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Festival da Canção 2017

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O meu tempo para ver televisão é muito curto mas consegui ver uma boa parte da primeira semifinal e a final. E, para mim, o “estalar do verniz” é quando, na primeira semifinal, o apresentador José Carlos Malato pergunta a um membro do jurí “Achas que alguma vez vamos ganhar a Eurovisão?”

Não me lembro a quem foi, mas quem e qual a resposta é irrelevante. A questão que se deve colocar é mesmo essa: seremos capazes de ganhar alguma vez?

Nós temos compositores e interpretes que valem mais que ouro. Valem duplas, triplas ou quádruplas platinas. Ou seja, não é uma questão de qualidade, porque isso nós temos de sobra. Mas será que as músicas que normalmente se apresentam a concurso são aquelas que normalmente são mais votadas na Eurovisão? E nem vamos aqui entrar na discussão se as votações da Eurovisão são única e exclusivamente pela qualidade das músicas, de seus interpretes e coreografias (muitos defendem que também à politica e diplomacia envolvida), porque daria debate para pelo menos 3 dias. Vamos colocar apenas o foco nas músicas, arranjos e coreografias que as acompanham.

Com a massificação da internet, é fácil ver no Youtube compilações de vencedores da Eurovisão. Podem ver uma compilação dos vencedores de 2000 até 2016 clicando aqui (se quiserem a compilação desde o inicio da Eurovisão, podem clicar aqui). Pelo video dos últimos 16 anos de Eurovisão poderão ver que a maioria das vezes a maioria dos votos caiu sobre músicas mais animadas, uptempo, muitas delas com coreografias e dançarinos a acompanhar e muitas vezes em inglês. Podemos dizer que o Festival da Eurovisão nos últimos anos está mais interessado em dançar ou pelo menos “bater o pézinho”, do que apreciar a música. E aqui faz sentido referir o termo que muitos adoptaram de música “festivaleira”. E, pegando na questão chave, tem Portugal enviado músicas “festivaleiras” à Eurovisão?

A resposta é sim, mas não nos últimos anos, segundo a minha opinião. E não me interpretem mal: nós enviamos músicas com muita qualidade, mas faltavam os restantes elementos que, vendo as vencedoras, faltavam para as tornar “festivaleiras”.
Ponderando o pós 2000, “Foi Magia” com Sofia Vitória em 2004 era bastante ritmada, com coreografia, mas nada comparada com a “Wild Dances” da ucraniana Ruslana que ganhou nesse ano. Em 2005 e 2006 com os 2B (Luciana Abreu e Rui Drumond) e as NonStop (respectivamente) introduzimos o inglês na letra e até a coreografia e a dança, mas levamos muito menos “música”. Em 2007 dizem muitos comentários na internet que a “super cute girl Sabrina” falhou a passagem à final por 3 pontos na sua semifinal, pelo que podemos dizer que deu nas vistas (com uma música que espelha bem que foi escrita pelo “pai do pimba” Emanuel, embora não fosse, na minha opinião, má de todo). Em 2008, Vânia Fernandes levou a música “Senhora do Mar”, a mais bem cotada música levada por Portugal à Eurovisão desde a de Lúcia Moniz em 1996, embora fosse mais uma balada. Flor-de-Lis em 2009 tinha qualidade, alegria e até instrumentos musicais próprios da música popular portuguesa (como o acordeão), mas imperceptível para a Eurovisão. Em 2010, levamos a balada “Há dias Assim” na voz da Filipa Azevedo, perdendo a possibilidade de ouro de levar a “Canta por mim”, dos mesmos compositores da “Senhora do Mar” (Andrej Babic e Carlos Coelho), interpretada pela Catarina Pereira, que para ter todos os “requisitos” de “festivaleira” só faltava ser em inglês. Em 2012 Andrej Babic e Carlos Coelho voltam a ganhar o Festival com Filipa Sousa, mas voltando as baladas.  Em 2014, Andrej Babic e Carlos Coelho enquanto compositores e Catarina Pereira enquanto interprete voltaram ao Festival e às músicas mais ritmadas com a “Mea Culpa”, preterida por uma música muito fraca, escrita por Emanuel (que dizem as más línguas, pagou bastante a alguém para votar massivamente na música, embora nunca se vá conseguir provar), na voz de Suzy (a Susana que, com os Anjos, canta a música de Natal “Nesta noite branca”, musica de que gosto bastante). Em 2015 foi uma música com ritmo, escrita por Miguel Gameiro (ex-Pólo Norte), a puxar para o pop rock (com melhores arranjos na versão em Viena do que em Lisboa), mas com uma Leonor Andrade estática em palco (bem como os backvocals) e com uma expressão e gestos estranhos. Os anos de que não falei  (desde 2000) ou não houve festival em Portugal ou são mais do mesmo (em comparação ao que disse das músicas dos outros anos, não tenho nada a acrescentar).

Este ano a música mais votada pelo público foi a “Nova Glória” (escrita por Nuno Gonçalves dos The Gift) cantada pelos Viva La Diva, mas o júri convidado pela RTP deu mais votos à música “Amar pelos dois” (escrita por Luísa Sobral e que ficou em segundo no voto do público) na voz de Salvador Sobral. Ambos os votos juntos e a vitória é da música cantada por Salvador Sobral. E aqui tenho de fazer uma declaração de interesses: eu sou fã da Luísa Sobral desde o albúm “The Cherry On My Cake”, especialmente o single “Not There Yet”. E, sendo assim, seria natural gostar desta música “Amar pelos dois”, porque é a “cara” da Luísa, é algo que ela escreveria para um álbum dela. E efetivamente gosto da música e acho-a um perfeito exemplo da grande qualidade musical que Portugal é capaz de produzir. Mas, em face de tudo o que disse atrás, posso considerá-la “festivaleira”? Óbvio que não.

Apesar disso, parece que os internautas estão a gostar muito da música. E o DN noticiava ontem que a música estava em 5º (de 43 músicas) nas apostas de quem vai ganhar o festival Eurovisão da Canção em Kiev este ano. Pode ser que seja este um ano de viragem e que a Eurovisão eleja uma música mais calma, como aconteceu em 2007 com a Servia e 2008 com a Rússia.

Quem sabe isso possa mesmo acontecer e tudo o que eu escrevi para cima passe a ser, citando Jorge Jesus, “peaners”. Força Portugal!

Crónica de João Cerveira
Este autor escreve em português, logo não adoptou o novo (des)acordo ortográfico de 1990

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