Últimas Crónicas

Marta

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Levava-a esta noite a jantar fora, se pudesse, a um lugar de onde não viesse a lamentar ter passado ao seu lado, a maior parte do tempo a comer.

Marta era a médica ao lado de quem, eu não lamentaria ter contraído uma doença grave que me obrigasse a ficar acamado.

Naquele dia, no consultório, olhei para ela enquanto lia de pé no rosto de um paciente, a doença de que padecia e que era afinal o motivo de tê-la procurado. Tratava-se de um sujeito magro, com as mãos arroxeadas e o olhar suspenso nalguma palavra dela que, sem requerer tratamento, pudesse curar-lhe a enfermidade.

Em pouco tempo, ele devia ter chegado, como eu, à conclusão de que a doutora Marta era uma mulher extremamente bonita. Era elegante e usava rabo-de-cavalo, como o de uma amazona a quem nenhuma montada da mais nobre linhagem negaria o prazer de escovar-lhe o pelo.

Ainda bastante jovem, talvez recém-formada num curso que podia ser de Belas Artes, era dona de um olhar doce e de um nariz pequeno, de resto muito bem enquadrado num rosto onde não escasseavam os motivos de interesse. Os olhos eram azuis, em resultado de tantas vezes na infância ter contemplado o sol a nascer no firmamento, e a boca tinha o formato de uma concha em que no lugar da pérola tinham colocado um sorriso, de brinde para quem a apanhasse.

Assisti até ao fim à conversa de ambos, que terminou repentinamente como quando um dos interlocutores atinge o limite de compreender o que está a ser dito. Para explicar-lhe o meio de diagnóstico usado na deteção da doença ou a metodologia do tratamento prescrito, ela deve tê-lo confundido, empregando o nome científico do vírus causador da moléstia, que a julgar pelos sintomas não devia ser de menor gravidade do que se de repente alguém lhes invertesse os papéis e passasse a ser o doente a ditar-lhe o que ela, como médica, deveria fazer.

Quando finalmente o indivíduo de fraca compleição se foi embora, Marta sentou-se, de lado para mim numa posição em que podia facilmente imaginá-la de todos os ângulos possíveis e imaginários. Depois assentou num caderno aberto na secretária, alguma informação que de outro modo julgaria pouco relevante, por não achar que ela se importaria de poder ser esquecida.

Inteiramente vestida de branco, de ténis, calça imaculada e t-shirt, parecia-se com uma aluna finalista do curso de medicina dentária, numa consulta externa de ortodontia, da qual não queria que me dispensasse sem observar se noutras partes do corpo eu também precisava de ser tratado.

Com o objetivo de fixá-la na memória, fitei-a como a uma mulher no encalço de quem vamos, andando a pé, desejando que não se afaste muito de modo a perdê-la de vista. Reparei então que tinha o cabelo encrespado na zona onde do rabo-de-cavalo parecia sair um buquê de flores com o seu cheiro. De vez em quando gostava de apanhá-lo à mão e devia ser habitual ter a prendê-lo um elástico da cor com que gostaria de aparecer aos olhos dos utentes do Centro de Saúde vestida, caso não tivesse obrigatoriamente de trajar de branco.

Aproximando-me dela, na sua simplicidade dava a sensação de nalgum lugar ter deixado os artefactos que da sua beleza singela poderiam desviar-nos a atenção. Nas orelhas, simples pérolas projetavam a imagem de dois diamantes. E sem colares de valor, nem pulseiras de prata nos pulsos, só um anel evocava a opulência das formas, e que era agora de noivado, desde o dia em que o aceitara como pedido de casamento da mulher que amava.

 

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