depressa para um ambiente sombrio e obscuro, para no momento seguinte nos exaltar num alucinante fascínio.

Nove temas que se conectam entre si, compondo um dos melhores e mais surpreendentes discos do ano, recheado com fortes doses de experimentalismo. “Gamma Knife” e “People-Vultures” merecem ser ouvidas com os decibéis bem elevados. Nonagon Infinity, conta com o selo da ATO Records (Alabama Shakes, Benjamin Booker e Kaiser Chiefs) e da Heavenly Records (Mark Lanegan, Temples e Toy).

7.º Anohni – Hopelessness

Antony Hegarty, dos Antony and the Johnsons, apresentou-nos este ano a sua nova cara, sob o pseudónimo Anohni, editando o disco Hopelessness. O álbum foi aclamado pela crítica, alcançando mesmo a nomeação para o prestigiado Mercury Prize. Hopelessness, navega nas águas da música electrónica/synthpop, em detrimento da habitual pop melodiosa a que Antony nos habituou, no entanto o lirismo da sua voz continua bem patente. Este disco apresenta um belíssimo conjunto de 11 canções que de certa forma pode ser descrita como “electrónica clássica”, onde se denotam as preocupações políticas e ambientais do mundo que nos rodeia. “4 Degrees”, é absolutamente fenomenal, mas não podemos ignorar temas como “Obama”, “Why Did You Separate Me From The Earth?” e “Drone Bomb Me”.

A produção resultou de uma parceria entre Hudson Mohawke (Kanye West) e Oneohtrix Point Never, nome artístico de Daniel Lopatin. a edição americana coube à Secretly Canadian (The War on Drugs), enquanto que a edição europeia ficou entregue à Rough Trade (Arcade Fire, Belle and Sebastian, The Libertines, The Strokes).

6.º Jack Garratt – Phase

Não figurou em nenhuma lista de melhores do ano, não foi aclamado pela crítica, foi recebido com entusiasmo moderado, mas conquistou-me à primeira escuta e foi possivelmente o álbum que mais ouvi este ano. A estreia do britânico Jack Garratt, é sublime, brilhante e viciante. Uma voz recheada de soul, misturada com electrónica na medida certa, fazem com que cada música seja um acontecimento absolutamente deslumbrante. Phase, é para mim o melhor debut do ano, temas como “Worry”, “Breath Life”, “The Love You’re Given” e “”Weathered”, marcaram o meu ano, mas não podemos ignorar o facto de o disco ser composto por 12 temas, dos quais já foram extraídos sete singles. Produzido pelo próprio Garreatt, a edição conta com o selo da Island Records (Ben Howard, Florence + The Machine) e da editora americana Interscope (Lady Gaga, U2, Tame Impala e Yeah Yeah Yeahs).

5.º Childish Gambino – Awaken, My Love!

Uma das maiores surpresas do ano, coube a Childish Gambino, pseudónimo do multi-facetado Donald Glover, cantor, compositor, actor, produtor, realizador, escritor, entre outras coisas. Awaken, My Love!, é o terceiro registo de Childish Gambino e apresenta uma mescla extravagante de soul, funk, rock psicadélico, r&b e experimentalismo. É talvez o disco menos monótono do ano e um dos mais excitantes, todas a músicas são diferentes entre si, proporcionando verdadeiros deleites musicais. A ouvir “Boogieman”, Baby Boy”, “Redbone” e “Stand Tall”. A editora é a prestigiada Glassnote que actualmente conta na sua carteira com artistas como AURORA, Chvrches, Daughter, Phoenix, The Temperanças Trap e Two Door Cinema Club.

4.º RY X – Dawn

É um dos nomes mais desconhecidos desta lista, mas é daqueles que têm mesmo que conhecer. O cantro e compositor australiano Ry Cuming, assina como RY X, e após muito entusiasmo à sua volta, regressou aos discos com brilhantismo, editando Dawn, mais um álbum que foi esquecido das listas de melhores do ano. Uma voz sensual, que simultaneamente surge poderosa e profunda como suave, as melodias são deliciosas, e o lirismo penetrante. É um disco que nos consome, absorve e ao qual não conseguimos ficar indiferentes. Acredito que quem gostar de Glass Animals, The xx e Bon Iver, irá com certeza ficar rendido a temas como “Only”, “Salt” e “Beacon”.  As editoras responsáveis por tamanha obra de arte foram a britânica Infectious Music (Local Natives, alt-J, These New Puritans) e a americana Loma Vista Recordings (Iggy Pop, Spoon, St. Vincent e Andrew Bird)

3.º Bon Iver – 22, A Million

Ao terceiro disco, para os mais cépticos, caso restassem dúvidas, Justin Vernon provou que um dos nomes maiores da música dos nossos tempos. Após um interregno de cinco anos, Bon Iver regressa com mais um sublime disco, 22, A Million, revela a descoberta da luz depois de um mergulho nas profundezas. O registo não difere muito dos anteriores, no entanto, há algo de sombrio, profundo e pessoal neste disco, que nos emociona. A composição lírica é sem dúvida um dos alicerces de Bon Iver, que combina com mestria indie folk, electrónica e uma certa pop barroca. Para todos aqueles que se questionavam, se seria possível elevar a fasquia deixada pelo antecessores For Emma, Forever Ago e Bon Iver, Bon Iver, Justin Vernon respondeu, afirmativamente, entregando-nos a sua alma servida 10 músicas envolvidas no belíssimo embrulho de 22, A Million. Músicas como “22 (Over Soon)”, “8 (Circle)”, “33 “GOD”” e  “21 (Moon Water)”, que conta com o colaboração de Sean Carey, mais do que serem ouvidas merecem ser sentidas. A edição manteve-se sob a alçada da Jagjaguwar (Foxygen, Dinosaur Jr., Angel Olsen, Unknown Mortal Orchestra e Sharon Van Etten).

