Últimas Crónicas

Amando sobre os jornais

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Dançámo-la até ao fim. Àquela canção de Chico Buarque a que não faltava, na letra, o lirismo necessário a que eu pensasse que tinha sido composta a pensar em mim.

À época em que esta história teve lugar, chamava-se Rafaela a minha virtuosa namorada de vinte e quatro anos, de aparência cuidada, a que ajudava ter sobrancelhas aparadas e loiras, como se as tivesse tingido o clarão do sol que permitia ver melhor que daquela cor tinham ficado mais bonitas.

Com a claridade solar a incidir-lhe obliquamente no rosto, no final de tarde do dia em que a conheci, jazia sobre o areal, enrolada numa enorme toalha de praia, que aberta parecia um lençol, em que caberia de pernas e braços esticados como se acabasse de se espreguiçar de ter acordado de um sonho. Rendi-me ao seu charme sem pensar nas consequências, em tão pouco tempo como um náufrago caído ao mar que não soubesse nadar, levaria a admitir que necessitava da ajuda de pelo menos uma boia para se manter à tona da água e não morrer afogado.

Passei a partir desse dia, a deitar-me ao seu lado, deixando-a discretamente tatear-me o corpo sem receio de poder descobrir alguma coisa de que não gostasse. Eu próprio era muito bonito e gozava de prestígio junto das mulheres, mesmo das mais bonitas, comos e fosse de mim que elas sussurravam às escondidas quando queriam provocar ciúmes umas às outras.

Percebi que dançava habitualmente e estava acostumada a fazer par com alguém, pela maneira como me enlaçou o pescoço ao trocarmos o primeiro de muitos beijos de língua enrolada como a fala de um bêbedo, e como o rádio da barraca ao lado estava ligado com o volume alto, deixei que a emoção associada ao encosto dos meus lábios nos dela ficasse intimamente ligada à música que estava a dar.

Numa gravação de estúdio feita nos anos em que, dos autores das canções populares brasileiras, dava vontade de conhecer o nome, foi ao som dela que me regenerei dos maus pensamentos e supus ter rejuvenescido quando pela primeira vez da boca dela ouvi dizer que me amava. Era quase como se, deixando-me embalar na maciez dos seus braços, bebesse na s palavras do poeta a inspiração que lhe terá faltado para escrever um soneto. Noutra ocasião, dançámo-la em minha casa e demos-lhe o final apoteótico das canções de amor com final feliz.

Dançámo-la, sentindo, um do outro, na zona do pescoço o bafo quente que lentamente ia-me embaciando as ideias. Com ela entre os braços, senti vir de encontro ao meu, o peito volumoso dela, coberto por uma blusa da espessura de um véu, de cuja tentação não me livraria, a menos que, de uma vez por todas, parasse de olhar fixamente para ele quando a apanhava distraída.

E se a letra da canção falava de um casal se amando sobre as parangonas dos jornais, com o anúncio de divórcios litigiosos em que uma das partes acabava cometendo um crime, logo imaginei que o próximo casal de que haveria de falar, seríamos nós. Da minha namorada, por ser muito bonita e, de mim, por formar com ela um par tão apaixonado, com juras de amor recíprocas, que jamais seria preciso um de nós ver-se na contingência de ter de amar pelos dois.

 

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