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Rita, anda ver o verão! – Cap.3

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Rita estava ensonada de se ter deitado tarde. Na superfície cromada da torradeira, à altura da prateleira em que esta se encontrava arrumada, releu a palavra cansada quando passou diante dela e olhou para ver senão refletia o seu verdadeiro estado de alma. Viu em lugar do desânimo de estar a dever uns minutos à cama, a expressão de desagrado da mãe quando a repreendia por se preparar para sair de casa sem sequer se pentear. De outras vezes, a mãe ralhava-lhe porque teimava em tomar banho com a água tão quente que dificilmente, alguém que entrasse na casa de banho, conseguiria enxergar, para lá da nuvem de vapor em que se encontrava mergulhada, a gaveta onde guardava a escova ou o espelho que estava pendurado por cima do lavatório, quanto mais o estado em que tinha o cabelo.

Pensando na expressão que acrescentaria à de desagrado, quando visse no estado em que tinha deixado a cozinha, Rita desviou o olhar na direção da porta da rua, pensando em pôr-se a andar dali para fora, antes que a irmã viesse ao seu encontro e pensasse que era por causa da sua aparição em pijama às bolinhas amarelas que ela tinha posto um ar assustado.

Lembrou-se do pedido da mãe para no regresso da escola passar no supermercado e comprar ingredientes para a sopa, mas tencionava chegar a casa antes dela, a tempo de limpar o pó do quarto e fazer a cama, que eram respetivamente a sétima e a oitava recomendação daquela lista que não terminava por ali. Olhando para as horas e antes que alguma coisa a fizesse mudar de ideias, uma vez que infelizmente era tarde para a mãe mudar as dela planeando uma refeição diferente para comerem à noite, Rita embrulhou num guardanapo de folha dupla uma peça de fruta que não perdeu tempo a lavar e com o ímpeto de um relâmpago, arrancou à velocidade da luz, não refletindo no impacto de ter batido a porta da rua com tamanha força que fez os vizinhos ficarem a pensar que o tinha feito de propósito.

Dentro do habitual, ao invés do elevador Rita preferiu descer pelas escadas, começando por galgar os degraus de dois em dois ou três em três, antes de abrandar a velocidade à passagem do piso onde vivia uma vizinha que lhe haviam afiançado feito parte do elenco fixo de uma das primeiras novelas da TVI. À sua passagem veloz, levantava-se uma brisa que era contudo insuficiente para arrefecer o ar aquecido pelo sol que penetrava através da claraboia do prédio e pelas janelas laterais viradas a nascente que, por estarem permanentemente fechadas, proporcionavam a formação do chamado efeito estufa, que favorecia o desenvolvimento das plantas de interior que cresciam nos canteiros espalhados nos patamares. Nuns, viam-se flores autênticas de cores garridas, que gravitavam em torno de plantas artificiais, como se fossem o adorno de beleza que lhes faltava. Noutros, a terra de cultivo havia sido substituída por rochas da praia pintadas da cor de pedras semipreciosas, numa deliciosa alegoria que servia para demonstrar a quem via que nem sempre as coisas são aquilo que parecem.

Embora a todas dedicasse o mesmo grau de atenção, era da floreira do piso da ex-actriz que Rita mais gostava. Apreciava, mais do que nos outros, a proporção gigantesca do canteiro, quando comparado com os minúsculos vasinhos de barro em que a mãe, na varanda, punha os catos ou manjericos de Santo António que proibia de cheirar diretamente sob pena de murcharem e perderem a vitalidade que lhes dava graça. E não a teria surpreendido se um dia em lugar das rosas de que a vizinha tão bem cuidava, tivesse encontrado cravos ou malmequeres, pois supunha que podiam as plantas, tanto como as pessoas, às vezes cansar-se do papel que representavam e decidir vestir a pele de um outra personagem, como faziam os atores no teatro ou nas telenovelas em que a vizinha tinha participado nos seus tempos áureos.

