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Sou Professor. Ainda bem!

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Sou professor. Não desde sempre. Porque há quem o seja desde sempre.

Quis ser muitas coisas. Ainda hoje quero.

Dentro de mim, onde a vida é como eu quero, já fui tudo. Quis ser guarda-redes. E em mim, no Maracanã que tenho nos olhos, cantaram cem mil almas. Ainda cantam. O mundo que se esconde atrás dos olhos de um Homem grande, nunca cresce. E aí ainda chamam pelo meu nome. E eu agradeço. Viro-me para a bancada, estico os braços e bato palmas. Depois levanto as golas. E faço uma defesa impossível. No último minuto. Sou meio pássaro meio Super-homem, abro as asas, voo por ali fora e sacudo a bola para longe. E ganhamos. Antes de cair, escuto tudo. Primeiro, o silêncio. A seguir, uma bomba de napalm a sair do peito dos que cantam por mim. Caio. Há caras de boca aberta e braços no ar. Correm muito. Até mim. A meta a que querem chegar. Mas vejo-os em câmara lenta. Ao ralenti. É mais bonito, assim. E no mundo que há atrás dos meus olhos, mando eu. Depois subimos a escada. Eu e os meus. Lá em cima, levanto a taça. O tesouro que descobri. E mostro-o a todos. De boca aberta e de braços no ar. Com os meus empoleirados em mim.

Quis ser escritor.

Escrever linhas bonitas. Linhas iguais a janelas. Com as persianas abertas até cima. Sem frinchas. Das que mostram tudo. Linhas iguais a corações que batem muito depressa. Linhas que ejaculam vida. Da boa!
Quis ter a rima que rimava mais longe. A palavra mais alta. A história com mais Guevaras e Mandelas. Quis escrever. Que é minha forma de pintar. Sei as letras. Não sei as cores. Às vezes acerto. Mas é sorte!

Dentro de mim, onde a vida é como eu quero, já fui tudo. Em mim, na biblioteca que tenho nos olhos, fui Nobel. Escrevi o livro mais bonito. Que fez crescer pontes. Que ligaram margens desavindas. Escrevi o livro mais bonito. Que forrou gôndolas de Veneza. Que não deixou que falhasse o chão a quem quer que fosse.
Em mim, há um país inteiro. Onde posso ser tudo.

Sou professor. Não sei se para sempre. Sou-o hoje. Que é a única coisa que existe.

Ensino tudo. O que sei e o que não sei. Invento histórias de encantar. Das que fazem abrir a boca. Às vezes de espanto. Às vezes de sono. Mostro o mundo. Sem nunca sairmos do sítio. Já fomos à Rússia. E à India. E à Bélgica. Lemos Pessoa. Imaginamos galáxias e constelações. Sabemos que não se diz tu há-des. Nem tu ouvistes. E que não se escreve tainjerina. Nem Pai Noço que estais no Çeu. Sabemos que o quê de quaquá maiúsculo é difícil de fazer. Sabemos que nunca podemos tirar o acento ao cágado.

Sou professor. Também ensino a tabuada. E os rios. E as palavras esdrúxulas. E as graves. E as contas de mais. E o gado caprino. E as arestas. E que os de Castela eram maus como as cobras. Isso tudo. Mas muito mais. Muito mais.

Sou professor. E piloto de avião, também. Sempre sem do sair sítio, levo os meninos a todo o lado. Somos nómadas. Eu guio o avião. Eles põem-se à janela. A espreitar. Vamos à Grécia ver os deuses. A seguir, estamos ali ao pé de Madagáscar, de binóculos, com o pescoço esticado, a olhar para a Índia. Damos um salto ao Egipto, depois. Vemos as pirâmides num instante e voamos até à Lua. Lá, espetamos a bandeira no chão, fazemos uma cambalhota muito devagarinho e seguimos até Marte. A seguir jogamos ao arco com os anéis de Saturno e voltamos antes de tocar. Aterramos no sítio de onde nunca saímos. A tempo de comer o pão com tulicreme da merenda.

Sou professor. Planto aeroportos no coração dos pequeninos. Ou tento. Para que possam ir aonde quiserem. Sempre que quiserem.
A viagem mais bonita é aquela que fazemos até nós. Basta fechar os olhos. Até parece cinema.

Junto os pedaços todos do que sou, agora. Na terra que há dentro de mim, defendo penaltis no último minuto e escrevo linhas com muito sol. E com um bocadinho de chuva, também. Mas só para, a seguir, haver cheirinho a terra molhada.

Sou isso tudo. E sou professor. Sobretudo professor. De meninos de olhos muito grandes. Onde cabe o mundo todo.

Às vezes emprestam-mos. E eu fico do tamanho deles.

Gigante.

JoãoNogueiraLogoCrónica de João Nogueira
Pés bem assentes na lua

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5 Comments

5 Comments

  1. Ricardo Espada

    29/03/2014 at 9:05

    Olá, João.

    Estive a ler a tua crónica com uma atenção e concentração redobrada, e quero dar-te os parabéns… Porque, quando dei por mim, estava a viajar pelo teu mundo, sentado à mesa da sala de aula a ouvir o professor João Nogueira a levar-me a viajar com as palavras que lhe saiam da boca como por pura magia.

    Não pares. Nunca pares. De escrever, de ser professor e, sinceramente, de sonhar… 🙂

    Um abraço,

    Ricardo Espada

  2. João Nogueira

    31/03/2014 at 20:37

    Grande Ricardo, muito obrigado. Um forte abraço para ti.

  3. Ines Guimarães

    05/10/2016 at 11:12

    Olá João!
    Fiquei a conhecer-te através de um “post” da minha prima Ana Cláudia e tive de vir dar-te os meus parabéns por esta crónica. E descobri que, além de seres Nogueira como eu, também és meu conterrâneo! Embora eu me tenha “vendido aos Mouros”, como diz a minha família!
    Quem me dera ter tido um professor assim, que me fizesse viajar de forma tão criativa. Faz tanta falta aos miúdos, cada vez mais, nos tempos que correm…
    Vou acompanhar o teu blog e fico à espera do livro que certamente irás escrever! 🙂
    Um beijinho!

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