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Rei no Rio por um dia

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Em menos tempo do que supunha quando saí de casa, devido à previsão de trânsito na Avenida Paulista, chegámos na van do meu pai ao teatro Paramount em pleno centro da cidade de S. Paulo, a tempo de participar na finalíssima do terceiro festival MPB da TV Record, a que eu e a minha banda-revelação de sessenta e sete concorremos, no intuito de alcançar a popularidade de Chico Buarque que vencera há um ano com o tema “A banda”, parecendo intuir que dali a um ano estaríamos nós a disputar o primeiro lugar.

Estacionei de marcha à ré, sem dificuldades de maior no parque reservado pela organização do festival para esse efeito, a carrinha Volkswagen, vulgarmente conhecida por perua, que por causa de problemas na suspensão de tanto subir e descer passeios, mal podia com o peso do equipamento de som e instrumentos. Comigo ao volante e, sentada ao meu lado, Lolobrígida, de saia levantada nos joelhos e blusa arregaçada a mostrar o umbigo, seguiam na retaguarda os restantes elementos da banda que, além de nós, eram dois amigos meus de infância, um deles o irmão de Lolobrígida chamado Wagner, que aos dezassete anos tinha modos efeminados, com tendência para gesticular enquanto falava e por imposição dela, que queria continuar a ser quem mais dava nas vistas, é que não usava ainda fitas no cabelo e maquilhagem.

Primavera de mil novecentos e sessenta e sete. Em outubro, era comum do céu sarapintado de nuvens ter-se ainda a impressão de que caíam as derradeiras folhas sopradas das árvores pela ventania.

Como era cedo, Lolobrígida e eu saímos do carro e afastámo-nos dos rapazes, deixando Gutierrez e Wagner a descarregarem as pesadas caixas do equipamento de som com o auxílio dos moços de fretes do estúdio que, olhando timidamente as pernas da minha acompanhante, mais facilmente trocariam de lugar comigo só para não terem de fletir as costas e ao mesmo tempo desfrutarem da sua agradável companhia.

Entrando numa lanchonete, mandei vir uma Brahma gelada para mim e um guaraná Antártida para ela, que o sorveu lentamente até à última gota, como se da última garrafa que havia em stock no boteco aquela se tratasse e no caso de querer beber mais, tivéssemos de deslocar-nos um quarteirão a pé. Depois, paguei outra rodada porque sobravam amendoins de um pires que o empregado nos pôs à frente com um maço tão grande de guardanapos de papel que logo temi que, antes de sairmos, quisesse que deixássemos os copos limpos, o balcão e uns pratos sujos que estavam na mesa ao lado.

Quando reparei que nos rapazes, de braços caídos, tinham já pousado os caixotes de madeira do equipamento de som e repousavam o olhar na bunda das moças que passavam distraídas de minissaia, como se o seu propósito não fosse o de dar nas vistas e suscitar os mais variados comentários.

Ralhei com Gutierrez, que olhava para Lolobrígida com pena de não poder pagar-lhe um chope numa qualquer tasca de uma favela da S. Paulo, mas longe dali, num sítio de que nunca tivessem ouvido falar da nossa banda, só para não haver material pesado para descarregar e poderem ficar a tarde toda e a noite à conversa.

Os três do sexo masculino, éramos músicos desde os treze ou catorze anos. Gutierrez, o caçula, tinha aprendido a tocar violão com o pai, que colecionava discos de vinil de trinta de três rotações do Cartola e punha a tocar, desde antes de eu ter descoberto que era das colunas da vitrola na sala e não da guitarra dele que vinha o som do instrumento que se ouvia como pano de fundo quando passávamos na rua e eu ficava embasbacado a admirar.

Wagner de dezanove, era um baterista de mão-cheia, com o estilo de pegar nas baquetas e corte de cabelo iguais ao Ringo Star, que só por pertencer aos Beatles era um ídolo até para quem tocava guitarra como eu e cantava alto como se fosse um tenor e fizesse depender de as pessoas me ouvirem do fundo da sala em qualquer lugar onde fossemos, o facto de terem a certeza de que eu estava vivo.

