Últimas Crónicas

Rita, anda ver o verão! – Cap.7

loading...

A curta distância daquele local e a ecoar como o anúncio de uma campanha bombástica na televisão, o pregão solitário de um cauteleiro anunciava aos transeuntes, que não paravam a ouvi-lo, a solução para todos os seus problemas financeiros pelo mero preço da fração de um bilhete de lotaria.

Rita pousou nele um olhar misericordioso. Vislumbravam-se-lhe no rosto os traços de um homem que sucumbira ao tempo, embora devesse ter sido bonito numa época em que bonito era um homem não cobrir os membros de tatuagens e saber impor-se pela força das palavras, ao invés de, como em muitos casos, usar as palavras para justificar a imposição da força. Trajava roupas andrajosas, como as de um mendigo a quem só era dada autorização para circular a pé nas avenidas novas, a fim de poder anunciar ao comprador do vigésimo premiado que acabava de ganhar dinheiro suficiente para se mudar de armas e bagagens para uma moradia com piscina no luxuoso bairro do Restelo.

Entretanto, nesse curto espaço de tempo o sol deixara de bater na cara de Rita. A sua ação devastadora nos rostos de pele sensível por ação dos raios ultravioleta, era agora estorvada pela deslocação das nuvens que surgiram a cobri-lo vindas do horizonte. A pouco e pouco, o céu que anteriormente era anil ficou toldado por um espesso manto, em que no entanto ninguém reparava, porque as pessoas continuaram de cabeça erguida olhando em frente, mantendo a boa disposição, que no caso de Rita só diminuíra ligeiramente ao passar na escada pelas vizinhas coscuvilheiras que fingiram não vê-la.

À parte uma ligeira comoção pela situação de penúria do homem, na expressão de Rita a perturbação não ganhou forma continuando ela a denotar uma grande tranquilidade. De outras vezes, ao menor indício de preocupação, notava-se-lhe logo um rubor que vinha colar-se às bochechas como uma estampa. Era o primeiro sinal da transformação que se operava nela e que passava por o nariz de pontinha fina, anteriormente a principal referência do rosto, começar a definhar, emergindo, em seu lugar, um par brilhante de olhos que mudavam de cor consoante a emoção que estivesse a sentir. Em pouco tempo começava a transpirar das mãos e das axilas, tal e qual como se, no pico do Verão e à hora de maior calor, viajassem no carro do pai, de Lisboa ao Algarve com o ar condicionado desligado e todas as janelas fechadas.

Não menos do que se naquele momento se deslocasse nele, com a cabeça de fora a alta velocidade, Rita sentia secarem-lhe as mucosas do nariz e da garganta por causa da onda de calor que, quando ia a caminho das férias, crescia à medida que aumentava o desejo de chegarem rapidamente ao destino, a fim de poder tomar um duche refrescante que pusesse termo aos afrontamentos e à ideia de que, a julgar pela dureza do caminho, pudesse afinal ser terrível o lugar para onde os pais a levavam.

Como o pai de Rita era contabilista de profissão, na condição de este ajudá-lo através de uma elaborada engenharia financeira a fugir ao pagamento de impostos à tesouraria da fazenda pública, o dono da farmácia mais perto de casa emprestava-lhes na última quinzena do mês de agosto, um pequeno apartamento no piso das águas furtadas de um prédio localizado em pleno centro histórico da vila algarvia de Armação de Pera, de onde desfrutavam de uma vista esplêndida.

Estava tão próximo do mar que, para onde quer que olhassem a partir de uma varanda debruçada sobre a praça onde se formava aos domingos um mercado, vindas das ruas adjacentes àquela só se viam pessoas seminuas, de chinelos enfiados no pé e toalha às costas a caminho da praia.

Na opinião de Rita, que adorava a novidade de sentir-se num ambiente diferente uma vez por ano, estes seres, embora de aspeto banal, que padeciam dos mesmos problemas, nada tinham em comum com as vulgares pessoas que se cruzavam consigo em Lisboa a caminho do trabalho. Na verdade, na cidade elas cumpriam um ritual diferente. Cumprimentavam-se falando baixinho, quase como se tivessem vergonha de serem reconhecidas e, quando seguiam juntas, mal falavam ou usavam uma voz sumida, como pessoas discretas que eram e diante umas das outras não queriam assumir o protagonismo.

