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Dia Mundial da Criança – Estamos todos errados e ainda não demos conta

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Estou cansada de ser mãe. Sobretudo de ser mãe nos dias de hoje. Há dias assim. Questiono-me muitas vezes se, “no tempo” da minha mãe, a maternidade seria uma tarefa tão árdua. Serão as crianças de hoje que são demasiado estimuladas em todas as vertentes? Ou serão os pais da minha geração que, não estão preparados para as crianças desta geração? E como digerimos nós, pais, uma mudança gigantesca na educação e na sociedade em apenas vinte anos?

  • Depressão

Nunca houve tantos psicólogos, psiquiatras, clínicas de bem-estar, terapias alternativas, escritores gurus, sites, blogs, revistas, livros de aconselhamento, de ajuda, disto e daquilo, que ajudam na complexidade que é a maternidade, não falta informação ao dispor dos pais, no entanto, nunca se ouviu falar tanto em depressão pós-parto, em depressão materna, em aconselhamento matrimonial, etc. O que está a falhar? Tempo, tempo para nós, tempo para os nossos filhos, tempo para viver e respirar, tempo de qualidade. Honestidade, as mães falam mas não desabafam, ninguém quer admitir que está no seu limite e que um dia vai passar a linha e vai acontecer um desastre.

  • Competitividade

Infelizmente, nunca houve tanta disparidade social e tanta competitividade. Ensinamos os miúdos a serem os melhores da turma, os melhores em desporto, os melhores a tocar piano, os melhores a falar Inglês, esquecemos-nos de lhes perguntar se também são os melhores a explicar a felicidade…se um tem sapatilhas Adidas o outro tem de ter, se um tem a colecção de cromos do não sei das quantas, o nosso também tem de ter, se um tem telemóvel xpto o outro também tem de ter. E no meio de tanto que têm e de tanto que fazem, os miúdos perdem a sua personalidade tão apaixonante. Ficamos mais bem vistos perante a sociedade, os familiares, os amigos, até dos vizinhos, se o nosso  filho tiver boas notas e for um craque a futebol, como se os nossos filhos fossem alguma espécie de troféu para ser exibido, afinal se eles não gostarem da escola e forem mal comportados a culpa é das mães, certo? Às vezes tenho a sensação que estou num campo de batalha entre pais ricos e mães mal encaradas, cujo final eu conheço bem: não me encaixo de maneira nenhuma, façam de mim, mãe, o juízo de valor que bem entenderem.

  • Valorização

Os miúdos de hoje em dia têm tudo, tablet, telemóvel, playstation dois, três e quatro, nintendo, wii, têm cinco bolas de futebol, uma de cada clube, dez pares de sapatilhas, trinta jogos, bonecas que dizem mamã, bonecas que fazem chichi, peluches cintilantes, montes de brinquedos, centenas de euros gastos, os putos ficam entediados, não brincam com nada, dizem que não têm nada para fazer. Se perdem o telemóvel, não faz mal, a mãe compra outro no dia a seguir, se partem o tablet “no problem”, para o mês que vem já cá canta outro tablet ainda melhor que o primeiro. Se perderam a senha para o almoço na Escola, acontece, tadinho do menino, a mãe dá três euros e o “tadinho do menino” vai comprar uma coca-cola e um pacote de batatas fritas para o almoço. Os putos não querem ficar em casa, vamos passear, os miúdos não querem ir para a praia, os pais não vão, os miúdos querem ficar acordados até tarde agarrados ao whatsApp, sem problema, afinal só são crianças.

Os miúdos já escolhem o restaurante onde querem comer ( estamos a falar de crianças de quatro anos ), os putos escolhem o que querem comer, e ai da mãe que coloque no prato uma comida que eles não gostem, está o caldo entornado! Por isso é tão frequente ver mães a cozinharem dois e três pratos ao jantar, para poder agradar a todos ( para a minha quase inexistente paciência não dava ), por isso os miúdos não gostam de nada, não comem nada, e ainda fazem fitas. Não valorizam o que têm, o que comem e o que vestem, não valorizam principalmente os próprios pais, e o esforço que ambos fazem para garantir um prato de comida na mesa, não valorizam porque têm tudo, não lhes falta nada, está tudo ao seu dispor, sem qualquer esforço nem danos.

  • Preparação

Não estamos a criar miúdos desenrascados e responsáveis. Quando assisto a uma mãe a partir a carne aos bocadinhos à filha que tem 12 anos fico a pensar se não serei uma mãe demasiado exigente, uma vez que, o meu filho aquece a comida em casa sozinho…as crianças não podem andar de bicicleta porque caem e se aleijam, não podem andar com as mãos na terra porque ficam doentes, não podem brincar na rua porque podem ser raptados, não podem ver muita televisão porque faz mal ao cérebro, não podem, não devem, não fazem. O filho tem problemas na escola, lá vão os paizinhos tirar satisfações com a professora e a directora, porque o filho é um vidrinho de cheiro e na Escola só existe ele, os outros colegas só são crianças. Estamos a educar uma geração que terá obrigatoriamente de se desenrascar no futuro, crianças que muito provavelmente vão ter de emigrar, falar outras línguas, conhecer novas culturas, trabalhar em varias áreas e ter varias competências, mas não conseguem dar um espirro sem a mãe estar presente.

E assim, enquanto desejamos a todas as crianças um Feliz Dia mundial da Criança e, pensamos numa boa prenda para lhes dar, mais uma merda qualquer que eles só dão importância nos cinco minutos a seguir e, vamos preparar três tachadas de comidas diferentes porque no livro x o fulano disse que as leguminosas eram imprescindíveis na alimentação dos miúdos e, escondemos as lágrimas porque não queremos que as pessoas à nossa volta saibam que a nossa vida de mãe as vezes é uma merda e corre tudo mal, os miúdos embirram com uma palha no chão, a nota da Matemática declina para a negativa, nós achamos que algo não está bem com o “menino que tem tudo e que se acha no direito de fazer birras e tirar más notas”, levamos a criança ao psicólogo, este por sua vez faz o seu trabalho e medica a criança para a hiperatividade ( é a moda 2017 ), a mãe fica descansada, cumpriu o seu dever, o menino afinal tem problemas que se resolvem com medicação, o mau comportamento e falta de respeito pelos pais está justificada, quando na realidade devíamos dizer aos nossos filhos simplesmente: Ei, o mundo não gira à tua volta!

 

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