Últimas Crónicas

Rita, anda ver o verão! – Cap.13

loading...

O resto da manhã, foi melhor aproveitado por Rita, consigo a deambular entre as aulas e a sofreguidão dos intervalos que passavam depressa, mas de onde ela saia a voar com medo de novamente se atrasar.

Estava contente por poder passar a tarde inteirinha de papo para o ar ou a jogar na consola, quando chegasse a casa e não tivesse de sair a mando do pai, que nem estaria lá de plantão a cronometrar-lhe o tempo que devia também passar a estudar.

Ultimamente passava escasso tempo com a prima Viviane, mas não era para desfrutar da sua agradável companhia que Rita aguardava ansiosa o toque do fim das aulas. Se usasse relógio de pulso, ansiosa que o tempo passasse depressa, certamente olharia para ele com um desespero maior do que sentiu no dia em que deixou cair da janela, o Swatch de bracelete cor-de-rosa oferecido em reconhecimento a ter passado de ano, causando estragos tão graves que o vidro estilhaçado ao meio era apenas uma pequeníssima amostra do estado em que internamente ficou o mecanismo que o punha a funcionar.

A paixoneta de Rita por Silvino era antiga e, vendo-os juntos, aos amigos de ambos era impossível não supor que aquela amizade seria o prelúdio de um grande amor. O rapaz não escondia que admirava a presença dela e o estado de espírito alegre que nos momentos difíceis lhe aliviava a tensão como um bálsamo milagroso. Elogiava a ligação dela às pessoas que gozavam o lado bom da vida e nos momentos vividos com os amigos estavam presentes em regime de exclusividade.

Além do mais, adorava de perfil o nariz aquilino da rapariga, que se confundia com uma agulha. O contorno redondo dos lábios, de cuja boca saiam respostas que não visavam contornar o objeto das perguntas. O ser divino que ela representava e era capaz de inspirar nos outros uma maior devoção a Deus do que a leitura integral dos Evangelhos.

Rita estava consciente dos problemas de compreensão causados nos colegas, pelo facto de preferi-lo ao invés deles, a quem restava contentarem-se por só conseguirem ser melhores alunos do que Silvino. Como detestava interferências de qualquer género, achava ridículo ver comentados na praça pública os assuntos do foro privado de cada um. Por isso, não dava a mínima credibilidade aos boatos vindos de raparigas imaturas, que os lançavam porque acreditavam que a alegria por ela patenteada, contrariamente a ser natural, não passava de uma resposta lógica às suas provocações.

Mas a não compreensão de alguns acontecimentos passava também por ela. Não entendia lá muito bem, por que gostava assim tanto de Silvino se a personalidade de ambos era tão pouco parecida e encontrar, nos dois, gostos em comum, seria um desafio digno da imaginação de um experimentadíssimo criador de enredos policiais.

No exterior da escola, reinava uma paz tão evidente que, nem o regime de aguaceiros que se instalou à tarde, conseguira arredar da face das pessoas. Num arbusto das proximidades, um pequeno pardal gingão, respondia, alternando os movimentos de cabeça com sacudidelas da cauda, ao chamamento da fémea, enquanto na copa frondosa de uma árvore adulta, outros dois espécimes coloridos assinalavam com rituais de acasalamento o alegre encontro.

Na fachada de um prédio durante muitos anos devoluto e recentemente reconvertido na sede de uma multinacional, uma correnteza de janelas no último piso possibilitava que, a partir do interior, se tivesse uma perspetiva das diversas ruas que confluíam ao seu encontro. Nos seus sete pisos, deviam percorrê-lo nos andares cimeiros, indivíduos engravatados produzidos em série para ocupar cargos de chefia e com mais olhos que barriga se tencionavam pôr-se a par de tudo o que se passava dentro da empresa. Mais abaixo e à medida que nos aproximávamos da piso térreo, caminhando em direção à base, já só devia haver funcionários que apenas almejavam progredir na carreira para ganhar um melhor salário e não ter constantemente aqueles à perna. Descendo na hierarquia, na base atingíamos o rés-do-chão, e aí, no dizer de quem mandava, a classe dominante era a de uma gente nada diligente que se esforçava ao máximo por fazer o mínimo.

Embora parecesse muito confiante, Rita era mais tímida do que a maioria das amigas, que diante de si, se sentiam inibidas. Ao seu caráter excecional, que combinava a natureza austera da mãe com o estilo permissivo do pai, ela aliava uma naturalíssima propensão para criar problemas, cuja gravidade variava no sentido inverso ao resultado que obtinha quando tentava soluciona-los à pressa. E para que não a revelassem nervosa diante das pessoas com quem não se sentia à vontade, desviava o foco dos pequenos olhos de fundo cor de pérola para algum objeto que, mesmo de tom neutro ou tamanho reduzido, pudesse captar-lhe a atenção.

No caminho de regresso a casa, cabia a Rita fazer o caminho da manhã, mas tendo de efetuar uma curtíssima paragem para cumprir o desejo de a mãe ter todos os ingredientes necessários para o jantar. Despedindo-se de Silvino, não virava costas ao amigo, que ficou a vê-la afastar-se até perdê-la de vista esfumando-se na memória, que já não continha réstia do episódio ocorrido no anfiteatro.

No tempo que lhe restava, o rapaz deveria preparar-se convenientemente para, no dia seguinte, jogar a partida decisiva a contar para o torneio masculino de basquetebol, cujo vencedor era indigitado a participar numa competição a quatro com representantes de outras tantas escolas do distrito de Lisboa. Às vezes, era tão distraído que parecia mover-se na estratosfera ou numa camada ainda mais longínqua da atmosfera, mas nem assim ele se dava bem com as alturas, daí gostar mais de jogar numa zona afastada das tabelas. Ainda assim, foi designado para integrar a seleção da escola, que normalmente reunia além dos atletas mais altos, os mais aptos para disputar a modalidade.

No lote dos primeiros ele era o de maior destaque. Em campo, onde se esforçava por ganhar as bolas altas, granjeara a alcunha de Girafa, no perfil de cujo animal encaixava devido ao tamanho exagerado do pescoço, numa altura da prova em que os colegas teriam preferido ver nele razões para dar-lhe o epíteto de Pantera, sinal de que levava a melhor sobre os adversários por ser mais ágil e agressivo. Todavia, numa teoria de evolução das espécies inversa à preconizada por Darwin, de Girafa foi evoluindo para Preguiça e mais tarde para Tartaruga, à medida que os colegas de equipa se foram apercebendo dos principais defeitos e concluíram que era demasiado lento para levar de vencida qualquer duelo individual.

No plano físico, aos amigos que o deixavam caricaturá-los, no papel em branco Silvino propunha-se corrigir-lhes as imperfeições do rosto, tratando de escondê-las como os próprios fariam se estivesse ao seu alcance na vida real. Dotado de talento para desenhar e pintar, como se de um cirurgião plástico no papel se tratasse, Silvino ora tornava menos visíveis as maçãs do rosto a uns, ora encurtava o nariz a outros, mas havia quem simplesmente preferisse reduzir a envergadura das orelhas ou pedisse para cobrir a cabeça com um corte de cabelo que lhe desse pelos ombros. A todos ele tentava agradar e só aos que inicialmente torciam o nariz ele esboçava um sorriso que, no final, espantados com o talento exibido, os deixava de boca aberta.

(Continua)

Click to comment

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

loading...
To Top