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Josep não vai a votos na Catalunha

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Em consequência da precária situação política na Catalunha, num belo dia quando chegou a casa, Josep fez as malas e veio morar sozinho para Lisboa.

O catalão de origem basca era um homem determinado e de profundas convicções, mas não concordava com os princípios gerais dos independentistas da região, que além da autonomia reivindicavam o direito de não colocarem na bandeira o símbolo da realeza, que prezava como se representasse a nobreza ausente do caráter de grande parte das pessoas.

Josep tinha sido um bem-sucedido comerciante de malas em napa a imitar pele, nas feiras ao ar livre dos arredores de Tarragona, e, num passado recente, a crise financeira que levara ao encerramento de Bancos, já o fizera há mais tempo ter desejado mudar para um negócio em que não dependesse nem, quando chovesse, da boa vontade de uns para saírem de casa e irem até lá fazer umas compras, nem, quando precisasse de dinheiro, da boa vontade dos outros para continuar a exercer a atividade.

Josep conhecia como a palma da mão, todas as terras e terriolas ao redor, por cuja passagem na Idade Média só cobraria impostos de passagem, algum alcaide sem escrúpulos que já nessa altura não vivesse senão de explorar os rendimentos do trabalho alheio.09

Nesta, como noutras cidades de Espanha, as feiras realizavam-se semanalmente, e entre algumas distavam tantos quilómetros, que para percorrê-los em menos tempo e sujeito a um menor cansaço, Josep teve de comprar uma furgoneta em segunda-mão, mas em bom estado, igual aos anúncios da televisão em que, de uma viatura comercial, o fabricante quer dar a impressão de que não só é segura, como pode transportar até ao seu destino muitos volumes da carga.

Conhecia como ninguém aquelas terras, por onde, de burro, Sancho Pança teria andado no rasto de D. Quixote vergado ao peso de arrastá-lo na busca incessante do amor.

Muitas vezes ele próprio teve de empurrá-la, empregando todas as forças para fazê-la deslocar-se carregada de caixas cheias de malas, como se estivesse atolada num lamaçal do qual não sairia enquanto não acabasse a época das chuvas.

Josep era alto, no entanto tido como um falso magro de quem não se podia dizer que aparentasse ser mais forte do que uma criança.

À falta de atributos físicos que o tornassem apetecível aos olhos das mulheres, distinguia-se por ser um sujeito de caráter, dotado de bracitos delgados e músculos atrofiados nas pernas, mas que o não impedia de ser resistente como uma árvore que suporta uma intempérie capaz de derrubar uma casa. A respeito da força de vontade, que o digam, alguns amigos que o idolatravam como se descendem dele todas as pessoas boa no mundo, nascidas até ao momento.

Foi a primeira vez em trinta e três anos que equacionou seriamente a possibilidade de regressar à aldeia basca onde viviam os pais, o dia em que ouviu falar do referendo para a região catalã voltar à independência, que remontava ao tempo em que, para fazer frente ao perigo que vinha do exterior, e que eram nesse momento os invasores muçulmanos, as populações escolhiam unir-se e não o contrário.

Preocupado em que das manifestações populares agendadas, viesse a ouvir falar nos noticiários de confrontos entre grupos organizados de civis e polícias que querendo mostrar que não lhes eram fiéis, tratou rapidamente de elaborar um plano de fuga, aos primeiros sinais de que por parte dos independentistas já não estava tão seguro como quando foi do mesmo lado da barricada que vibravam com as vitórias espanholas no mundial e europeu de futebol.

Este, escrito num rascunho de tamanho A4, em mais não consistia do que em ter separada uma muda de roupa nos armário das malas de viagem, tendo perto um envelope contendo dinheiro suficiente para, nem que fosse no mercado negro, adquirir um bilhete de comboio ou avião em classe económica, no caso de ter de viajar à pressa para Portugal. De resto, nem diferia grandemente do utilizado em França, há um ano durante o Europeu de futebol, quando se ausentou a correr da cidade onde jogava a seleção espanhola, ante o receio de uma ameaça real de bomba numa estação do Metro, que viria afinal a rebentar mais tarde, bem longe dali em Londres, causando inúmeros feridos.

Pelo sim, pelo não, adquiriu a rotina de, o mais não fosse, de olhar de relance diariamente os cabeçalhos dos jornais e aprendeu a ler nas entrelinhas a intenção de os articulistas chamarem à cidade condal a meca dos artistas de inspiração cristã que pela originalidade das formas jamais teriam obras em exposição no exclusivíssimo museu do Vaticano.

O assunto era querido aos analistas e politólogos que se dedicavam a estudá-lo. Através das televisões, era-lhes dado a conhecer explosiva vivida no território, que a deflagrar nos próximos dias ou semanas, mesmo à parte declarada vencedora, não deixaria de chamuscar fazendo com que ficasse mal na fotografia.

Josep gostava particularmente de um que falava com grande desenvoltura e aparecia de fato listado cinzento e cabelo cortado à maneira de quem gosta de comentar sobre os acontecimentos que presencia, mas de quem o vê, odeia que possam comentar que está muito mal-arranjado. Tinha sobrancelhas grossas que disfarçavam um olhar enviesado, como se acreditasse que aquilo que via, pudesse perspetivar de maneira diferente da maioria das restantes pessoas.

O catalão de origem basca, ouvia-o às segundas-feiras num espaço do final do noticiário das vinte, em que à conversa com outro convidado, em que se não dissertassem sobre temas políticos, podiam estar a falar de futebol, já que na defesa intransigente dos seus pontos de vista eram tão inflexíveis como dois presidentes de clubes rivais.

Foi aí que, aos poucos, se foi apercebendo da calamitosa situação em que deixaria o país, a saída da região autónoma da congregação de províncias espanholas, tornando-se no centésimo nonagésimo quarto país reconhecido pela Organização das Nações Unidas, ao centro de um mundo em que nem sempre são adotadas políticas em benefício dos povos.

A preocupação constante cedeu lugar à revolta e um dia entrou em casa tão frustrado que decidiu dar baixa do negócio e não mais vender malas de napa a imitar pele, a pessoas que arrogavam o direito de votar em referendo, mas não a trabalhar em dia de protesto assinalado como greve geral.

Fez as malas, trancou a porta e, sem se despedir sequer dos vizinhos, partiu. Definitivamente para uns. Na opinião de quem o conhecia bem, só até perceber que em todo o lado, independentemente do lado da fronteira em que nos encontremos, se passa o mesmo. Ou seja, que contrariamente ao nosso desejo, para nos impor a sua vontade, haverá sempre pessoas relativamente a quem, é melhor não arriscar e por isso, por mera precaução, o melhor será sempre dormir com o olho do cu virado para o outro lado.

 

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