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À minha neta

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     Antes de começar, e a pedido de algumas “famílias”, alerto que pode emocionar alguns (como vês C.A., não me esqueci).

     Há cerca de um mês e meio partilhei com o leitor uma carta de amor que escrevi ao meu querido avô em 2009. Convido-o a (re) lê-la aqui. Como tinha indicado, esta carta deu origem a outra carta de resposta que guardo com amor dentro do livro que o meu avô escreveu sobre as suas memórias.

Hoje, de coração reposto, venho aqui partilhá-la com o querido leitor.

25-8-09

Sofia

Ao acabar de ler a tua carta não deixei de ficar emocionado.

Tu traduzes nela o sentimento do que sempre sentiste por mim: o apreço de quem se ofereceu com gosto a ajudar quem precisou e tu, mais que ninguém, sempre só, vivendo recordações, um pouco já embora queridas do teu Pai que era uma excelente pessoa, inteligente mas com algumas fraquezas de todo o ser humano.

Sempre senti em ti uma seriedade contra a adversidade e daí sempre me ter preocupado com o teu destino. Destino que sabes traduzir no que é necessário à vida que se projecta.

Em toda a minha vida, assente na independência, procedi de forma a tomar conhecimento do ser possível apaziguar os prós e os contras que a sociedade oferece, a quem nela quer viver.

É desta forma que uma pessoa não se deixa guiar pelos acasos mas por objectivos a concretizar.

Para isso sempre contarás comigo e não te preocupes; o que faço e fiz durante a minha já longa vida é sempre esquecido:

Ser justo é retribuir o dom de viver em paz

Ainda que, por vezes, a paz coabite com as preocupações, não são estas que alteram o que será justo.

Procura, pela vida fora, viver em paz, é o que mais te desejo.

Um beijo do teu avô

Gustavo

     Vi o meu avô partir um pé e recuperar-se como se recuperaria um jovem de 20 anos. Vi-o sofrer um acidente de carro e voltar a conduzir passada uma semana. Vi o meu avô sobreviver a três anestesias gerais no espaço de um ano, com mais de 80 anos. Vi-o sobreviver a um cancro, sendo a pessoa mais velha a ser operada no IPO; o último a chegar ao IPO e o primeiro a voltar para casa na noite de Santo António para comer sardinhas. Vi o meu avô perder as cordas vocais e a reaprender a falar, abraçando sem medo a sua nova realidade. Vi-o sobreviver sempre com tranquilidade. Vi-o em coma induzido causado por uma pneumonia com 95 anos. Ouvi os médicos pedirem que nos preparássemos porque provavelmente não acordaria. Acordou, recuperou, regressou a casa. Celebrou os seus 96 anos, celebrou os meus 32 anos a 13 de Maio.

     A minha tatuagem tem um significado muito especial. No último mês da sua já longa vida, nos cuidados paliativos, esteve sempre acompanhado pelos filhos, netos e irmã que tanto o amavam. Todos tivemos possibilidade de nos despedirmos. Numa dessas tardes, já fragilizado, engasgou-se depois de beber um pouco de água. Tossiu, tossiu muito. Quando se sentiu mais aliviado, suspirou e disse “Preciso de Férias”. Todos rimos… o sentido de humor e a leveza com que levava a vida ainda se mantinha. Tinha de tatuar na pele aquele momento…é com a letra dele que tenho cravadas na pele, aquelas palavras… “Preciso de férias. Um beijo do teu avô, Gustavo”

     Para mim, aquele “preciso de férias” foi um “está na minha hora”. Não desistiu, nunca desistiu mas sabia que já tinha vivido o seu tempo, teve uma vida plena, estava na hora de descansar. Foi muito difícil ver um corpo querer descansar na mente de alguém que ama a vida se mantém lúcida e cheia de vontade. Partiu devagar, cada parte dele desligando uma a uma, lentamente. Numa noite, dormia descansada quando por súbito vejo o rosto dele na minha direção, chegando rápido com uma inspiração profunda, como quem entra em apneia. Acordei sobressaltada e agarrei o telefone. Esperei por um telefonema… nada aconteceu. Ao chegar ao hospital nesse dia, o médico confirmou que entrara em coma, dormia agora inconsciente, preparava-se para a sua viagem. Partiu em paz, no dia 13 de Junho, na noite de Santo António, não falharia de maneira alguma uma oportunidade de comer sardinhas, fosse onde fosse.

     Numa noite, pouco depois de partir, sonhei com ele. Estávamos os dois na sua sala de estar, onde cresci. Lá estava ele, lindo e com a sua voz recuperada. Dei-lhe um abraço apertado. Disse-me “Sabes, não foi fácil, mas tinha de decidir se queria continuar a ser pai ou se era hora de ser avô. E escolhi ser avô”. Foi assim que me disse que tinha chegado a sua hora, que tinha cumprido o seu papel. Para mim, não foi um sonho. Veio despedir-se de mim.

     Guardo dele as melhores recordações, os melhores ensinamentos. Mostrou-me que com serenidade e tranquilidade se vence tudo. Continua a seguir-me, em mim, tranquilizando e apaziguando as minhas preocupações, sempre sussurrando aos meus ouvidos que não importam as adversidades que se cruzem no meu caminho, pois sempre as vencerei.

Serei sempre a cachopa do avô mais jeitoso de Lisboa.

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