Passavam tão absorvidas nos seus pensamentos, à procura de solução para os problemas que as apoquentavam, que Rita duvidava que reparassem no tom azul-turquesa do céu às primeiras horas da manhã ou no habitual deslocamento das nuvens para Este, interpondo-se entre o sol e os prédios, onde passava a incidir uma luz macilenta que dava a todos uma falsa aparência. Só Rita é que, a cada passo e atenta às novidades nos sítios por onde passava, absorvia de forma segura todas estas influências, sem apresentar qualquer indício de cansaço, mesmo quando arfava devido ao passo apressado que levava.

Nas costas de Rita, o latido grotesco de um cão, que podia ouvir-se à distância de uns seiscentos metros da Praça de Touros, fez-lhe soar um sinal de alarme no cérebro, desencadeando todos os mecanismos de defesa que estavam ao seu alcance. Num ápice, virou-se e apurou os cinco sentidos na direção de um enorme cachorro que caminhava calmamente direito a si na companhia do dono. Este, prendera-o a uma trela de cabedal, que encolhia ou esticava consoante quisesse travar-lhe os movimentos ou afastar-se do animal que, como aparentava ser pesado, quando estacava o passo e nenhum dos dois avançava, era necessário puxá-lo com força.

O dono era um rapaz que devia tratá-lo bem. Saltava à vista desarmada de quem parava a admirá-lo, que o canídeo, de porte altivo, tinha orgulho em pertencer-lhe. O pelo sedoso, que dava ares de ser escovado várias vezes ao dia, devia ser um reflexo do asseio do rapaz, um jovem bem afeiçoado que andaria pela idade de Rita mas com mais uns centímetros de altura do que ela, com um corte de cabelo mais curto mas o par de olhos da mesma cor. Era elegante e vestia-se a preceito, mas só usava roupas de marca com as etiquetas virada para fora, não fosse alguma rapariga que pudesse interessá-lo, não apreciar os dotes físicos que possuía e ser necessário seduzi-la por outros meios.

Se, quando passasse por ela, lhe atirasse um piropo, talvez a rapariga desviasse o olhar do animal, que olhando com mais atenção se percebia não ter um ar feroz, e se convencesse de que o maior perigo de um ataque poderia partir do dono.

Porém, era da criatura peluda, agora de olhos arregalados para um osso que acabara de desenterrar de um buraco aberto no passeio, que Rita tinha medo. Como se tivesse encarnado o espírito da gata siamesa que deixara em casa, olhava desconfiada para o animal que não era pelo porte que a mantinha assustada, mas pela forma como continuou a esgravatar a terra como se ainda andasse à procura de algum objeto que pudesse vir a desconfiar que ela tinha na sua posse.

Por causa de alguns sustos que apanhava com a dona, em oposição ao daquele cão, era eriçado o estado normal do pelo de Cleópatra quando andava por casa com receio de ser pisada, mas em contrapartida estranhariam tanto um como outro e na mesma proporção a aversão da jovem pelos animais domésticos.

Foi do pai de Rita, a ideia de pôr à gata de raça siamesa o nome de uma imperatriz, isto no dia em que apareceu com ela ao colo em casa, por ocasião de Renata ter completado o seu décimo segundo aniversário. Pela parte da irmã mais velha de Rita, ela chamar-se-ia Cleópatra Elisabete Stuart Sofia Juliana Beatriz Túdor Isabel Vitória de Sabá, reunindo num só os nomes de várias rainhas que tinham vivido de costas voltadas, e foi preciso a mãe de Rita intervir, face ao desentendimento causado, para inicialmente reduzir o número de apelidos para metade até ficar apenas um nome próprio. E se era para unir Cortes desavindas, justificou, ele devia ser ainda maior, porque de conflitos entre nobres não faltavam exemplos no decurso da história mundial e tantos reis como imperatrizes eram conhecidos em muito maior número.

A Escola de Ensino C+S chamada de Dona Filipa de Lencastre, situada no centro de um famoso bairro lisboeta, era um belíssimo exemplo de arte moderna aplicada à arquitetura na primeira metade do século vinte, construída numa época em que era tão importante como a beleza da fachada era a solidez das pedras que a sustinham. O edifício de dois pisos, tinha paredes sólidas como se tivesse sido erguido para suportar ainda o peso de uma torre de cinquenta andares e da planta original talvez só tivesse restado a fachada, com as paredes laterais a irem sendo modificadas à medida que ia sendo aumentada pensando em vir no futuro a albergar mais estudantes.

(Continua)

1 Comment

1 Comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Crónicas Mais Lidas

loading...
To Top