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Rita, anda ver o verão! – Cap.1

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Rita despertou com uma bofetada de sol na cara que a fez sorrir.

Depois de meses, em que esteve submetida aos desígnios de um rigoroso Inverno, fez-lhe bem despertar de manhã, com a sensação de quem tinha hibernado e recordar os benefícios para a pele, que advêm de uma noite bem dormida.

Esquecera-se de correr a persiana e agora que eram nove horas, a luz solar inundava-lhe o quarto, lembrando-a de como era fantástico acordar bem-humorada ao efeito dos primeiros raios de sol da estação primaveril que principiava nesse dia.

Acordara de consciência tranquila, como se deitara na véspera, mas rapidamente sentiu-se aturdida pela certeza de que estava irremediavelmente atrasada para ir para as aulas. Vislumbrou as horas no relógio de pulso posto sobre a mesa-de-cabeceira e recordou que era segunda-feira, revendo a data de vinte e um de março, nas páginas do calendário com a imagem de um gato, que o pai tinha pendurado atrás da porta do quarto, onde um roupão de turco azul preso num cabide, esvoaçava sempre que pela maçaneta a puxava para trás com toda a força e passava por ele a correr.

Sem tempo para espreguiçar os membros como nos outros dias, sacudiu do corpo, sem hesitar, o lençol de algodão turquesa no qual dava tantas voltas que este se enrodilhava no tronco e nas pernas como se fosse uma espécie de manto e de seguida levantou-se, tão rapidamente quanto demorara a chegar, do cérebro aos membros inferiores, a ordem para se pôr imediatamente de pé.

Num ápice, Rita despiu a camisa de noite, que apresentava bordado, num tecido que imitava a seda, um monograma à altura do peito e enfiou pelas pernas e ancas acima o par de calças deslavadas de ganga que guardava esticadas aos pés da cama, mas ainda sem ter a certeza de que não estavam no avesso, ao mesmo tempo que com o olhar traçava já uma linha reta para medir a distância que dali a separava da porta por onde tinha pressa em esgueirar-se.

Acabando de apertar todos os botões, avançou na direção dela em passo de corrida, de ar satisfeito por ir superando os obstáculos com que se ia deparando, como se fossem o que a separava de terminar uma prova com êxito e no fim receber uma medalha, para finalmente lançar mão à chave pendurada na porta e destrancá-la, como se quisesse, ao sol que vinha da rua educadamente dar-lhe os bons-dias, juntar uma lufada de ar fresco, que sabia, no entanto, não ser tão agradável como a brisa que sentiria na pele se, em vez dela, tivesse ido abrir a janela, que dava para uma praceta onde havia um jardim com árvores centenárias.

Com habilidade, desviou-se da almofada que jazia no chão, como se no interior do quarto desarrumado se tivesse travado uma batalha de pijamas e saltou por cima da cama que ficou por fazer. Depois, enquanto com a mão direita acabava de ajeitar a blusa creme, que lhe abria no peito um decote com o formato de um coração, saiu, nem reparando no roupão de turco que caiu ao chão e que, se lhe se tivesse enredasse nos pés descalços, certamente provocaria uma queda aparatosa.

Ato contínuo, Rita empurrou com a ponta dos pés, um par de sapatos de salto pretos, colocados juntos sobre o tapete da entrada mas do lado de fora, perto de umas botas afiveladas de cano alto que lembrariam até ao mais incauto, o contorno fronteiriço de um país desenvolvido no contexto das economias europeias e calçou-os.

Para não perturbar o descanso dos vizinhos dos andares de baixo que tão cedo pudessem estar ainda a dormir, a jovem habituara-se a calçar-se somente quando estivesse próximo de ir para a rua. Não seria a primeira vez que, do alegado mau comportamento dela, os vizinhos se tinham vindo queixar aos pais, daí que, por causa do inconveniente causado pelo barulho, ela preferisse enfiar nos pés, enquanto acabava de se arranjar e circulava de um lado para o outro da casa, umas pantufas felpudas que não raras vezes se confundiam com o pelo da gata de raça siamesa que havia lá por casa, à qual tinham posto o nome pomposo de Cleópatra.

A bicha, que era portuguesa e vivia lá em casa desde os seis meses, costumava vir saudá-la de manhã, enroscando-se-lhe aos pés da cama ou esfregando-se afetuosamente nas pernas da jovem, à passagem dela do corredor para dentro da casa de banho. O péssimo hábito de, por diversas vezes, quase tê-la feito tropeçar, já valera ao pobre animal ter ouvido um sem número de impropérios, além de uma ou outra pisadela dada numa pata ou uma chinelada, aplicada com as costas do chinelo suavemente no lombo com o propósito de mantê-la afastada. Porém, mesmo um gesto dessa natureza requer algum tempo e para Rita, atrasada conforme estava, nesse dia não vinha nada a calhar.

(Continua na próxima semana)

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