2.º Radiohead – A Moon Shaped Pool

Os Radiohead inovam, reinventam-se a cada disco, exploram novas sonoridades, percorrem estradas diferentes, mas não é por acaso que para muitos são a maior e melhor banda do mundo. A Moon Shaped Pool, não é de todo uma novidade, sete das onze canções já eram conhecidas, receberam no entanto novas roupagens e, mesmo assim, o mundo parou para os ouvir. Melancólico, triste, introspectivo, intenso, sombrio, o último álbum dos Radiohead é isto tudo e muito mais. Menos electrónico e menos expansivo do que os anteriores, A Moon Shaped Pool, é uma “tempestade calma” de emoções, a voz de Thom Yorke atinge por vezes um carácter profético. Os arranjos são divinais e aqui podemos encontrar algumas das melhores músicas editadas este ano, “Burn The Witch”, “Daydreaming” e “The Numbers” são bons exemplos. Os Radiohead regressaram triunfantes e divinais como só eles sabem. Pode não ser o disco mais original deste ano, mas é o mais visceral. Os elogios a este disco devem ser estendidos à editora independente XL Recordings, que não me canso de elogiar, por respeitar a liberdade criativa dos seus artistas, entre os quais encontramos os nomes de Adele, Sigur Rós, Vampire Weekend e Ratatat.

1.º David Bowie – Blackstar

David Bowie “partiu em direcção a Marte” dois dias depois da edição de Blackstar e, muito mais do que uma discografia, deixou-nos uma obra ímpar na história da música, reinventou-se a cada disco, encarnou diversas personagens, mas nunca perdeu o seu estilo único, inconfundível e irreverente. A música e, no fundo, a arte foi elevada a outro patamar, foi nesse registo que surgiu o seu último álbum, Blackstar, que merece nota máxima, a perfeição existe.

Muito mais que um disco, é uma obra de arte, onde tudo é pensado ao pormenor, desde a capa, ao booklet, sem esquecer o mais importante a música, a mensagem de despedida é evidente e a escolha da díade de cores branco e preto, não surge por acaso. Sete canções apenas, mas nenhuma delas com menos de 4 minutos, as influências jazz estão bem patentes. “✭”, marca o início e percebemos, logo aqui, que estamos perante um álbum maior, mais de 9 minutos sofridos mas encantadores, onde o tema da morte está bem patente “Something happened on the day he died, Spirit rose a metre and stepped aside, Somebody else took his place, and bravely cried: I’m a blackstar, i’m a blackstar” (…) “How many times does an angel fall? How many people lie instead of talking tall? He trod on sacred ground, he cried aloud into the crowd i’m a blackstar, i’m a blackstar”. Segue-se a alucinante “’tis a Pitty She Was a Whore”, que antecede a brilhante “Lazarus”, que deve ser ouvida de olhos fechados e sentida de coração aberto “Look up here, i’m in heaven (…) i’ve got nothing left to lose (…) this way or no way, you know, i’ll be free, just like that bluebird, now ain’t that just like me”.

“Sue (or in a Season of Crime)”, assume o registo mais rock do álbum com um toque de psicadelismo. “Girl Loves Me”, demonstra-nos uma vertente mais experimentalista e para os aficionados de coincidências David Bowie faleceu a um domingo (10 de Janeiro), “Where the fuck did Monday go?, where the fuck did monday go?”. Voltamos a sentir a sonoridade jazzy com “Dollar Days”, servida com solos de saxofone e novamente uma letra tocante: “Don’t believe for just one second i’m forgetting you, i’m trying to, i’m dying to”. Para a perfeição estar completa Blackstar chega ao fim ao som de “I Can’t Give Everything Away”, colocando um ponto final na obra de um artista único “I know something is very wrong, the pulse returns for prodigal sons, the blackout’s hearts with flowered news, with skull designs upon my shoes. I can’t give everything, i can’t give everything away. Seeing more and feeling less, saying no but meaning yes, this is all i ever meant, that’s the message that i sent. I can’t give everything, i can’t give everything away (…).

No fim surgem duas questões, será que a perfeição que atribuo a Blackstar, não é mais uma forma de homenagem? Provavelmente.

Será que a classificação não é influenciada pelo facto de David Bowie ter falecido após o lançamento do disco? Sem dúvida que a avaliação é influenciada, mas todo o disco adquire um significado e um sentido diferente pelo simples facto de, mesmo antes de morrer, David Bowie ter sido único, este não é um disco para agradar a críticos, para agradar a playlists radiofónicas e nem mesmo para agradar aos fãs. É um disco que reflete o artista, mas muito mais que um adeus, Blackstar é um incentivo à criatividade e à inovação. Até sempre David Bowie e obrigado por nos deixares o melhor disco de 2016!