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Quando os meus pés são os teus – André Marques

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Não sou crédulo na religião, mas entendo a analogia. A relação de semelhança entre objetos diferentes.

Hoje em dia há quem julgue que a afinidade funciona como um contrato de trabalho efetivo. Nada mais ridículo. E até utilizam a enfadonha expressão “até que a morte nos separe”. Alguns, apenas. O emprego já não é para a vida, assim como a vida a dois raramente persiste nos dias que correm.

Nada é certo, é verdade. Tudo é efémero. Todas as esperanças estão canalizadas na amizade, por assim dizer. Por agora.

A crise veio dar um novo fôlego ao amor. A energia desse sentimento destrói a indignação que atualmente reside no país. Como um hotel de cinco estrelas. A crise não deixa espaço para absolutamente nada. Dos meus olhos. Dos teus. Dos nossos. Os presentes realizados à mão prevalecem acima de qualquer materialismo. As flores colhidas num cemitério qualquer substituem perfeitamente as da florista. O dinheiro colapsa. E o ordenado só serve para pagar a renda. Em suma, a conjuntura atual do país leva a que algumas pessoas não se sintam confortáveis para amar. Para o amor. Na plenitude. Mas o carinho é um sentimento eterno, que reina acima de quaisquer consequências. Faz parte da dignidade.

Amar é mais que beijos. Amar é mais que encontros. Amar é mais que uma queca. Amar conduz à genuinidade, independentemente das inclemências. Como eu amo a Filipa. E não penso em tê-la só para mim.

Filipa Tavares. Romântica. Fantasiosa. Simbiose perfeita. E com muito amor para dar. Divertida. Adora pertencer ao centro das atenções, sempre em prol do melhor da vida. A amizade. Dotada de inúmeras qualidades, tem a mania que é opressora, o que a torna um pouco comodista. Egoísta. Ninguém é primoroso o tempo todo.

É de fácil domínio que granjeie a companhia de ilustres personalidades. O sucesso e o poder deixam-na estarrecida.

A afeição recíproca leva-me a conhecer todos os defeitos. Os meus. Os da Filipa. Que tem o azul da esperança. O azul que embeleza a fidelidade. A subtileza. Ou o rosa, que expressa o companheirismo. A afeição. Ou o preto, a dignificar a sofisticação e o luxo. A ostentação de nos conhecermos. Desde hoje. Desde ontem. Desde sempre. Porque a amizade pode ser eterna. E não hà crise que a destrone. Ou que a mate. Porque a amizade tem a cor que lhe quisermos dar.

Falo-te do jeito que quiser. Soltamos todas as gargalhadas. E choramos a seguir. Um dilúvio, talvez. E conheces todas as minhas qualidades. Principalmente os meus defeitos.  E eu as tuas. E os teus. De trás para a frente. Como uma cassete rebobinada.

A amizade sente-se. De olhos fechados. E é quando te defendo que te sinto próxima. De uma forma ou de outra, justifico o apego que nos une. Nada nos é censurado. Ou não seriamos amigos.

Na minha modesta opinião, a solidão é algo tremendamente absurdo. Um caminho sem saída. E que só prevalece quando mais nada transparece. A falta de afeto, de consideração, de respeito, de frontalidade. Solidão. Propícia a doenças infeciosas. Ou não.

Sem a tua afeição desmedida, percorro o deserto. Um qualquer. O da Argélia. O da Arábia. Ou o Branco, no Egito. Sei lá.

Como diz Mário Quintana “A amizade é um amor que nunca morre”

O meu amor por ti é diferente. É amor. Mas diferente. Diferente do amor de pai. Diferente do amor de mãe. Diferente. Mas que completa. Como um parque de estacionamento em época de festa. Que enche com a facilidade de um carro. O amor excede a distância. Nunca finda. E estende-se a outras pessoas. Como uma espécie de tradição. Os melhores amigos são aqueles que não sabemos de onde vieram. Aos meus. Aos teus. Aos nossos. Sobretudo, a nós.

Eu tenho a vida, porque te tenho a ti. Nunca te esqueças dos pormenores. E nunca te lembres de como nos conhecemos. É mais do mesmo. Vive. Eu estou aqui. Não desde sempre, mas para sempre.

AndréMarquesLogoCrónica de André Marques
Crónicas Improváveis
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