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Rita, anda ver o verão! – Cap.23

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Rita era tão ciosa dos seus bens, particularmente do que vestia, que nunca as emprestava à irmã. Nas secções de vestuário das lojas, em primeiro lugar beliscava todas as peças de vestuário ao seu alcance só para ter a certeza de não estar a sonhar, embora não idealizasse lugar de sonho melhor do que aquele, nem outro onde lhe desse mais prazer acordar.

Conhecedora, de longa data, de todo o género de fibras naturais e sintéticas, distinguia a qualidade dos tecidos sem ser necessário reparar no que dizia a etiqueta.

Pela textura, apreciava os tecidos de algodão, tão delicados que causavam grande sensação de conforto na pele, assim como os sintéticos que se lhe colavam ao corpo e mal deixavam a pele respirar, mas deixava-se seduzir pela seda dos voluptuosos vestidos de noite que arrastavam para a idade adulta, uma adolescente praticamente mulher mas com sonhos de criança, que de bom grado aceitaria alternar o uso dessas vestes cobertas de lantejoulas, com uma prática t-shirt e calções de ganga nos dias em que quisesse sentir-se mais leve e andar mais à vontade.

Tinha um toque de caxemira, o tecido do pijama vermelho aos quadrados que se esqueceu de vestir, de cujos botões nunca apertava os de cima, com receio de que, se viesse a precisar de auxílio, ninguém que estivesse nas redondezas a ouvisse gritar aflita para poder socorrê-la da falta de ar. A peça favorita das tantas que guardava no roupeiro e adoraria ter sempre trancadas a sete chaves, era um blusão azul de ganga esgaçado na gola e nas mangas, que anteriormente pertencera à mãe.

Vinha engalanado à frente de emblemas cosidos à mão, com símbolos de capitais europeias onde ela e os pais nunca tinham estado. Num pregado à altura do peito, que representava a cidade de Roma, uma loba de proporções dantescas, em comparação com a representação do Arco de Tito, amamentava duas crianças que, apesar do seu ar assustador, na presença dela deviam sentir-se mais seguras do que no meio de uma multidão. Noutro, um menino despudorado urinava de pé, possivelmente à vista de um grupo de turistas na capital belga. Entre eles, num buraco com uns dois centímetros de diâmetro, caberia um remendo igual àqueles mas, em sua opinião, o que viesse a ser escolhido não deveria dizer tão pouco acerca do lugar que representasse, como a imagem da amizade improvável entre duas crianças italianas e um animal selvagem ou os hábitos pouco higiénicos dos meninos de rua em países civilizados da União Europeia como a Bélgica.

Outra peça de roupa que se destacava no guarda-roupa dela, era um casaco de três quartos, felpudo feito de lã, que fora comprado numa loja de artesanato a paredes-meias com outra de enchidos onde não era só de presunto que se falava quando se tratava de mencionar todas as partes comestíveis do porco. Mas além desses artigos, havia à venda lanifícios feitos a partir da lã proveniente dos rebanhos da região e queijos à base do leite resultante da ordenha das cabras e das ovelhas de que retiravam a lã para as roupas que só sabia bem vestir no inverno.

A loja situava-se à beira de uma estranha construção com uma cúpula a lembrar o módulo de uma estação lunar, que se erguia em altura e a que chamavam torre, como se fosse o que restava de um antigo castelo cercado por uma velha muralha, mandado há muitas décadas erigir por um rei e para se lá chegar tinha de se subir ao planalto do maciço central a uma altitude de quase dois mil metros. Assente numa superfície plana, o edifício que albergava meia dúzia de pequenas lojas era térreo e bem podia confundir-se com um albergue de esquiadores intrépidos que faziam fila para ali chegar. Os mais bem apetrechados de equipamento, viajavam nas suas carrinhas de sete lugares e acotovelavam-se para caber todo o equipamento básico para descerem em segurança uma pista de gelo. Carregavam nas bagageiras e nos tejadilhos, skis, bastões, luvas, fatos acolchoados e botas. Os iniciantes desta modalidade precisavam, além do equipamento, de muita sorte nas descidas ou, em alternativa, do apoio de um ombro amigo forte que os ajudasse depois a erguerem-se dos primeiros afundanços na neve. Ao princípio de terem lá ido, Rita tinha apenas sete anos e nada sabia a respeito da composição dos flocos de chuva congelada que caíam do céu, a não ser, por experiência própria, que era fria e gretava as mãos de quem neles se atrevesse a pegar sem luvas.

No interior da loja onde vendiam os artigos de comer, nos expositores ou pendurados sobre o balcão, os produtos regionais exalavam frescura. À porta, havia raparigas em vestes regionais a distribuir a quem passava, pedacinhos de queijo amanteigado e lascas de presunto, espetados em palitos que, às pessoas que os provavam, dava vontade de engolir como um anzol. Aqui, os produtos estavam arrumados por ordem crescente de importância. Recolhidos no interior da loja, estavam guardados os potes de mel e os enchidos que melhoravam de aspeto e de sabor à medida que, durante mais tempo, tivessem estado expostos ao fumeiro, enquanto mais perto da entrada e por isso mais ao alcance dos amigos do alheio, estava tudo aquilo de que os donos sentiriam menos falta em caso de roubo.

