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No dia em que fui o melhor jogador do torneio da vila de Rio Tinto – João Nogueira

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O mundo dá passos de gigante. Mas eu não vejo. Sou meio míope com a vida. Vejo-a mal ao perto. E ao longe.

Cresci sem dar por ela. Espreguicei-me e ganhei barba. Fiz amor. Fugi dos braços da minha mãe. Amei. Desamei. Voltei aos braços da minha mãe. Conversei com Deus, sem acreditar Nele. Fui guarda-redes. De futebol. Mas sobretudo da vida. Voei para a agarrar. Para não a deixar fugir. Para não a deixar escorrer pelos dedos. Voei como um pássaro. De asas abertas. À Cristo Redentor. Rasguei as nuvens em voos aflitos. Desenhei amor em cada pedacinho de céu. Quis tudo! Mesmo sabendo que o tudo vive ali. Ao pé do nada! Fui príncipe. Fui plebeu. Fui bom. Fui fraco. Fui tudo. Como todos.

Lembro-me de mil novecentos e noventa e três. De erguer uma taça. De melhor jogador do torneio da  vila de Rio Tinto. O dia em que percebi que não somos só um. Que somos a soma de todos os que gostamos. E de todos os que gostam de nós. Nesse dia tinha o cabelo muito curto. Os joelhos muito arranhados. Os olhos muito grandes. Pernas que tremiam. E que me sacudiam. Tinha um coração do tamanho do sorriso do meu pai. Que é o sítio mais alto do mundo.

A taça. Nas minhas mãos. Pequeninas. Com linhas que começavam a contar a história da tribo que sou. A taça. Nas minhas mãos. Dez dedos fininhos. Um para cada sonho. A taça. Que não era de campeão do mundo. Era mais. A taça. Que levantei com vergonha, com a cabeça para baixo. Palmas. De muita gente. E do meu pai. Que aplaudia com os olhos. Que eram um mar em maré vaza. Onde se podia andar nas rochas e nas pocinhas. À procura de peixes amarelos.

Nesse dia de mil novecentos e noventa e três, fui grande. Não pela taça, que até vinha com o preço por baixo. Quatro contos e duzentos!
Fui grande porque me cresceu um arrepio. Um tremor de terra. Que é o amor a romper o ventre. E a nascer.
Nesse dia, o menos importante foi a taça. Fui campeão do mundo. Fui Vítor Baía, de gel em cada fio de cabelo, a defender um povo de uma bomba de napalm. Fui muito grande nesse dia. Fui do tamanho do rio que corre na aldeia que somos. Eu e os meus.
Nesse dia, com o número um cosido nas costas de uma camisola cinzenta – ou roxa. Sou daltónico- percebi a sorte que tinha. Não pela taça de quatro contos e duzentos. Pelo sorriso do meu pai. Que é o sítio mais alto do mundo.

O mundo mudou, entretanto. Deu passos de gigante.

Já não há bolas com remendos na rua. Já não há golos quando a bola bate na garagem. Já não há calças de bombazine castanhas. Já não há camisolas que picam. Já não há fogueiras no S. João. Já não há gente a falar com gente. Eu já não sou o melhor jogador do torneio da vila de Rio Tinto. Que já não é vila. Tem metro, caramba!

Volto atrás. Ao tempo em que havia tempo. Em que havia gente a falar com gente. Olho para mim. Lamento o cabelo. Risco ao meio. Lamento as calças. Dez números acima do número. Mas não posso competir com aqueles olhos. Castanhos, como hoje. Pequenos, como hoje. Iguais. Mas diferentes.

Volto à frente. Onde estou hoje. Saio de mim para me ver do lado de fora. Lamento o cabelo na mesma. Vejo riscos na testa. E nos olhos. Contam a minha história. A mim. E aos outros. Vejo os exércitos de cowboys que me venceram. Os caminhos que não descobri. Os países que não fundei. As revoluções a que faltei.

Mas há mais.

Há a gente que descobri. E que conquistei. E há tratados de paz que construí. E feridas que sarei. E dias em que fui Capitão de Abril de mim mesmo. E deixei de ser órfão. De mim.

Sou feliz. Não da mesma forma que fui. Mas sou. É isso que vejo do lado de fora.

Vejo-me em Londres, com a Elsa, a comprar um guarda-chuva. O senhor que o vende diz que é o melhor guarda-chuva de Londres. Dura trinta e sete segundos. Damos o peito à chuva e ao vento. E seguimos. Encharcados. De cabelo assapado, a andar e a sonhar. Porque a viagem é sonho.

Vejo-me no Porto. A dar trinta cêntimos a um homem de setenta anos. Com a barba desfeita. De gravata encorrilhada. Que chora. Por ter de pedir. Cortaram-lhe isto e aquilo. E mais não sei o quê. A seguir, ainda a chorar, pede-me desculpa. Chama-me chefe e morro. Chamo-lhe amigo. Diz que foi pintor de automóveis. Que se chama Alberto e que mora na Corujeira. Diz que se algum dia eu precisar, ele retribui-me o favor. Por causa dos trinta cêntimos!
Às vezes, quem pede, dá.
Aceno-lhe. Digo-lhe adeus. Ele continua a chorar. Não há poesia quando há fome, caramba! Não há ópera no desespero!

E sigo.

Às vezes a rir. Outras nem por isso.

Mas sempre com um lugar na cabeça. Aquele sorriso do meu pai.

É o sítio mais alto do mundo.

JoãoNogueiraLogoCrónica de João Nogueira
Pés bem assentes na lua

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