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Rosas, só no jardim.

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Quem ficar comigo saberá à partida que acordo sem vontade de falar. Que não prescindo de kiwis pela manhã para que o meu intestino funcione; que adoro café com leite e pão escuro com fiambre de frango.

Quem ficar comigo saberá que o Fusco dormirá sempre aos nossos pés, que nos prende o lençol de noite e nos obriga a aspirar o pêlo todos os dias…esforços que se fazem por amor.

Quem ficar saberá que um dia, a caminho de um jantar que pede saltos altos, se encontrarmos um animal abandonado, o jantar ficará para segundo plano até encontrarmos um veterinário e uma casa temporária (ou a nossa casa!)

Quem ficar não perderá tempo a discutir porque raio não fomos ao jantar, porque raio eu quero salvar o Mundo, porque raio sou assim…quem fica sabe com o que conta e aceita, mesmo que o nosso próprio umbigo grite por atenção, mesmo que o jantar que se perdeu fosse sensacional, mesmo que a gravata tivesse custado demasiados euros para não ser vista.

Quem ficar comigo saberá que em dias de folga não faço almoço, como o que me apetece e a possibilidade de comer gelados ao jantar é enorme, portanto…nada de queixumes, quem quiser que cozinhe.

Quem ficar sabe o quanto me deixo afectar por questões externas, o quanto sofro em silêncio pelos meus amigos, pelas pessoas, pela falta de carácter e de bons corações; sabe que quando adormeço triste, acordarei de olhos inchados e a precisar de um abraço em conchinha (não me venham com sexo matinal, a tristeza cura-se apenas com carinho).

Quem ficar comigo saberá que o leque familiar é curto e intenso, cheio de histórias impensáveis e tonto de tantas voltas que deu; família de loucos, mas também uns pelos outros.

Quem ficar vai perceber que o “gosto de ti” é trocado por um “trouxe-te aquelas maçãs que adoras”. Poucas palavras, muitos gestos.

Quem ficar comigo terá de aceitar que não confio em ninguém. Que não vivo com o dinheiro dos outros, que prefiro não ter nada, do que ter algo que não me preenche.

Entenderá que adoro flores no seu habitat natural, nunca em jarras.

Que prefiro andar na praia de Inverno, do que ficar numa piscina fechada em “4 paredes”. Entenderá que sou simples, mas que gosto de coisas boas, que luto pelas minorias mas também gosto de massagens no corpo feitas num spa.

Que odeio ir ao cabeleireiro, que tenho unhas quebradiças porque odeio limpar de luvas, que tenho celulite, assim como todas as mulheres que não abdicam de um pão com presunto e uma sangria à maneira e que tenho estrias porque fui uma adolescente que cresceu com “adubo”.

Que não vivo sem creme no corpo, que sou meia obcecada por pormenores parvos, que vejo mal sem óculos, que em época de TPM sou insuportável.

Quem ficar vai sentir a diferença brusca entre o coração de manteiga e o nariz altivo que resulta na perfeição quando alguém puxa dos galões. Odeio gente parva.

Quem ficar não se importa que o sem-abrigo coma na nossa mesa na esplanada, pois ele terá sem dúvida, conversas mais interessantes do que a nossa (pudéramos nós já ter vivido tanto…)

Quem ficar comigo vai ter de abraçar os meus, com tanto carinho como eu abraçarei os dele. Vai dar espaço, vai dar luta, com garra, com disputa…e sempre com a ideia presente de que ninguém é de ninguém e que estamos ali porque efectivamente nos escolhemos um ao outro.

Com todos os defeitos que o “pacote” inclui.

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