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O paciente – capitulo final

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As suas palavras foram o suficiente para me deixar num nível de excitação que eu desconhecia. Abriu a porta do automóvel e entramos, eu primeiro, ele a seguir. Conduziu cerca de oitocentos metros, por entre ruas estreitas, como se soubesse exactamente para onde me levar, como se não fosse a primeira vez que engatava uma gaja naquele local. Enquanto conduzia passava a sua mão quente e grande por entre as minhas pernas, lentamente, olhava para mim e voltava a colocar a mão no volante, eu sustinha a respiração e olhava de relance para ele, de cima a baixo, relógio, blazer, calças de ganga, ténis. Estacionou numa rua sem saída, escura, rua com moradias bifamiliares, silenciosa, sem ninguém a caminhar.

Ana? 

– Sim…

– És uma mulher feliz?

Sim, sou ( menti-lhe sem hesitar ). E tu, és um homem feliz?

Não.

– Porquê?

– Porque falta tudo na minha vida.

E foi naquele preciso momento, naquele instante, 23 horas e 14 minutos, que eu percebi que estava completamente apaixonada. Senti uma enorme vontade de dar todo o meu desejo, paixão, carência, saudade, tesão, aquele homem que ali estava, sentado ao meu lado, no banco do condutor a desabafar que não era um homem feliz. Em segundos imaginei que ia ser a sua salvação, a sua felicidade suprema, a sua deusa, aquilo que ele não conseguiu encontrar em 43 anos da sua existência, calma Ana, és apenas uma keka, igual a todas as outras kekas que ele já deu neste popó, muito provavelmente sem preservativo e sem limpar os bancos…foda-se, tinha a minha consciência em dois tons a falar comigo.

Ana, anda para cima de mim, quero estar dentro de ti já.

Obedeci, só a forma como sussurrava e olhava para mim era o suficiente para eu ceder. Alias, ele podia pedir-me qualquer coisa naquele momento, da forma que eu estava, dava-lhe absolutamente tudo.

Ele desapertou os botões das calças e desceu as calças até aos joelhos, olhei para ele e mexi no cabelo, levantei o vestido, coloquei-me em cima dele, beijamos-nos, afastei as cuecas de renda preta, e coloquei o seu sexo dentro de mim com força, ambos gememos, foi a melhor sensação que eu senti em toda a minha vida, as borboletas no estômago da paixão com a frenética excitação do desejo faziam uma parceria explosiva. Ana, és tão boa, sussurrava ele. Eu continuava no frenético movimento, as pernas tremiam, as costas suavam, os cabelos colavam no meu rosto, agarrei-me ao banco para poder fazê-lo com mais força, era bom, era tão bom, eu estava completamente molhada, os meus seios que ele já se tinha apoderado com as suas mãos quentes, estavam erectos e firmes. Os vidros do automóvel estavam completamente tapados com o nosso ressoar. Dentro estava um calor exasperante. Gostas? Perguntou. Não respondi. Tornou a perguntar: Gostas? Responde Ana. Sim, gosto. Adoro. E tu, gostas? Ui, meu Deus, isto era tudo o que eu queria . Enquanto fodiamos, ele perguntava: Ana? Diz? Diz-me que me amas. Eu amo-te. Ana? Sim? Diz-me que vais ficar comigo e nunca mais vais foder com ninguém, promete. Sim, só contigo. Ana? Diz. Se fores com alguém para a cama pensas em mim quando tiveres em cima dele? Sim, tu sabes que sim. Aquela conversa deixava-me ainda mais excitada, era delicioso. Estás com vontade de te vir? Perguntei. Sim foda-se. Não te venhas já, aguenta, eu quero mais…não sei ao certo quanto tempo ali estivemos mas foram longos minutos.

Estávamos os dois sentados, cada um no seu banco, o telemóvel dele toca, ele não atende. Foi o suficiente para eu cair na realidade. Vamos embora, deixa-me na rua principal por favor. Que se passa? Perguntou. Não respondi. Antes de sair do automóvel, olhei para ele e disse-lhe: Nunca daria certo pela forma como começou, ficamos por aqui. Tudo de bom para ti. Ele não disse absolutamente nada. Saí do carro sem hesitar e sem olhar para trás. Apanhei um táxi e fui para casa. No dia a seguir ele não apareceu na terapia semanal, nem na semana a seguir, nem nos meses a seguir, não tínhamos trocado contactos, e o contacto dos pacientes era altamente confidencial e indisponível para os terapeutas, salvo raras excepções. Todos os dias pensava nele, fiz bem, fiz mal, estava arrependida, não estava, porque é que ele nunca mais apareceu, seria para me salvaguardar, seria porque não estava interessado, se calhar tinha uma companheira e só me quis para aquele momento sexual, tinha muitas duvidas, a única certeza que tinha era que estava apaixonada por ele e que não tinha vivido essa paixão.

Passaram quatro anos. A minha função como  terapeuta na clínica passou a ser gerida também com a função de coordenadora de equipa. Conheci o Tiago, um comercial na área das telecomunicações, casamos e tivemos a nossa filha Joana. Um dia, estava a subir as escadas do edifício onde se encontra o infantário da Joana e vejo-o, assim, sem mais nem menos, sem aviso prévio, à minha frente, relógio, calças, blazer, ténis, olhos claros…era ele! Olá, tudo bem contigo? Tento fazer ar de pouco surpreendida e o mais natural possível. Sim, e contigo Ana? Tudo bem também. É tua filha? Sim, é a Joana, tem 28 meses. Também já és pai, e sorri para o bebé que ele trazia ao colo. Não, é meu sobrinho, vim trazer uma papelada da minha irmã para o inscrever nesta creche. Bem, vou andando. Tudo de bom. Igualmente. Eu continuei a subir as escadas, ele desceu. Faltou-me o ar, estava tão tensa. De repente ouço: Ana? Aquele chamar do meu nome inconfundível e irresistível. Olho para trás e ele pergunta: Lembrei-me…talvez pudesses facultar o teu contacto, para, sei lá, talvez retomar a terapia se ainda estiveres a exercer. Sim, claro, porque não?

” Nunca deixes uma paixão por viver, mais dia, menos dia, ela vai reaparecer e mostrar-te porque é que ainda não a esqueceste.”

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