Últimas Crónicas

F de Fátima, Filipe e … F***-se que me enganei no caminho!!!

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Deram pelo erro ao quilómetro sessenta desde que saíram do Cercal em direção a Beja, onde por conta do furo simultâneo de dois pneus, quase tiveram de passar a noite na estrada, à espera de alguma alma bondosa que à boleia os levasse a pernoitar nalgum lugar onde pudessem refrescar-se num duche, da poeira acumulada da viagem.

Decorria há dois dias, a viagem de lua-de-mel de Fátima e Filipe, que no arrojo de viajar num carro a cair aos pedaços, resolveram deslocar-se da cidade do Porto, onde viviam e trabalhavam, ao Alentejo profundo, em busca da pacatez perdida, de que talvez só se lembrassem os nascidos nas primeiras décadas do século vinte, que era quando havia um reduzido número de carros na rua e, para não destoar da à velocidade a que circulavam, até o ritmo de vida das pessoas era menos acelerado.

Tinham-se concido no rescaldohe de um arraial popular, num tórrido mês de junho cujas temperaturas máximas igualaram os graus atingidos em agosto, quando na escala dos termómetros os valores registaram os valores mais altos de que havia memória. Mais tarde, frequentaram no mesmo ano o mesmo curso e, sem disso se aperceberem ao início, foram-se apaixonando cada vez mais até ele decidir oficializar a relação pedindo-a em casamento.

Presentemente trabalham no call centre de uma firma de telecomunicações e pode dizer-se que foi graças ao amor que mutuamente sentem, que acabaram por se fidelizar um ao outro, por um período de meses que se espera ser superior aos habituais vinte e quatro que fazem constar nos contratos dos clientes.

Uns meses antes de darem o nó, numa belíssima cerimónia a que nem a presença em direto dos quatro canais de televisão viria dar mais brilho, teve Fátima a ideia de começar a lembrar o noivo de que, para ainda mais abrilhantar aquele momento, estava na hora de ele abrir um pouco mais os cordões à bolsa e proporcionar-lhe uma lua-de-mel inesquecível, que passaria por ser uma viagem de sonho, que tanto podia ser à República Dominicana como às Maldivas e finda a qual, fixando o olhar no semblante feliz, ele acharia desnecessário perguntar-lhe o que mais poderia fazer com vista a agradar-lhe.

Inicialmente, Filipe mostrou-se encantado, mas esta rápida aceitação fazia parte de um plano maquiavélico dele para levá-la à última hora a desistir, abdicando de ir para um lugar distante de onde só através da Internet lhe chegariam notícias acerca dos portugueses e do que por cá se passava.

Fátima revelou todo o seu desagrado, perante o que ele tencionava fazer. Mal descobriu, discutiram e não resultou Filipe desculpar-se com a necessidade de contenção de custos, devido à crise desde que em Portugal, com o argumento da Troica, muitos portugueses passaram a integrar a sopa de pedra na sua dieta alimentar. Em último caso, Fátima ameaçou sacionná-lo, pondo fim ao trabalho extraordinário de mulher-a-dias, nos dias em que Filipe trazia amigos fans de outros clubes, para verem em sua companhia os jogos do Boavista que transmitiam na Sport Tv, deixando no final a sala suja e desarrumada.

Mediante cedências mútuas, lá se entenderam por fim e em troca de ela adiar a sua viagem de estreia de avião por mais um ano, ele prescindiu da ideia peregrina de montarem uma tenda do tamanho de uma cama de casal, num parque de campismo de tarifa económica, localizado tão longe do mar, que mesmo perguntando ao habitante mais antigo de uma aldeia próxima, ninguém saberia indicar um caminho que fosse lá dar.

Querendo agradar-lhe, para minimizar o estrago de terem discutido por um assunto sem importância, logo a seguir a terem casado Filipe levou a esposa a conhecer o Alentejo profundo. Há muito que Fátima manifestara o desejo de percorrer o país de carro, como se o marido a tivesse convencido de que visto mais de perto, à lupa, Portugal era mais bonito do que visto das alturas.

Largaram a cidade invicta e somente apanharam a autoestrada em Espinho. Até lá foram pela estrada nacional, com passagem por Miramar, desfrutando de som do rádio no máximo, da paisagem marítima que haveria de contrastar profundamente com a que, pelo final da tarde calma, encontrariam mais a sul. Saíram de madrugada, num cálido sábado, véspera de cumprirem o primeiro aniversário sobre o dia em que ele lhe ofereceu a aliança de noivado e a levou à loja onde haveria de mandar acertar as bainhas do vestido de noiva que pertencera à avó, o qual constituía uma autêntica relíquia.