Lolobrigída é que estava no grupo por favor a Wagner, que começou a levá-la aos nossos ensaios quando deixou de ter onde deixá-la, no dia em que a madrinha arranjou trabalho de acompanhante em viagem a empresários que mais do que uma vez por mês a faziam passar um fim-de-semana completo fora de casa. Era vistosa e com Larissa, formava na escola uma dupla menos famosa pelo tamanho da bunda do que pelo formato que se assemelhava a uma prateleira onde eu gostava de encostar pousar a mão.

Começara a tocar pandeireta enquanto esperava entretida que terminássemos de tocar, sentada numa das latas de quinze litros de tinta vazias, em que o meu pai guardava tantas porcas, anilhas, borrachas e parafusos que sobravam de desmontar e remontar os aparelhos elétricos que ele fingia reparar.

Não foi a pensar nele que por maioria de razão, os quatro votámos na escolha do nome “Os Engenhocas” para a banda, mas confesso que não assentava mal de todo a um conjunto de três rapazes coadjuvados em palco por uma bailarina sensual, no seio de quem o improviso valia tanto, como para Chopin quando compôs os célebres noturnos, foram úteis as claves de sol, notas graves e agudas que colocou na partitura a fim de ainda hoje poderem ser interpretados como há duzentos anos.

Para não julgarem que os repreendia sem razão e para lhes mostrar o que ficava por fazer se decidissem descansar, agachei-me e peguei num saco de lona de que seria necessário retirar todo o conteúdo para o poder mudar de sítio sem esforço. Devia conter tantas fichas, tomadas, cabos elétricos e extensões que se as ligasse umas às outras, dali até ao Rio de Janeiro podíamos levar eletricidade se a cidade estivesse às escuras. Olharam-me ambos espantados, como se os tivesse surpreendido verem-me debruçado sobre um problema, a tratar de resolvê-lo.

Mesmo sem ter discos gravados e não estarmos em representação de nenhuma editora, havíamos sido convidados depois do envio pelo correio de uma gravação, de um tema original numa cassete virgem, para a morada da TV Record em S. Paulo, em cujo edifício para termos vontade de entrar, bastava o propósito de querermos cumprir um sonho.

Estávamos em mil novecentos e sessenta e sete e na segunda edição, a do ano transato, do palco do teatro Record Consolação, saíra vencedor na condição de ex aequo, Chico Buarque com um tema que rapidamente popularizou, mas na deste ano, a competição era renhida, pois participavam nomes como os de Caetano Veloso, Roberto Carlos ou Gilberto Gil que haviam de tornar-se tão consagrados que bem podiam vir a constar no elenco de onde saíssem os elementos do júri de uma das próximas edições.

A nossa canção era uma balada composta por Wagner, com a qual em três minutinhos fazíamos a apologia do amor eterno. A letra fora composta em parceria com a irmã, nascida da estrofe recentemente merecedora de uma menção honrosa nas páginas interiores de um periódico, com pouca saída, promotor do oitavo concurso de poetas amadores do Rio de Janeiro onde fôramos reis por um dia. Mas também escrevia às vezes as letras.

Quando tinha doze anos, convencera-me de que os meus versos eram, em resultado de tudo o que já escrevera, o que mais me aproximava da lírica de Camões, no sentido em que nenhum dos meus amigos entendia tanto as minhas quadras, como os sonetos dele. E depois veio a minha mania de dizer que queria ser jornalista com direito a um espaço para comentário na televisão ou crítico musical para, da forma que achasse conveniente, entrar de borla nos concertos de bandas-revelação como a nossa e vir cá para fora a dizer coisas maravilhosas como as que eu gostaria que alguém escrevesse a nosso respeito após assistir à atuação dessa noite, de preferência connosco juntos numa foto em que Lolobrígida aparecesse de perfil para se lhe notar a bunda.

FIM

CONTINUA ?

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