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Querido, mudei de querido!

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Tenho uma amiga quarentona, seu nome é Bruna, boa como o milho, daquelas mulheres cuja presença marca, por onde passa deixa um rasto de desejo e curiosidade, uma autentica milf. Daniela divorciou-se há três meses, casada há 18 anos com o suposto homem da vida dela (odeio este pressuposto), dois filhos, dois cães e uma boa casa. Até aqui nada de especial, afinal há dezenas de divórcios a acontecer neste momento infelizmente, mas este caso em particular torna-se especial, não só porque sou amiga da Bruna, como ela fez questão de deixar uma carta ao marido, agora ex, no dia em que tomou a decisão de sair de casa. E é essa carta que eu vou retratar nesta crónica…

Querido, mudei de querido. Ao primeiro paragrafo talvez te custe a engolir a minha audácia, mas assim que começares a interiorizar cada palavra, talvez te apercebas que foi a decisão mais honesta das nossas vidas. Quando casamos eu era uma otária, 22 anos, virgem (burra é pouco), tudo no sitio, sem um tostão no bolso nem uma única viagem feita, não conhecia nada do raio do mundo. Achaste que tinhas ganho o troféu e ganhaste, eu é que me enganei, pensei que tinha casado com um príncipe e afinal és o Lorde Farquaad (personagem do filme Shrek). Nos primeiros dois anos a coisa a que chamamos casamento ainda foi andando, muitas kekas dadas por todos os cantos da casa, jantaradas em casa dos amigos, fins-de-semana fora, mobilar a nossa casa, sem horários nem grandes regras para cumprir, tudo era novo e desconhecido, a excitação estava sempre presente em cada momento. Como eu estava encantada contigo e não tinha tido nenhuma relação anterior para poder comparar à nossa, eu menosprezava as tuas pequenas ausências e falhas. Depois vieram os filhos e as obrigações sinistras. Se há dezoito anos atrás eu achava graça às cuecas espalhadas pelo chão, actualmente eu nem as posso ver à frente, nem às cuecas nem a ti! A tampa da sanita sempre aberta, o desodorizante sempre fora do sitio, o lavatório cheio de pasta dos dentes, as meias dispersas pelo quarto, a tigela dos cereais em cima da mesinha-de-cabeceira vários dias, foda-se…cansei. Ao fim de dezoito anos ainda me perguntas em que programa colocas a roupa para lavar, quando perguntas, porque por norma fica a merda da tua roupa toda num monte para eu lavar, passar e arrumar nas tuas gavetas, até me dá enjoo quando estou a dobrar as tuas meias, já não aguento mais porra. E cozinhar para ti? Nunca estás satisfeito com o que coloco no prato, se é peixe é porque tem espinhas, se é carne é porque está mal passada, olha, vai para o…pois, saladas não comes, sopa vai no batalha, cerveja e bagaço não pode faltar, eu fui obrigada a mudar radicalmente a minha alimentação por tua causa, estupor. Vieste mal habituado da tua mãe, esse foi o problema, ela não te ensinou a fazer porra nenhuma e tu porra nenhuma sabes fazer, o raio da sogra tinha medo que vergasses as costas a colocar pratos na mesa ou a levar o lixo, rais parta a sogra, rais parta o filho dela. E agora tu pensas: esta mulher quer o divorcio só por causa de umas meias mal dobradas, estará louca? Estou meu querido, estou louca para desandar daqui para fora. Não é as meias, é todo um conjunto de situações que originou o meu esgotamento. És bom profissional dizes tu, que me interessa isso porra? Ganhas 700 chegas a casa com 500! Nesta altura do campeonato até podias ser stripper ou chulo, desde que chegasses a casa com o guito todo. E em relação ao sexo não sei se rio ou se choro, lembras-te de quando estava a ter um orgasmo e chamei-te Pedro? Disse-te que estava a brincar e tu acreditaste, tanso, na verdade só consigo atingir o clímax se pensar em qualquer outro gajo menos em ti, estou farta de gemer a pensar no que vou fazer para o almoço no dia a seguir. A cada dia que passa tenho mais dificuldade em ficar lubrificada, tal é a monotonia na cama. Enganaram-me, disseram que os homens aos quarenta ficavam uma brasa no sexo, mas o único fogo que eu vejo é o do fogão. Uma keka uma vez por semana, ainda por cima sem vontade, quartas-feiras negras foda-se, que desperdício para o meu corpo. Eu sei que já me encornaste com a minha amiga Joana e com a tua colega de trabalho, a Maria, mas sabes que mais? Elas têm muito mau gosto. Eu é que devia ter ido para a cama com elas, pelo menos ficavam mais bem servidas. E não te iludas quando te escrevo a  dizer que mudei de querido, a verdade é que não vai ser apenas um, vão ser vários queridos, um por semana ou dois até, vou foder com o primeiro que aparecer, até rima tal é o romantismo desta frase, até com dois ou três ao mesmo tempo se me der na gana. E nem preciso de gostar dos tipos, nem sequer preciso de me sentir atraída por eles, nem sequer preciso de sentir tesão, vou porque me apetece e pronto, umas fodas sem compromisso, é olá, oh e chau, vou com um preto, um loiro, um moreno, até desdentados e chineses vão marchar, se aparecer no radar um muçulmano também marcha (até porque eles são uma bomba), vou ser a maior puta da rua, a melhor puta que alguma vez viste, vou tirar finalmente a barriga de misérias. Desconhecias esta minha faceta não é? Mas já não me interessa a tua opinião. Lembras-te quando dizias que eu estava gorda e flácida, quando olhavas com cara de cão para as outras mulheres, paspalho, fizeste-me sentir uma merda, mas a culpa é minha, sempre a querer agradar tudo e todos e acabei num trapo ao fim de dez anos de matrimonio, culpa também tua seu merdoso. Gabas-te que és um bom pai, só porque mudaste meia dúzia de fraldas e jogas playstation com eles (outra merda que não suporto em ti, jogares playsation até às quatro da madrugada e no dia a seguir levas os miúdos atrasados para a escola, irresponsável), mas eu nem vou falar na tua falta de qualidades como pai, porque sou capaz de te pôr a chorar e quando choras irritas-me tanto que só me apetece dar de frosques. E assim me despeço de ti, sem um abraço, sem um beijo, sem uma única lágrima, tinha muito mais para te dizer, mas já não me apetece, na verdade já não vale a pena. Espero, sinceramente, que aprendas que nada nem ninguém deve ser dado como adquirido, todos os dias o tempo e as pessoas têm de ser conquistadas. E aproveita agora, que és um homem  divorciado (a seguir aos casados, os divorciados são a preferência das mulheres), até porque, como disse Jonh Galbraith, não há época mais feliz na vida de um homem do que depois do seu primeiro divorcio. Da tua que já não o é, querida.

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