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Uma acidentada ida ao Ikea…

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Gostando-se ou não, a verdade é que hoje em dia assim que se precisa de comprar algum tipo de acessório para a casa, o primeiro pensamento recai logo em «ir ao Ikea»! E porquê? Porque no incrível mundo do Ikea, pode-se encontrar tudo o que precisamos. Ou então nem por isso, e de facto ir ao Ikea tornou-se, simplesmente, uma moda — será que as pessoas vivem na ilusão que, pelo facto de o Ikea ser uma marca sueca, que os seus funcionários são todos suecos? É que se assim for, isso era realmente um chamariz para o pessoal largar a Fashion TV, e passar as tardes a fingir que observava móveis, quando na verdade só lá colocava os pés para ver as suecas… O que eram tardes bem passadas, diga-se de passagem…

Bom, mas concentremo-nos nas suecas, ah… perdão!, numa situação que se passou com a minha pessoa, e que achei por bem partilhar com os milhares de leitores que seguem esta maravilhosa crónica denominada de «Vida de Cão». (Sim, milhares de leitores. Os micróbios também têm direito a ler uma crónica, ou não? E essa é a razão porque o autor desta crónica só toma banho uma ou duas vezes por mês: para ter mais leitores, pá…)

Na passada terça-feira, acordei de manhã com um mau-feitio do camandro — não por causa do cheiro de não tomar banho há vários dias… — por ter dormido muito mal nessa noite. Se bem me recordo, acho que teve a ver com um pesadelo em que era perseguido pela Ana Malhoa a cantar ao meu ouvido que estava toda «turbinada» e tal. Levantei-me da cama, e quando me preparava para ir à casa-de-banho, eis que recebo uma SMS da minha irmã, pedindo-me para ir com ela ao Ikea. Tinha começado a responder à SMS com um redondo NÃO!, quando ouço bater à porta. Resmungando pelo caminho até chegar à porta, assim que abro a porta, constatei que se tratava da pessoa a quem estava prestes a enviar um SMS com a palavra NÃO! escrita — era a minha irmã. Antes de eu dizer qualquer coisa, já ela irrompia pela casa, ordenando que me despachasse para ir ao Ikea com ela comprar um beliche para os putos. E é isto que a família faz. Usam os nossos pontos fracos para nos levar a fazer aquilo que querem, sem termos a possibilidade de contestarmos. Ela sabia que eu nunca iria negar algo que tivesse relacionado com os meus sobrinhos, então disparou logo a ordem antes que eu tivesse tempo de ripostar com algum tipo de argumento. Encolhi os ombros, e acatei a ordem sem proferir uma palavra que fosse, optando por soltar apenas um ligeiro e quase inaudível grunhido de velho resmungão.

Meia-hora depois, lá seguia eu no meu carro a caminho do Ikea de Loures, com a minha irmã e o meu sobrinho mais novo no banco de trás a sorrir de contentamento pelo simples facto de ir passear com o tio — a minha irmã instruíra bem o puto na arte de chantagear o tio. Da minha casa até ao Ikea de Loures é relativamente perto, e em vinte minutos já estávamos a estacionar o carro no parque de estacionamento. Dirigimo-nos então ao interior da loja, onde imediatamente entrámos numa espécie de labirinto. Que é simplesmente ao que se pode chamar à exposição de itens do Ikea — um labirinto, onde só falta alguém acenar com uma fatia de queijo para nos sentirmos uns autênticos ratinhos de laboratório. Andamos horas e horas, em curvas e mais curvas, repletas de inúmeras coisas que nos aguçam a vista, e nos fazem crescer a vontade de gastar um ordenado inteiro naquele dia — sim, porque tentar levar «emprestado» é um pouco absurdo, visto que nos encontramos numa espécie de labirinto interminável.