Nessa altura, ela ficou tão excitada com a ideia de formar família, que se enfiaram à pressa num motel rodeado de mato à beira de um caminho secundário, em cujas paredes deviam ter gravado uma mensagem a proibi-los de sair, pois foi ali que durante dois dias comeram, beberam, dormiram e até conversaram sobre os melhoramentos que a dona do espaço deveria promover para, mesmo que não conseguisse atrair novos clientes, fazer com que tivessem vontade de voltar os que, como eles, já lá tinham ido uma vez para ver como era.

A Fátima teria agradado que houvesse mais flores espalhadas na cama e no chão, além de pelo menos uma jarra larga que pudesse conter as que lhe apetecesse ir lá fora colher. Já Filipe, teria mais agradado com um espelho de maior dimensão no teto, através do qual pudesse ver melhor a partir de cima, o corpo dela a esparramar-se no seu, para dessa forma aprender como deveria fazer quando chegasse a sua vez e tivessem de mudar de posição.

Não foi, dessa vez, a pensar no que fariam quando estivessem a sós lá dentro, que Filipe pediu ao dono de uma pensão no centro de Portalegre o favor de lhes mostrar por dentro o quarto onde passariam aquela primeira noite. Tinha bastante luz e agradou a Filipe. Era uma divisão espaçosa, como espaçosos deviam ser, pensou, os quartos de todos os habitantes daquela belíssima cidade. Talvez por isso é que pela cabeça de bastantes, nunca tivesse passado a ideia peregrina de trocarem o lar pela capital, onde as casas eram pequenas e mais caras. Além do que era importante para qualquer alentejano que se prezasse, ter uma vista desafogada quando fosse à janela, de forma a ter uma imagem do campo semelhante à das cercanias da sua aldeia, quando pela fresca da manhã ao cair da tarde, os homens munidos de um cajado, levavam os cães para apascentar as suas varas de porco preto.

Por ter sido a primeira noite de Fátima no Alentejo, houve lugar a comemoração, mas antes de mais por terem chegado sãos e salvos àquele lugar que era também ponto de passagem para Espanha. Mais de noventa por cento do trajeto percorrido, fora sob um sol escaldante e sujeitos a um calor lancinante. Inicialmente percorreram a beira-rio mas depressa passaram para estradas interiores, tendo passado por locais como Coimbra, Torres Novas e Nisa, com direito a paragem para um reconfortante almoço em Leiria, onde nem à sombra do castelo, por culpa de usar chapéu à cowboy, os desconhecidos achá-lo-iam parecido com um cavaleiro da época medieval que tinha vindo resgatar a noiva de casa dos pais, onde de resto ela já entrava e saía às horas que mais lhe convinha quando queria andar na paródia com as amigas.

Um dia e sem nada fazer prever, aconteceu o inesperado sob a forma estrondosa de um par de pneus que rebentaram e quase fizeram o casal ter de pernoitar ao relento na berma de uma estrada secundária sem movimento e onde Filipe meteu o carro por engano. Foi ao quarto dia e nessa altura Filipe conduzia distraído enquanto trocava de cd no autorradio que acabara de dar AC/DC. Dirigindo-se do Cercal a Beja, num cruzamento da N262 na zona das Ermidas do Sado, ao invés de virar deixou-se ir em frente prosseguindo na direção de um lugar chamado Azinheira dos Barros.

Não foi inteiramente sua a culpa de não ter reparado na placa que assinalava a mudança de direção, semitapada pelos ramos de um pinheiro que tinha escapado incólume à fúria arrasadora do incêndio de há quinze dias. Fátima cochilava de pescoço hirto como se fixasse o olhar perdido na linha do horizonte ou a tivesse importunado os comentários em jeito de crítica do marido ao péssimo hábito de fumar cigarrilhas dentro do carro com a janela do seu lado fechada.

O carro seguia veloz quando se escutaram dois estrondos em simultâneo que, devido ao susto, meteram Filipe em sentido, de pescoço esticado numa postura idêntica à da companheira, que prontamente acordou sobressaltada como se lhe faltasse o ar e já nem dentro de um descapotável, de cabelos ao vento, conseguisse respirar.

O volante da viatura oscilou, mas não o condutor. Com nervos de aço, Filipe não vacilou e teve arte e engenho para estacionar o veículo na berma da estrada, pronto para ser rebocado porque consigo só viajava um pneu sobresselente e nem esse alguma vez ele tinha sabido trocar. A agravar o estado da viatura, foi o pontapé que Filipe desferiu na porta quando verificou que o moderníssimo smartphone que sacou da algibeira não detetava sinal de rede da operadora, que se gabava de cobrir integralmente o país.

A ajuda só veio pelas duas da manhã, porque um condutor parou e foi auxiliá-los. Já Fátima novamente dormia e, se lhe perguntassem, achava que não valia a pena acordá-la. Sonhava que eram jovens e passavam a noite num carro, mas só porque não tinham dinheiro para entrar num motel e materializar o amor que por diversas vezes tinham feito em casa dos pais de ambos às escondidas.

Parabéns, Filipe.

 

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