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Um caso da vida real!

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Um caso da vida real!

No passado fim-de-semana, encontrei um amigo que, após uma ligeira observação ao semblante que exigia, não me roguei inibido a perguntar-lhe:

Eu: Zé, parece que tens um semblante carregado… O que se passa contigo? Alguma coisa em que eu possa ajudar?

Zé: Sim, achas bem, estou mesmo em baixo…

Eu: Queres falar sobre isso?

Zé: Aborrece-me lamentar-me e sobrecarregar os outros com os meus problemas, deixa lá!

Eu: Tu é que sabes, mas também sabes que se quiseres desabafar, podes fazê-lo comigo. Por vezes faz bem falar, mesmo que não resolvamos o nosso problema, pelo menos alivia-nos a alma.

Zé: Tens razão! Sabes que eu tenho uma micro-micro-empresa…

Eu: Sim.

Zé: Pois é! Mas o facto é que chego ao fim-de-semana com pouco mais de 20 euros na carteira, tenho pouco mais de 11 euros na conta da empresa, a minha mulher tem zero e o meu filho tem cerca de 15 euros na sua conta. – Eu fiquei apavorado, admirado e constrangido, mas o Zé continuou. – A empresa tem cerca de 800 euros para receber de empresas referentes a serviços prestados. Tem cerca de 1300 euros para receber do IEFP (Centro de Emprego) atrasados há dois meses e relativos a um projeto que terminou e do qual espero o encerramento de contas. A minha mulher deveria ter recebido o ordenado no dia 22 e até hoje (28), nada, o patrão só dá desculpas, não aparece e não se “chega à frente”. A empresa tem as contas todas pagas, incluindo impostos e segurança social. Esfolei-me para chegar ao final do mês e ter as contas acertadas com o meu único colaborador na empresa, que é um personagem trabalhador, aplicado, humilde, profissional competente e ajuda-me muito, por isso não merece que falhe com ele.

Eu: Percebo que estejas assim… Mas agora tens é que esforçar-te para recuperar o dinheiro que tens por fora, para que tudo volte ao normal…

Zé: Sim, tens razão, no entanto, na semana que vem tenho uma prestação para pagar, a renda da casa, tenho que colocar comida em casa e gasolina no carro, para que não tenha que parar de trabalhar e…

Eu: Entendo perfeitamente!

Zé: Até 2ª feira, tenho que utilizar estes vinte euros para arranjar alimentos para a família que, com mais alguma coisa que tenha em casa, consigamos não passar necessidades…

Eu: É duro… não sabia que estavas com tanta dificuldade… quando alguém tem uma empresa, por mais pequena que seja, pensamos sempre vivem bem e se vão safando, mas estou a ver que isso não é geral.

Zé: É verdade, amigo, é verdade! Faço questão de nada dever ao Estado, mas esse não é tão sério connosco como (alguns) de nós tentamos ser para com ele… A minha esperança é que tenho alguns serviços marcados para a próxima semana, serviços esses que conto receber de imediato e assim, conseguir colmatar estas faltas…

Eu: Ainda bem… mas, realmente…

Zé: Sabes, ter uma empresa é uma responsabilidade muito grande: à partida, temos de contar com despesas fixas que no meu caso serão: contabilidade, impostos, deslocações, compras de produtos e ferramentas para trabalhar, no meu caso um colaborador, a segurança social, telefones… depois arranjar dinheiro para a renda da casa, para água, luz, internet e televisão, gás, alimentação… com aquilo que conseguimos ganhar, nem sei como consigo em muitos meses sobreviver… Quando chega uma despesa inesperada… é uma aflição… muitas vezes utilizo o cartão de crédito e aí, aumenta a prestação mensal que tenho de pagar ao banco… é uma aflição!!!

Eu: A quem o dizes!

Zé: É para tu veres e sentires porque não há mais pessoas a tentarem negócios próprios neste país e preferem emigrar… desistir… ir à procura de um segundo trabalho… depois deixamos de dar assistência em casa, de acompanhar os filhos, de lhes dar atenção, de lhes dar o que necessitam e, também eles se desmotivam, sem que tenhamos armas para combater mais esse problema.

Eu: Bem, sabes que, se eu pudesse fazer alguma coisa, o faria… mas de que vale oferecer-te a minha ajuda material, se também não ta posso dar?

Zé: Não estou com esta conversa para te pedir ajuda, apenas para desabafar, como me sugeriste e isso eu já te agradeço com grande sentimento de apreço e amizade.

Eu: Não tens nada que agradecer, sabes que “os amigos são mesmo para isso” e eu estou cá, sempre que precises.

Zé: Vou dar a volta, vais ver!

Eu: Claro que vais, é só um pouquinho de mais paciência e tudo se resolverá!

Zé: Isso, tudo se resolverá!

Na realidade, quando olhamos para alguém que pensamos pertencer à chamada “classe média”, não avaliemos à priori as aparências, porque por detrás de uma família que se apresenta bem, podem existir grandes dificuldades e dramas… Como disse Cristo: «Não julgueis, para não serdes julgados; pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e, com a medida com que medirdes, assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão, e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: ‘Deixa-me tirar o argueiro da tua vista’, tendo tu uma trave na tua? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e, então, verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão.» Mateus 7, 1-5.

 

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