O gosto de trautear as canções da moda, valera a Rita a alcunha lá no bairro de Madalena Iglésias de trazer por casa, por causa de estarem na moda programas de revelação de talentos em que jovens apareciam a cantar, nalguns casos até melhor do que os ídolos em que se inspiravam. Porém, se vissem noutro canal os programas de televisão transmitidos ao domingo, talvez até as vizinhas, que da jovem desdenhavam sem vontade de comprar, não reconhecendo sequer as melodias que ela entoava, fossem forçadas a admitir que uma jovem tão bonita e com tão pouco talento, melhor do que num programa do género dos Ídolos ou The Voice Portugal, mais à vontade estaria numa futura edição da Casa dos Segredos, pois certamente apesar de ter um ar cândido, deveria andar a esconder de si e, sobretudo dos pais, algum segredo tenebroso.

À medida que descia, agarrada ao corrimão de madeira, os degraus da escada de mármore em direção à rua, Rita começava a distinguir o som dos automóveis em movimento, que se tornava, contudo, menos audível à medida que se aproximava do rés-do-chão. Bem diferente do ziguezaguear dos carros na rua, era o comportamento de duas mulheres que conversam imóveis no hall de entrada do prédio, como se tivessem tirado senha num balcão da Segurança Social e aguardassem pacientemente a sua vez para serem atendidas e darem conta dos seus problemas.

E de tal forma o tema da conversa entre ambas era interessante, que falavam alto como se quisessem dá-lo a conhecer, abafando os passos de qualquer pessoa que se aproximaria delas pelas costas sem se fazer notar. A voz aguda de soprano, pertencia à vizinha do sexto andar direito, que não dispensava ir de carro para todo o lado, embora a outra é que fosse obesa. Isto para utilizar o termo simpático com que a mãe variadíssimas vezes a corrigia, sempre que ela referindo-se ao peso exagerado e à desproporção das formas, lhe chamava gorda e apontava esse como o exemplo de uma mulher que, tendo feições bonitas, muito mais teria a ganhar do que a perder, se praticando regularmente exercício físico, perdesse uma mão-cheia de quilos, que se refletiriam na sua saúde, em geral e na aparência, em particular.

Sem tempo nem paciência para aturá-las, receando que metessem conversa e começassem a perguntar como estavam os pais e as irmãs, resolveu esgueirar-se passando à beira de ambas, que nem responderam ao cumprimento dela e continuaram a cavaquear como se fosse natural que, dando um exemplo de má educação, a jovem não lhes tivesse dirigido a palavra ou, àquela hora, ela ainda estivesse a dar voltas na cama para pegar no sono.

O segundo contacto de Rita com o sol nesse dia a incidir-lhe no rosto deu-se na rua e dessa experiência não guardou tão boas recordações como da primeira. Ocorreu no instante após ter-se cruzado com as vizinhas na escada, que só depois de ela passar desviaram o olhar para tomarem atenção à forma como ia vestida. O brilho do astro-rei refletido na superfície brilhante dos vidros de um autocarro que parou à sua frente, fê-la socorrer-se por instantes da palma da mão na testa a servir de pala, como nos bonés que os rapazes agora usavam mas virados ao contrário. Franzindo os radiosos olhos verdes que apontou para diante, fixou, em seguida, um ponto longínquo no horizonte formado pelo emaranhado de ruas que conseguia avistar a partir da porta do prédio, e tentou que este pudesse servir-lhe de referência até se costumar à claridade difusa que contrastava com a penumbra da escada de onde saíra. Finalmente conseguiu ordenar as ideias e pensou no caminho, a partir dali mais curto, que fosse dar à escola, tratando depois de pôr em prática o processo de percorre-lo o mais rapidamente possível.

A manhã, com o sol a projetar sombras oblíquas na calçada de pedra, anunciava-se tranquila, mas ninguém podia prever o frenesim que ia naquela alma.

(Continua na próxima semana)

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