Últimas Crónicas

Ana Isabel

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Escrevo recordando um acontecimento de há uns meses. Reconheci-lhe a face, na berma da estrada asfaltada que liga junto à costa, Torre del Mar a Rincón de La Victoria, Granada, a aplaudir de pé a passagem dos ciclistas que cumpriam a etapa doze da Volta a Espanha em bicicleta do ano transato, que haveria de terminar da mesma forma que eu consegui encerrar um ciclo que, para mim, estava aberto desde há mais de dezoito anos no dia em que a conheci.

Continuava esbelta, como se anunciasse pela manhã, a quem a vê passar, a chegada da primavera. O cabelo castanho muito brilhante e sedoso, como nunca a vira penteá-lo à minha frente, exibindo-o em todo o seu esplendor como se fosse nela aquilo em que eu mais gostaria de ter agarrado. E pelo ar realizado de mulher à beira de completar quarenta anos, dir-se-ia que soubera conciliar muito bem a experiência de ter sido mãe de duas ou três crianças, com o pleno exercício de uma profissão que, numa sociedade machista, outrora apenas coubera aos homens desempenhar.

Recordo-me vagamente de ela ter falado em querer ser advogada ou veterinária ou médica ou cantora ou outra coisa, mas que em comum com um desses cursos, tivesse a possibilidade de ser agraciada com o sorriso das pessoas cuja vida ajudara a melhorar.

Li-lhe no rosto, a secreta esperança de que no grupo dos ciclistas perseguidores ao que seguia isolado na dianteira, surgisse algum atleta de quem gostasse tanto que, apesar do calor, por ele fosse capaz de cumprir em cima do selim, os pouco mais de noventa quilómetros da etapa que ainda faltava cumprir.

Chama-se Ana Isabel e se da última vez em que a vi estava sentada na minha frente, a almoçar no casamento de uma amiga para eu quem não parava de olhar ao principio por ser extremamente parecida com ela, desta feita estava de pé, plantada como um sinal na beira do caminho, ao qual nós quando o percorremos, de carro a ou pé, não conseguimos ficar indiferentes. Imagino que tenha casado, mas mesmo que tenha alargado um pouco nas ancas, continua a ser a imagem perfeita de uma mulher de quem nunca pensei que viesse a gostar tanto, como de uma música dos Beatles mesmo apresentada numa versão diferente cantada por outro artista, sem no entanto lhe faltar nada do encanto da gravação original.

Ana sempre me seduziu, como a um homem a quem a esposa trata por querido, mesmo no dia em que distraído se esqueceu de levar para casa umas flores e festejar a data do seu aniversário. Tem a pele morena, porque de cima dela nunca deve sair o sol, a iluminá-la como a um planeta em redor do qual orbitam as estrelas. Os olhos próximo do castanho, escuros, do tom em que gostaria de ter jantado com ela, à luz de velas, lá em casa, para no final lhe dizer meio a brincar, meio a sério, que estava perdidamente apaixonado. A boca, do formato de uma concha em que bebia toda a água do mar sem me aperceber que era salgada e é alta o quanto baste para à distância poder ver-me sorrir, cada vez mais à medida que se aproximava.

Resulta de tê-la mirado pelas imagens da televisão, ter novamente pensado no que seria a minha vida se, há dezoito anos, me tivesse declarado com a intenção de mantê-la mais perto de mim, do que a vi na imagem do pequeno ecrã de vinte e duas polegadas que não distava do sofá onde sempre à noite me sentava, mais do que uns míseros três ou quatro metros.

Refleti, se teria ido com ela ou tê-la-ia deixado no terminal do aeroporto à espera de ver-me chegar quando saísse do emprego, arrastando a mala que, por causa do peso, me oferecera para levar.

Por causa de alguma rixa antiga, a deixasse plantada o tempo suficiente para pensar que a tinha trocado pela amiga, que entretanto se tinha divorciado, apesar de em relação a ela ter a desvantagem de ser mais baixa. E quando nos reencontrássemos, da forma como tinha conseguido afastar-lhe da cabeça a lembrança de um antigo namorado, cobri-la-ia de beijos e sem pestanejar dir-lhe-ia que a amava, não como normalmente se ama alguém, mas como faz um homem para impressionar uma mulher, para que dele ela não se esqueça para o resto da vida.

Decidi encerrar naquele dia em que a revi, um ciclo da minha vida iniciado quase duas décadas antes. Tinha agora a certeza de que não haveria de voltar a telefonar-me para desabafar dos problemas que tinha com o namorado à época. E nem me saltaria ao caminho, nalgum jardim por onde eu passeasse num final de tarde, saída do canteiro das flores mais bonitas que lá houvesse.

 

Nota final:

Aa fotografia é de 2 atores numa cena de uma novela gravada num dos locais mais luxuriantes do planeta: os jardins de Monet, em Paris.

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