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Rita, anda ver o verão – Cap.6

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Na passadeira mais próxima, Rita dispôs-se a atravessar a rua indo no sentido contrário ao de uma senhora muito elegante que caminhava entre dois meninos iguais. Nessa altura, bateu-lhe o pressentimento de que conhecia as duas crianças, mas a ela não. A distinta senhora, cuja idade devia rondar os quarenta anos, talvez fosse a mãe dos pequenos, que não admiraria serem gémeos, ma se pudesse gabar-se de ser parecida com ela, não lhe ficaria mal sê-lo também da linda rapariga que Rita viu afastar-se numa direção contrária porque nada tinha a ver com eles.

Quanto aos rapazes, aparentavam ter cada qual dez anos, embora se comportassem como se tivessem menos de metade dessa idade, porque faziam, puxando cada qual a mão dela para si, uma birra tão grande que não encheria de orgulho a tal rapariga se fosse irmã deles.

Para não destoarem também na forma de vestir, a suposta mãe vestira-os e calçara-os de igual, como se não bastasse tê-los feito idênticos na aparência e ambos aparentarem um nervosismo que teriam herdado do pai, já que, por si, ela demonstrava uma extrema serenidade a lidar com a situação, indiciando que devia ser uma pessoa serena e de personalidade oposta à deles.

No meio deles, usava toda a força de braços que podia para mantê-los afastados um do outro, ciente de que a raiva de ambos era tão grande naquele momento, que nem a voz autoritária do marido, se de repente surgisse, bastaria para impedi-los de se esbofetearem e pontapearam se lhes deixassem o caminho livre à sua frente.

Um sinal de nascença no rosto do mais sisudo, era a marca que, a uma desconhecida como Rita, permitia distingui-los com uma pequena margem de erro, mas à mulher não foi preciso olhá-la para saber de que lado estavam e repreender ambos pelo nome, em mais uma tentativa vã de chamá-los à razão.

Ao fixar, com atenção aos detalhes, a criança que caminhava à direita da mãe, chamemos-lhe assim, naquele instante Rita não imaginou melhor propósito para as botas ortopédicas que o menino calçava, do que pregar um valente chuto no rabo do irmão rebelde, que arrastava a senhora para o seu lado, quase forçando-a a cair. Além da evidência física de parecenças ao nível da espessura das sobrancelhas e do formato do maxilar, nenhuma outra circunstância apontava para que a senhora fosse efetivamente a mãe de ambos, mas, não fosse ela tão nova e dir-se-ia que era a avó, pela maneira como, quer um quer outro, lhe desobedeciam, habituados a que mesmo portando-se mal, ela não deixaria de atender-lhes os caprichos e fazer-lhes as vontades, por mais bizarras.

Ao recordar-se das partidas que, com a mesma idade, ela e as irmãs pregavam à avó materna, Rita concluiu que esse era um defeito comum a todos os irmãos, o de tantas vezes se darem mal para mais tarde e numa grande prova de afeto, fazerem enternecidamente as pazes.

Lá em casa, ficaram famosos os raspanetes que, independentemente de serem ou não justos e originarem situações de amuo, a mãe lhes pregava, sem direito a contra-argumentação, explicações de qualquer género ou respostas com que pretendessem justificar os puxões de cabelo, os estragos e os rasgões que provocavam nas roupas umas das outras. Só feitas as pazes e assinado um armistício tripartido, é que as manas voltavam a brincar, como se nunca tivessem guerreado, deixando a mãe respirar, pensando que, até voltar a haver necessidade de intervir como mediadora de conflitos para a paz, elas eram exatamente iguais às filhas que qualquer mãe desejaria ter. A reconciliação das filhas era um momento tão apreciado pela mãe, que decidia recompensá-las com carinho, mas daquela espécie rara entre os seres-humanos que, numa relação familiar, só é possível existir de pais para filhos.

Ao evoca-lo, ainda não alcançara a berma da estrada do lado contrário e já Rita se arrependera com todas as forças, quer das dores de cabeça que causou aos pais, quer da maioria das partidas que pregou às irmãs e sentiu-se reconfortada ao transportar para o presente essa certeza de que, se sempre os irmãos acabam por se dar bem, no caso daqueles dois que passavam, com vontade de se pontapearem, o desfecho não seria diferente e, mais tarde ou mais cedo, a birra que faziam teria efetivamente um final feliz.

A melhor forma para descrever a emoção que Rita sentia, seria exprimi-la numa palavra que descrevesse estados de alma tão antagónicos como os que a dominavam sempre que gostaria de ficar mais tempo deitada na cama e ao mesmo tempo de se levantar para ir de janelas abertas de par-em-par, cumprimentar o sol. Ou quando o desejo de se apressar para ir às aulas era grande, e para isso aumentava a cadência dos seus passo, mas ao mesmo tempo pretendia refreá-los desejando atrasar-se para poder em paz apreciar as montras das lojas por onde passava, ricamente decoradas ou simplesmente a face de quem passava por ela alheio às suas reflexões.

À força de tanto se esforçar e de não conseguir encontrar a palavra certa, Rita começava a pensar que talvez ela não existisse no vocabulário de ninguém, por uma de duas razões: basicamente porque ainda nenhum linguista a tinha inventado ou porque gazia tanto tempo que ninguém se sentia tão bem como ela, que simplesmente tinha caído em desuso ou no esquecimento da tradição oral dos povos.

Dali em diante, o caminho traçado rumo ao objetivo que era a escola, percorria-se maioritariamente num plano inclinado, que era a subir. Surpreendida por não se ter cansado tanto como previa, Rita encetou um andamento adequado a uma prova de marcha numa competição olímpica e sentia-se animicamente em alta por ver que dispunha ainda de tamanho fôlego, já tão perto da reta da meta. Era uma rapariga de compleição física frágil, não possuía o porte físico de uma atleta de alta competição, mas em compensação, tinha o mesmíssimo grau de determinação e ninguém conseguia demovê-la quando se dispunha a alcançar uma marca. E a daquela manhã, era chegar tão rapidamente quanto possível à escola que, certos dias contrafeita, frequentava.

Ao cimo da avenida lisboeta agraciada com o nome do único Papa português da história e, ao fundo do lado direito, com o edifício de vinte andares do hotel de um dono indiano à vista, a jovem formulou um desejo. Nem que fosse por uma noite, para servir de exemplo, gostaria de ocupar com a família uma das maiores suites que lá houvesse, de cujo terraço haveria de contemplar os principais pontos turísticos da cidade iluminados como estrelas. A área do quarto seria tão grande que, fazendo com que ela se perdesse, tornaria impossível à gata siamesa Cleópatra encontrá-la, enquanto dormisse numa cama larga cujo único inconveniente seria o de a mãe pretender deitá-la com as duas irmãs ao mesmo tempo, a fim de poupar no número de camas e, consequentemente, no preço da diária que tivessem de pagar.

Como era romântica, imaginou que os hóspedes do hotel seriam pessoas oriundas dos quatro cantos do planeta. Da América do Norte viriam homens de negócios carregados de dólares extraídos dos campos petrolíferos do Texas. Do continente a sul, chegariam bailarinas que haviam sido destaques do último desfile de Carnaval no Brasil e que iniciavam em Lisboa uma tournée europeia. Da Europa, casais de meia-idade que, por ausência dos filhos que tinham ganho asas, viajavam juntos para não perceberem que tinham sido abandonados por eles e da Ásia, gentis cavalheiros e aventureiros que regressavam a casa com as malas intactas das ilusões provenientes dos seus  países de origem.

(Continua na próxima semana)

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