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Vamos falar de eleições

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Tenho a certeza que por esta altura o caríssimo leitor já não pode ouvir falar do tema eleições. E é perfeitamente compreensível. Portugal parece assim mesmo. Metade da população preocupa-se em demasia com as eleições e principalmente clubismos partidários, enquanto a outra metade rala-se completamente para o assunto.

No entanto, as eleições do passado Domingo e as reacções às mesmas merecem ser revistas e comentadas.

Em primeiro lugar o seu a seu dono. BE e PAN são os grandes vencedores das eleições legislativas de Domingo. Toda a gente sabe que nenhum partido português perde as eleições. Nós somos assim mesmo, somos todos os maiores, até quando não somos. Mas mais uma vez é verdade que perderam. Perdeu a coligação Portugal à Frente, perdeu a maioria, foi categoricamente castigada pelos eleitores que não esqueceram os 4 anos que passaram. Perdeu o PS porque falhou redondamente na tentativa de reconquistar o poder em Portugal, quando na verdade os últimos 4 anos lhe deram as ferramentas mais do que necessárias para que o fizessem. Perdeu pessoalmente António Costa, um candidato que até recolhia a simpatia de várias pessoas e antes de se assumir como secretário geral do PS, tinha a sua popularidade em alta. Perdeu a CDU que deixa de ser a 3ª força política portuguesa (uma vez que o CDS não foi a votos sozinho).

Ganhou de forma clara o BE, um partido que conquistou a pulso votos dos portugueses, e desculpem a honestidade, mas até viu ser eleitos deputados que claramente não têm perfil para o ser. Ganhou claramente um PAN que conquista um lugar na AR. E quanto ao PAN eu gostaria de dizer que simpatizo com a causa, mais vai ser interessante ver as movimentações do deputado eleito pelo PAN na AR, e saber até que ponto consegue introduzir os animais no plano político português (pessoas será mais do mesmo, natureza já temos o Partido Ecologista os Verdes coligado na CDU). De certo, na minha opinião, não agradará aos votantes defensores da mesma causa, ver o PAN em movimentações políticas estratégicas, com bancadas de direita ou de esquerda, a ceder o voto ou “vender-se” por outra causa mais ou menos nobre.

Falta falar do bicho maior de todas as eleições do último ano – a abstenção. A abstenção continua em Portugal a atingir níveis muito elevados falem de preguiça, da questão do voto útil, ou até das pessoas que pensam que um voto não faz a diferença. Quem não vota em Portugal?
– Não vota quem não concorda com o sistema político em Portugal (existem e dentro da nossa democracia temos de aceitar).
– Não vota quem efectivamente tem preguiça e não perde 5 minutos de um Domingo para cumprir um dever cívico.
– Não vota quem já não acredita nos políticos portugueses (centremos geograficamente).
– Não vota quem acha que um voto não faz a diferença.
– Não vota quem já viu as sondagens, e por isso já sabe quem vai ganhar sem tirar o rabo do sofá.

Do outro lado da barricada temos as mais acesas vozes contra a abstenção. Os partidos mais pequenos, e os seus defensores, que de alguma forma acreditam que os números da abstenção contribuiriam para eleger deputados de partidos mais pequenos. Na minha opinião pessoal isso não iria acontecer… mas quem sou eu.

Por fim e porque em pleno século XXI é necessário falar disto, temos as redes sociais. E de algum modo instaurou-se que as redes sociais são indicadores demográficos que indicam estatísticas e verdades absolutas. Alguém já olhou bem para o seu mural do Facebook? Arrisco dizer que mais de metade do nosso mural no Facebook é composto por fogueiras de vaidade. Publica-se porque se foi comer a um dos melhores restaurantes da cidade, porque certa noite decidimos melhorar o aspecto do nosso prato, porque fomos à discoteca X e compramos o gadget I. Nesta fogueira das vaidades fica bem dizer mal, mas o voto continua a ser secreto. Fica bem dizer mal, mas na hora de votar (quem vai) é mais sério e torna-se um acto que exigiu uma reflexão fora da fogueira das vaidades.

E neste ponto chegamos a um novo assunto. O que mais falhou nestas eleições foi o passar a mensagem clara. Os portugueses estão fartos de FMI mas não é de agora. Quem tem hoje 40 anos lembra-se que o período de vacas gordas em Portugal durou muito menos tempo do que os anos em que fortemente apertamos o cinto. E mais uma vez na minha opinião, é nos dias de hoje mais desconfiado, e já não vai tanto em facilitismos na hora de escolher um partido para nos governar. Um voto não pode ser o equivalente a apoiar o nosso clube. Mas o que vemos é pior ainda, porque toda a gente tem a capacidade nem que seja uma vez na vida em reconhecer que o nosso clube jogou mal, ou fez uma época de merda, mas raros são os militantes adeptos que têm a capacidade de reconhecer que o seu partido jogou mal, ou que teve uma legislatura de merda. Eu acredito que fora os votantes militantes (e é neles que são encontradas diferenças) começa a haver uma desconfiança, mesmo quando as projecções são boas.

Por fim, e mais uma vez vou falar das redes sociais, os contrariados. Há uma coisa que me irrita demais, considerar o povo votante burro, analfabeto, acéfalo, entre outras enormidades que tive oportunidade de ler nas redes sociais. Pior ainda quando vejo que muitos destes comentários vêm de gente que defende os ideais de Abril. Mas então já não é o povo que mais ordena? Já não estamos a falar em respeitar a vontade do povo, estamos a enxovalhar e insultar a vontade de um povo. Mas nestas coisas já se sabe, está provavelmente ainda no nosso instinto animal quando somos contrariados e perdemos argumentos, o mais fácil é questionar a inteligência do suposto adversário.

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