Com uma rodela fina de salpicão, deram a provar ao pai de Rita um trago de licor e não foi por efeito do álcool no sangue que ele, mal acreditando na existência de uma loja cuja única moeda de troca eram os sorrisos, considerou levar para casa toda a mercadoria que conseguisse carregar em sacos, sem pagar um único cêntimo. Na montra da loja ao lado, estavam afixados os preços da camisolas e casacos de lã, tão baixos que a única empregada risonha que lá estava devia ser a única a acreditar que não eram vulgares imitações fabricadas na China.

À saída, Rita assistiu a um rapaz, com o auxílio de uma pá, a fazer um boneco de neve do tamanho de um adulto. Fixou-o como se pudesse telecomandá-lo à distância, antes de terem estado à conversa com ele e os pais, e terem ficado a saber que era no mesmo hotel para onde iam, que também eles se deslocavam para ir dormir nessa noite. E pela maneira de falar, ficou logo patente que os progenitores tinham tanto orgulho no seu menino que, na tentativa de que nada lhe faltasse, se revessavam a cuidar dele, como se fossem operários de uma máquina em constante laboração.

Se outro motivo não houvesse para Rita ter prontamente gostado do rapaz, bastaria ver a perfeição com que ele executava os trabalhos que depois de feitos ela tanto admirava. No papel de um perfeito escultor de bonecos de neve, ele delicadamente punha de pé estátuas que até podiam ser belas, mas jamais rivalizariam em robustez com as dos grandes mestres que ela conhecia através dos livros, uma vez que de nenhuma delas se podia pensar que fosse capaz de sobreviver-lhe em vida, se nem sequer seria capaz de resistir aos primeiros raios de sol da manhã.

Um dia, um rapaz como ele, mas quando fossem mais velhos, haveria de atrever-se a agarrá-la pelos ombros e, mostrando-lhe que era inútil tentar soltar-se da força contida naquele abraço, haveria de conseguir beijá-la provocando-lhe uma tal desordem de emoções que haveria de afastá-la totalmente da realidade. Das mal sucedidas tentativas de se desprender, haveria a jovem de lhe ficar eternamente agradecida, pois se ele a soltasse esparramar-se-ia ao comprido sem forças no chão, nem ninguém por perto que a ajudassem a levantar. Assim como se toda a energia do seu corpo tivesse sido transferida para um órgão vital que, muito mais do que o coração, o qual batia descompassadamente mas dava sinais de vitalidade, precisava dela para viver.

Um dia, Rita e esse rapaz haveriam de namoriscar e, se as coisas corressem mal, no final de uma relação atribulada haveriam de ter uma conversa definitiva, dessas que felizmente não vêm como as cerejas aos pares porque deixam menos saudades do que o sabor amargo de um cacho de uvas maduras acabadas de apanhar. Só que o dia em que haveriam de se conhecer, estava ainda no firmamento de um horizonte tão longínquo como o de quando haveria ter uma legião de admiradores, desejosos de segui-la com fidelidade canina e de lhe arrastarem a asa como pavões, ansiosos por lhe substituírem a lembrança triste do primeiro namorado por um rosto mais simpático que lhe devolvesse a fé no verdadeiro amor.

No largo da Igreja matriz, o hotel de três estrelas “Arcada” no centro histórico da cidade da Covilhã era um belíssimo exemplo da coexistência amigável entre dois estilos arquitetónicos completamente distintos. Em perfeita harmonia, coabitavam uma fachada de linhas modernas com um interior decorado ao estilo convencional e nas traseiras havia uma área dedicada ao lazer, dominada por uma piscina de grande dimensão coberta para manter a água aquecida no Inverno. Na área circundante, havia um grande número de espreguiçadeiras que convidavam ao convívio ou ao simples relaxamento. No verão, é que a cobertura removível do telhado era retirada, e isso permitia às pessoas deitarem-se ao sol, aproveitando para manterem-se distantes das preocupações diárias, inclusivamente das relacionadas com os problemas que podem advir para a saúde da pele pela sua longa exposição aos raios ultravioleta.

Quando entraram no hotel onde ficaram hospedados duas noites, depararam-se com o balcão da receção de um belíssimo hotel de quatro estrelas, que devia possuir um moderno ginásio bem equipado, salão de beleza e até uma piscina profunda, da qual talvez Renata imaginasse que só conseguiria sair incólume nos braços de um nadador-salvador, tão bonito que faria qualquer galã das telenovelas brasileiras roer-se de inveja diante das câmaras.

No balcão da receção, uma rapariga simpática que falava fluentemente em três idiomas, atendia os hóspedes e, em troca da chave que entregavam ao sair, distribuía sorrisos que não apenas os homens da sua idade lamentavam que não fossem exclusivamente para si.

A um canto amontoados, havia um monte de cacos que uma equipa de arqueólogos tinha recuperado de escavações feitas nas imediações, as quais redundaram na descoberta de uma civilização anterior à romanização da península Ibérica. No entanto, nada convencida do seu valor, Rita achava que nem todos colados, numa reconstituição perfeita das peças originais, a fariam passar a gostar mais dos objetos de cerâmica antigos do que das peças de designe moderno que admirava nas prateleiras do Ikea. Nas paredes, havia tapeçarias em direção às quais, mesmo durante o dia, mantinham aceso um foco para que se vissem tão bem como às telas pintadas de cores vivas. No teto, dava nas vistas pendurado à entrada, um candelabro com pingentes a imitarem o cristal, que dava a sensação de poder manter-se eternamente aceso, refletindo o brilho no pavimento polido de tanto passarem nele uma máquina que libertava um detergente de secagem rápida que cheirava agradavelmente a pinho.

(Termina no próximo capítulo)

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