A dada altura, lá encontrámos a secção dos beliches, e todos respirámos de alívio — incluindo o meu sobrinho de dois anos. Depois de observarmos dois ou três beliches, lá encontrámos um que satisfazia todos os requisitos pré-estipulados pela minha irmã. Apontei o número de referência, a fila e a secção onde estariam as caixas que compunham o beliche, e apressei-me a dirigir-me para a secção do armazém. Sem antes enganar-me três ou quatro vezes, e dar por mim a regressar à secção dos beliches, enquanto via alguns produtos a insultar-me deliberadamente — chamando-me de BESTÅ, várias vezes. Finalmente conseguimos dar com a zona do armazém, e rapidamente encontrei a fila e a secção onde estariam as caixas que compunham o beliche. E eram enormes, por deus! Três enormes caixas de noventa por duzentos centímetros. Com algum custo, lá conseguimos colocar as malfadadas caixas em cima de um carrinho de compras e dirigimo-nos para as caixas, sem antes derrubar uma ou duas exposições de itens que se encontravam pelo caminho. Quase que é necessário fazer-se uma especialização para se conduzir em condições aqueles carrinhos de compras.

Depois de pagar, eis que faltava a dura tarefa de decidir como levar aquelas enormes caixas para casa. A primeira opção era contratar os serviços de uma empresa de transportes, mas é claro que a minha irmã optou pela pior opção — que foi a de pedir emprestado umas cintas para colocar no tejadilho do carro, para depois prender as caixas. As caixas tinham todo o aspecto de serem pesadas, mas mesmo assim alinhei na ideia da minha irmã, tentando assim que ela poupasse uns trocos em contratar uma empresa de transportes. Adquirimos as cintas, e lá fomos em direcção ao carro que nos aguardava pacientemente. A dada altura, pareceu-me que o carro tinha uma expressão assustada assim que nos viu a chegar com as pesadas e enormes caixas. Olhei para as caixas. Olhei para o tejadilho do carro. Olhei para as cintas. E pensei para com os meus botões: «Eh pá, ou muito me engano, ou o carro não vai aguentar com isto…» Mas tinha de pelo menos experimentar a ver no que dava. Então, peguei nas cintas e coloquei-as estrategicamente em cima do tejadilho a setenta centímetros de distância uma da outra, conforme indicava nas instruções. A seguir, constato que as cintas tinham de ser enchidas com ar, para formarem uma espécie de chouriço gigante. Desato a encher estoicamente a cinta da frente, quase a ficar roxo devido à falta de ar, quando constato que as pessoas que passavam por nós no estacionamento, riam-se em forma de gozo. Só depois constatei que, afinal, existia uma bomba manual para encher o raça das cintas no saco que das cintas, e que a minha irmã a estava a usar para encher a cinta de trás, sem dificuldade aparente e com uma enorme expressão de escárnio ostentada na face.

Em poucos minutos lá tínhamos dois chouriços gigantes no tejadilho do carro. Passo seguinte: colocar as enormes e pesadas caixas em cima dos chouriços. A primeira caixa foi a mais difícil, pois tratava-se da mais pesada e larga. A segunda foi relativamente mais fácil, e a última já a coloquei sozinho sem ajuda da minha irmã. Mas, assim que coloquei a última caixa no tejadilho, ouço um assustador «Bloooffffftt», que me deixou inquieto. Desato a verificar o tejadilho do carro, e constato que o tejadilho tinha dado de si com o excesso de peso, e formado um espécie de amolgadela gigante. Em pânico, retirei todas as caixas num ápice, parecendo que era o Popeye após comer uma lata de espinafres, ou o Hulk depois de alguém o ter irritado à brava. E assim que retirei a última caixa, ouvi um «Blaaaft», que era o tejadilho a voltar ao seu estado normal. Acho que ainda ouvi o carro soltar um suspiro de alívio, mas posso ter sido apenas eu a fazê-lo.

Acabámos por voltar a colocar todas as caixas em cima do carrinho de compras, regressar ao interior da loja e contratar os serviços de entrega de uma empresa de transportes. Quando voltámos ao carro, constatei que estava a suar que nem um porco a rodar num espeto, e que emanava um cheiro nauseabundo dos meus sovacos. Olhei para a minha irmã e para o meu sobrinho e proferi as seguintes palavras: «Agora, como paga por tudo o que me fizeram passar a mim e ao meu carro hoje, vão ter de fazer a viagem de regresso a casa com as janelas fechadas e a levarem com o cheiro a cavalo que emano dos meus sovacos!»

E foram os vinte minutos mais infernais da minha vida. Onde, por um lado, tinha o meu sobrinho a chorar enquanto gritava que o tio era mau, e por outro tinha um cheiro abominável a invadir-me as narinas. Ainda estou para saber como é que conseguimos chegar vivos a casa…

Isto é que é uma «Vida de Cão», hem…

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