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A Teoria Final

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A Teoria do Caos, teoria que dá nome a esta crónica, não foi escolhida ao acaso, ou muito menos  atendendo a razões estéticas. Para melhor explicar os motivos que me levaram a assim nomear esta crónica, devo primeiro referir-me aos princípios fundamentais da mesma.

A Teoria do Caos é o estudo das chamadas dinâmicas não-lineares, dinâmicas essas nas quais eventos aparentemente aleatórios, são na realidade previsíveis através de simples equações determinísticas.

Assim, e ao contrário da utilização corrente da palavra, Caos remete para uma aparente falta de ordem num sistema que ainda assim obedece a leis e regras específicas. Esta Teoria tem como um dos seus principais pilares a ideia de que, independentemente do quão complexo um sistema possa ser, o mesmo está sujeito a uma ordem subjacente. Além disso, esta teoria afirma também que eventos ou sistemas relativamente pequenos ou simples podem causar comportamentos ou eventos muitíssimo complexos.

Existem muitos exemplos da aplicação prática desta Teoria, e apesar de a mesma ser corriqueiramente catalogada como imprecisa e baseada na aproximação, a verdade é que frequentemente confiamos nela para organizar as nossas vidas. A previsão meteorológica avançada diariamente nos telejornais de todo o mundo é feita precisamente com base nesta teoria. No entanto, a aplicação desta Teoria a outros campos de estudo é imediatamente desconsiderada,  muitas vezes sem qualquer real fundamentação.

Uma das imagens mais comuns do alcance desta mesma Teoria, é o quase cliché do bater de asas de uma borboleta na Nova Zelândia que causa um tornado em Portugal. Embora por um lado esta imagem possa ser um pouco enganadora, pois para que tal aconteça uma série de outras condições terão de estar reunidas, por outro lado a Filosofia agradece a esta imagem e à Teoria que a mesma ilustra, a imensidão de portas que se abrem.

Deste modo, e apresentando a minha rudimentar interpretação desta mesma Teoria, salta à vista a inconsistência e a incoerência de um mundo que nos faz crer que apesar de tudo podemos fazer a diferença, enquanto desacredita uma Teoria porque a mesma implica desordem. Ou seja, fica bem dizer que podemos ser o bater de asas da borboleta, mas ir um pouco mais longe e pensar que o pensamento Anarquista se refere a um novo tipo de ordem, a uma ordem natural, isso já é delirar. Vá se lá saber porquê.

Mas a inconsistência não se fica por aqui. Além da óbvia inexistência de um argumento filosófico por parte do grosso do meio académico para rebater a ideia Anarquista, também é muitas vezes esquecido que a maneira como as sociedades ocidentais se organizam actualmente tem igualmente espaço para o conceito do natural.

Hobbes, Locke, Rosseau ou Santo Agostinho, todos eles consideraram a existência de um Direito Natural, Direito esse que tem como projecto avaliar as opções humanas com o propósito de agir de modo razoável e bem, e que também ele encontra espaço no modelo do direito liberal contemporâneo.

Ora, já a ordem natural de que fala o Anarquismo, não parece ter direito ao mesmo debate, sendo de notar que a justificação do Status Quo para tal desconsideração assentam apenas nos aspectos negativos de uma transição de uma ordem imposta (e que tem demonstrado ser insuficiente) para a referida ordem natural. Não são referidos os benefícios que daí adviriam nem são considerados da mesma forma os aspectos negativos de uma ordem artificial que nos foi imposta e que, tal como tenho tentado demonstrar ao longo destas semanas, é absolutamente redutora e castradora do potencial humano.

A Teoria Final é portanto, a de que tudo o que venha de fora e questione o actual modelo de organização das sociedades terá sempre que provar não só o falhanço deste mesmo arquétipo, mas também demonstrar que não só as sociedades podem sobreviver no ideal Anarquista, mas também que podem prosperar no paradigma proposto.

Contudo, e apesar de os vários avanços nas ciências naturais com base na Teoria do Caos corroborarem de certa forma o ideário Anarquista, as fortes fundações do actual cânone apenas deixam espaço à mediática interpretação de que o bater de asas da borboleta representa a capacidade que cada indivíduo tem de fazer a diferença.Vamos a isso então.

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